segunda-feira, 16 de outubro de 2023

EÇA DE QUEIRÓS NO PANTEÃO NACIONAL.

Eça de Queiroz morreu em Paris a 16 de agosto de 1900 e foi sepultado em Lisboa, no Alto de S. João. Em setembro de 1989, os seus restos mortais (cujo jazigo se encontrava abandonado, sem cuidados, nem manutenção pelos descendentes) foram transportados para o cemitério de Santa Cruz do Douro/Baião.

A trasladação para o Panteão Nacional, esteve prevista para 27 de setembro de 2023, data agendada em julho. A resolução, aprovada por unanimidade em plenário da Assembleia da República, a 15 de janeiro de 2021, foi uma iniciativa da Fundação Eça de Queiroz impulsionada pelo grupo parlamentar do PS. A iniciativa partiu de um repto lançado pela Fundação e inseriu-se no espírito da Lei que define e regula as honras de Panteão Nacional, “conceder honras de Panteão Nacional aos restos mortais de José Maria Eça de Queiroz, em reconhecimento e homenagem pela obra literária ímpar e determinante na história da literatura portuguesa”.

Ficou também decidido, através da mesma resolução, “constituir um grupo de trabalho composto por representantes de cada grupo parlamentar com a incumbência de determinar a data e de definir e orientar o programa de trasladação, em articulação com as demais entidades públicas envolvidas, bem como um representante da Fundação Eça de Queirós”.

No Panteão Nacional, em Lisboa (inaugurado em 1966), encontram-se sepultadas figuras da história política portuguesa, como Teófilo Braga, Sidónio Pais, Óscar Carmona (e outros presidentes da República), Humberto Delgado, assim como personalidades das letras que vão de Almeida Garrett a Sophia de Mello Breyner e Aquilino Ribeiro, passando pelos populares Amália e pelo futebolista Eusébio.

Eça de Queirós inspirou-se nas paisagens durienses para escrever “A Cidade e as Serras”, onde, compara a tranquilidade da casa de Tormes, com a vida agitada de Paris, onde trabalhou. Diplomata de profissão, passou largas temporadas longe do país (Cuba, Inglaterra e França), lançando na sua obra um olhar crítico sobre a vida em Portugal, onde vinha sempre que podia, e assinando textos que, mais de 120 anos depois, continuam a ser de leitura “obrigatória” na Escola e na sociedade, a serem adaptados com sucesso ao teatro, cinema e televisão.

Porém, nunca viveu ou frequentou Tormes (terá lá ido meia dúzia de vezes se tanto), pelo que a sua relação com esta localidade ou casa se circunscreve às personagens literárias que criou.

Seis dos atuais 22 bisnetos, antigos dirigentes políticos locais (a política está sempre disponível para intervir…) e algumas pessoas de Baião (quem e a que título?), estão contra a trasladação para o Panteão Nacional.

Em 2023, um grupo de descendentes do escritor escreveu ao Presidente da Assembleia da República a propor que em vez desta trasladação, fosse colocada uma lápide evocativa no Panteão Nacional, permitindo que os restos mortais permanecessem em Tormes. Num momento inicial, o coordenador do grupo de trabalho parlamentar para o tema, indicou que nada tinha mudado e que o processo iria seguir seus termos. Seis bisnetos avançaram, então, com um pedido de providência cautelar no Supremo Tribunal Administrativo/STA para impedir a trasladação. O Tribunal admitiu o pedido, citou a Assembleia da República para  se pronunciar e considerou, pese embora numa decisão neste momento ainda provisória, que a trasladação é legítima.

O político e antigo presidente da Junta de Freguesia de Santa Cruz do Douro, António Fonseca, defendeu que “o lugar de Eça só pode ser mesmo à sombra de Tormes” e que a maioria da população local é da mesma opinião. “Os políticos, em vez de trazerem algo de Lisboa para cá, ainda nos querem levar o pouco que temos”.

Desde já refiro que sou um apaixonado pela obra queirosiana que conheço razoavelmente bem, e que nunca encontrei determinação escrita ou velada sobre onde Eça gostaria (ou não) de ficar finalmente.

A decisão do STA ainda não é definitiva, pelo que deverá ser agendada uma nova data para a cerimónia de trasladação, que muito gostaria de presenciar.

