quinta-feira, 13 de setembro de 2018
É a crise
É A CRISE!
Fleming de OLiveira
Pertenço a uma geração
desajustada, obrigada a saber a tabuada, aprender caligrafia, fazer redações, conhecer
os nomes dos rios, serras, linhas férreas, etc, que utilizava giz e a lousa, fazia
exames e neles tinha que provar saber e onde um sete (chumbo) era estar mais
abaixo que um cão. Levava “bolos”,
era suspenso por “manguelice” (expressão
tripeira, conforme a minha sabida origem, que significa malandrice) e expulso
do Liceu D. Manuel II por mau comportamento.
Aos sábados de tarde, marchava ao comando de Chefes de Quina como o
Lopes e desfilava no 10 de junho cantando o Hino da Mocidade (Portuguesa).
Tolhido
de raciocínio, fiquei incapaz de compreender subtilezas do mundo moderno, tenho
dificuldade em compreender as razões de certos fenómenos e situações impostas
pelo Poder, que vamos tendo.
Há dias no Centro de
Saúde uma senhora, na casa dos quarenta e picos, passou a olhar-me fixamente,
indecisa se eu era ou não. Quando perguntou e confirmou que era mesmo eu, pediu-me
se podia falar. “Claro que sim”. Está
separada do marido, é doméstica e tem problemas de relacionamento com o filho. Eu
disse-lhe que o local não era o melhor para falar de assuntos delicados, havia
pessoas à volta e não tinha a Lei à mão. A conversa foi continuando e a certa
altura referi que já atendera perguntas mais ou menos parecidas, mas uma “consulta assim, era a primeira vez”. E
acrescentei que “se o processo pegar,
vamos começar a ver advogados atendendo clientes bebendo um copo na discoteca,
padres ouvindo em confissão na esplanada do nosso Mosteiro e médicos a
auscultarem doentes no parque de estacionamento automóvel, tudo muito prático,
rápido, económico e moderno”.
Sorrimos,
eu, ela, e uma senhora que assistiu calada.
Entretanto,
fui chamado para a consulta com o Dr. José Tomás e, quando regressei à sala de
espera, ela já lá não se encontrava.
Não
muito depois, encontramo-nos na Esplanada
do Bibi e a senhora, com a familiaridade e o à vontade de um conhecimento
anterior, foi ter comigo e comentou: “Sabe
doutor a sua conversa foi muito útil, estou a dar-me muito melhor com o meu
filho, este belo rapaz que aqui vê. Mas desculpe o mau jeito do outro dia. Sabe
o que faz isto? É a crise”.
Bem
sei que em matéria de bibliotecas, arquivos, defesa do património, reabilitação
urbana, centros interpretativos, museus, etc., etc. (esta é a minha área de
devaneio) a atualidade nada tem a ver com o passado. Mas não chega para
contrariar o pedantismo da “Alta Cultura”
perante as minorias e, da “Baixa Cultura”
perante a maioria dos que pastam, se abstém de votar e já nem sequer procriam.
Trago
no bolso um caderninho onde anoto para este ou outros “apontamentos vadios”, o que me vem de fora e de dentro. É um
registo de coisas passadas ou de inspirações futuras. E, como os meus espaços
privilegiados de audição são as salas de espera ou o café, é aí a “pescaria” que recolho.
Faz-me
gargalhar (nada benevolamente, aliás) apontarem-se direitos individuais aos
pais que são violados num Sistema Judicial que demora “séculos” a despachar sobre atos essenciais, que demora anos a
decidir sobre a vida de crianças, tolhido nos meandros de leis e respostas tecnocráticas,
em gabinete. Um Sistema a rolar por uma
teia de códigos elaborados, não para promoverem a Democracia (cuja essência e
princípio sagrado é segundo aprendi uma justiça “justa”, célere, eficaz e acessível), mas para permitirem o descrédito
do estado democrático e a repulsa por algumas instituições. É por isto tudo e mais
um rol sem conta de atentados à nossa liberdade e direitos (como as listas de
espera do SNS e a concentração dirigista dos meios de comunicação, com especial
referência ao que se passa na informação das televisões), e o mundo de filhos,
afilhados, enteados e sobrinhos que têm emprego, enquanto o resto do País
vegeta, que detesto “malandragem” , e
dou o acordo a quem diz que quatro décadas de
“democracia não impediram a política de se constituir numa impostura, a arte de
conduzir os homens, enganando-os”.
O
meu Pai, republicano portuense, mas por princípio do “contra”, pouco antes de morrer, em 1994 referindo-se ao que via à
volta, dizia que tudo isso lhe metia repulsa. Lá tinha as suas razões. E os pais sabem muito…
OS MAIAS NA ESCOLA
FLeming de OLiveira
Tenho que começar por fazer uma declaração de interesses.
Eça de Queiroz é, para mim, o grande
romancista, e OS MAIAS a sua obra-prima. Ainda nos meus tempos de estudante
pré-universitário, “devorei” OS
MAIAS, não apenas por obrigação, mas por devoção. Admito que, para isso, tenham
contribuído os meus Pais, que dispunham em casa de uma boa biblioteca (que
felizmente herdei em parte), e que fomentavam nos filhos a necessidade de
conhecer o que de bom e fundamental, existe na nossa cultura. Quando tive
lições de literatura com o Professor Óscar Lopes, recordo como me salientava a
qualidade dos textos queirosianos e a sua relevância para se saber escrever um
bom português.
Como já tenho dito e escrito, pertenço a
uma geração hoje considerada “inabilitada”,
do tempo em que se aprendiam as linhas de caminho-de-ferro (apeadeiros e
ramais), a ter boa caligrafia, as serras e rios (e afluentes), os Reis de
Portugal, não havia vergonha da nossa História Trágico-Marítima, se lia Camões,
tinha 2 anos de latim (para quem pretendesse seguir o ramo das Humanidades),
não havia máquinas de calcular, muito menos computadores, e que escrever bem
era um atributo muitíssimo importante para entrar e prosseguir no ensino
superior, no meu caso a Faculdade de Direito.
Mas hoje tenho visto Colegas e
Magistrados, sem dúvida juridicamente sabedores, cujo português escrito, não
será (muito) melhor do que o do meu neto de 16 anos, sem ofensa para este.
A obra OS MAIAS não vai,
afinal, desaparecer da lista de leitura para o ensino secundário, como o Ministério da Educação/ME chegou a propor!!!
As chamadas aprendizagens essenciais vão ser aplicadas
a partir do próximo ano letivo, num processo que começará, no caso do
secundário, pelo 10.º ano. Para o ME, se bem percebi, a definição destas aprendizagens,
que esteve principalmente a cargo das Associações de Professores (conheço mesmo
uma professora que ainda dará aulas por mais uns cinco anos e que diz que não
ensina Camilo, pois já não estamos em tempo de “amores de perdição ou salvação”), é necessária para resolver o
problema da “extensão” dos atuais
programas e permitir que seja fixado um “conjunto
essencial de conteúdos” que os alunos devem saber em cada disciplina.
Na anterior versão do ME, os documentos
propostos para a disciplina de Português, omitiam as obras de Eça de Queirós
que deveriam ser lidas no secundário, “referindo
apenas que os alunos teriam de ler um livro deste autor”.
O programa da disciplina, que ainda se
encontra em vigor, determina que a abordagem a Eça de Queirós, incluída na
matéria do 11.º ano, passa pela leitura de OS MAIAS ou A ILUSTRE CASA DE RAMIRES.
A
supressão de OS MAIAS na versão inicial apresentada do ME, deu origem a um coro
de protestos de académicos, pessoas cultas (onde não se encontravam
necessariamente políticos…), e professores talvez todos eles “inabilitados”.
Não foi apenas em relação a Eça que o ME
recuou. Nas listas de leitura apresentadas para o 10.º, 11.º e 12.º ano, voltam
a ser inscritas as obras de Almeida Garrett (o “teatral” FREI LUÍS DE SOUSA, Alexandre Herculano (O MONGE DE
CISTER) e Camilo Castelo Branco (os démodé amores de salvação e perdição), que
tinham desaparecido da versão inicial das aprendizagens essenciais, onde foram
substituídas por “escolher um romance”
de um destes três autores. Interrogo-me que romance camiliano aquela Senhora
Professora vai escolher…
A Presidente da Associação de Professores
de Português, justificou esta opção, com “a
necessidade de diminuir o número de obras propostas para leitura”, se permitir
“o alargamento das opções que podem ser
tomadas pelos docentes”, a quem ficaria entregue a escolha dos livros que
os alunos deveriam ler.
Também no 12.º ano, o ME desistiu de
retirar a abordagem ao conto, enquanto género literário. Na lista de leitura
para este ano de escolaridade voltam a estar incluídos contos de Manuel da
Fonseca, Maria Judite de Carvalho e Mário de Carvalho, que muito aprecio.
O ensino da literatura no nosso ensino secundário morreu
há muito tempo!
O medo, o comodismo, a
falta de cultura literária (mesmo de alguns “docentes” como referi), os exames nacionais, o ensino “sebenteiro” deram cabo do gosto pela
leitura. O ME assiste impávido e sereno a este enterro, piscando à direita e à
esquerda, sorrindo de soslaio para uma corte de acríticos que seguem atrás do “defunto”.
Se o facto
permitir/impor que Os Maias sejam lidos na Escola, tudo bem, embora haja coisas
que quando se tornam oficializadas ou obrigatórias desenvolvem um efeito
perverso ..., pelo que se a minha opinião ou vontade valessem alguma coisa,
gostaria muito mais que a leitura decorresse de um gosto cultivado.
É bom salientar quando
o bom senso prevalece. Mas ainda bem que houve toda esta dinâmica.
Claro que o português
terá liberdade para ao longo da vida ir escolhendo as suas leituras (10% dos
alunos do ensino secundário nunca leram um livro do princípio ao fim, e os pais,
como é usual dizerem, não têm tempo para essas futilidades…) mas, para base do
ensino secundário, aconselharia que a escolha não fosse volátil.
DEDICATÓRIA AOS MEUS
AMIGOS
Fernando Pessoa e FLeming de OLiveira
-Os amigos são para as ocasiões?
Não,
caros leitores os “amigos” são para
sempre.
A
amizade é um prazer, uma satisfação, um gosto. Não deve depender de favores ou
ajudas. Pede-se, dá-se, recebe-se,
esquece-se e, nesse caso, não se fala mais nisso.
São
para as ocasiões?
Costumamos
dizer que amigos de verdade são os que estão ao teu lado em ocasiões
difíceis...
Mas
não estou de acordo com essa antiga máxima popular! Os amigos verdadeiros são
os que estão a compartilhar a tua felicidade! Porque num momento difícil,
qualquer “Zé” se aproxima de ti. Mas
o teu inimigo jamais suportaria compartilhar a tua felicidade!
O
desvalor da amizade, tal como da solidariedade a que me referi há tempos neste
espaço de jornal, deve-se a uma persistente instrumentalização que tem sofrido.
É o perverso instrumento de cunhas, palavrinhas segredadas ao ouvido,
cumplicidades e compadrios. Por isso, essas amizades se fazem e desfazem como
se fossem circunstanciais tratos políticos ou comerciais.
Se
alguém “não corresponde”, se não
cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como “o mau” amigo, o “o ingrato” e sumariamente afastado. Tenho
necessidade de pensar e acreditar que os Amigos são com quem (não obstante a
distância) estamos em contacto. Podemos até gostar mais deles do que eles de
nós. Não me interessa, nunca encarei como questão de balança.
Os
amigos são úteis?
Não
caros leitores, não são úteis, têm mesmo de ser “inúteis”.
Bom,
tenho de explicar para não haver mal-entendidos e me possa ser permitido
continuar a colaborar com o Região de Cister, os amigos devem bastar só por si,
existir. O porquê, o onde e o quando não me interessam. A amizade não tem ponto
de partida, nem percurso, nem objetivo. É impossível lembrarmo-nos de como nos
tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vai ter essa relação.
É
por isso que dura para sempre, porque não contém expectativas nem planos, nem
ansiedade.
-"Um
dia a maioria de nós irá separar-se.
Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora,
das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e
momentos que partilhamos.
Saudades até dos momentos de lágrimas, da angustia, das
vésperas dos fins-de-semana, dos finais de ano, enfim...do companheirismo
vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.
Hoje já não tenho tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado.
Seja pelo destino ou por algum desentendimento, cada um
segue a sua vida.
Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe... nas
cartas que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... os
dias vão passar, meses... anos... até este contacto se tornar cada vez mais
raro.
Vamo-nos perder no tempo...
Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e
perguntarão:
-Quem são aquelas pessoas?
Diremos... que eram nossos amigos e.… isso vai doer tanto!
-Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos
da minha vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...
Quando o nosso grupo estiver incompleto... reunir-nos-emos
para um último adeus a um amigo.
E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos.
Então, faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes
daquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a
viver a sua vida isolada do passado.
E perder-nos-emos no tempo...
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes
que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de
grandes tempestades...
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem
morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus
amigos!"
-Este texto que acabo de transcrever e que utilizo como
cartilha, é de Fernando Pessoa, agradecendo desde já ao nosso Diretor Joaquim
Paulo tê-lo publicado pois embora seja um autor estudado no ensino secundário e
frequentemente matéria de exame de português, creio que a generalidade dos
alunos o desconhece. É pena porque contem uma verdadeira compilação de
sentimentos e comportamentos profundos e que só com o tempo e a idade se
percebem.
E
já estou hoje com Pessoa, relembro com a devida vénia mais este texto
muitíssimo elucidativo:
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus
que se haviam zangado. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam
zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos
tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e outro
outra, ou um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via
as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério
idêntico ao do outro. Mas cada um via uma coisa diferente, e cada um portanto,
tinha razão.
Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.
-Boas férias se ainda as não gozou.
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