Não como político, mas como mero cidadão, sou de opinião firme que os restos mortais de Eça de Queirós (expoente da glória nacional), deverão ir de vez (e não simbolicamente) para o Panteão Nacional.

 

Pedido colaboração para o jornal O Alcoa.

 Aproxima-se o dia 25 de abril de 2024, em que o País celebra os 50 anos da Revolução de 25 de abril de 1974. O Alcoa pretende, dentro dos seus condicionalismos, associar-se a esse importante e memorável evento nacional. Assim, a partir do próximo mês de novembro, vai reservar em cada número (salvo motivo imponderável), um espaço para os seus leitores exprimirem opinião, sobre o que foi a revolução em si, bem como os efeitos nestes últimos 50 anos, tanto em Alcobaça (preferencialmente), como no País. Nestes termos, aceita, desde já, colaboração, traduzida em textos originais e inéditos, devidamente assinados, enviados via correio electrónico, não excedendo 2.000 caracteres. Para sua apreciação, foi criado um grupo de colaboradores do jornal, que ajuizará sem recurso, a respetiva qualidade. Os textos serão publicados, pelo menos, até 25 de abril de 2024.


terça-feira, 8 de agosto de 2023

OBRIGADO PAPA FRANCISCO

 

OBRIGADO PAPA FRANCISCO

 

FLeming de OLiveira

 

Como cristão/católico e português sinto-me muito satisfeito, reconfortado e orgulhoso pela forma como decorreu a “Jornada Mundial da Juventude/Lisboa 2023”. Há 4 anos, poucos calculariam o enorme sucesso em que se converteria.

Isto recordou-me quando, a partir do Porto, com familiares e amigos (em 1993 ano de “Xacobeo” e em que ainda me movia bem), fiz uma peregrinação a Santiago de Compostela. Nesse ano, o dia 25 de julho,  coincidiu pois com um domingo. 25 de julho, é o dia de Santiago Maior, cujos restos mortais supostamente se encontram na Catedral, o que a converteu no principal destino de peregrinação cristã na Europa durante a Idade Média a seguir a Roma,  através do chamado “Caminho de Santiago”, uma rota iniciática que seguia a Via Láctea. Existem registos de locais de peregrinação ofuscados pelo cristianismo, como o caso da Santiago de Compostela, cuja catedral pode ter sido construída onde passaria uma rota mais antiga, a peregrinação a Finisterra  (fim-da-terra), para ver o deus Sol "morrer no Ocidente" e no dia seguinte “ressuscitar no Oriente”.   A celebração do “Xacobeo”, “Ano Santo” ou “Año Jubilar” (na versão espanhola), inicia-se com a abertura da “Porta Santa”  na tarde de 31 de dezembro do ano anterior. Este evento não ocorre de 7 em 7 anos, os anos bissextos não podem ser esquecidos, pelo que teremos apenas 14 jacobeus por século. Como um símbolo da dureza do “Caminho”, o Arcebispo de Santiago bate três vezes com um martelo de prata do lado de fora no muro que veda o acesso. A “Porta” ficará aberta ao longo dos doze meses seguintes e será o acesso que, segundo a tradição, os peregrinos devem usar para entrar no Templo, como foi o nosso caso. As exigências formais para ganhar o “Jubileu” são simples, visitar a Catedral, rezar pelo menos uma oração, fazer a confissão e receber a comunhão no dia da peregrinação ou quinze dias antes ou depois, sendo que estes sacramentos podem ser cumpridos em qualquer lugar. Para mim e companheiros foi um momento especial a peregrinação a Santiago de Compostela (aonde já tinha estado várias vezes como turista), pois, para além da indulgência plenária, a cidade está cheia de eventos e celebrações e a atmosfera é única.

A um alcobacense ou amigo que hoje em dia visite o Porto e o Terreiro da Sé, informo que encontra um Marco Jacobeu, uma peça de granito, que se coloca próximo de uma “Ruta Xacobea”, para indicar aos peregrinos a direção correta e a distância até Santiago e que contém dois dos símbolos mais reconhecidos do Caminho, a seta amarela e a concha de vieira.

Foi nesta JMJ-2023 que ocorreu a maior concentração de pessoas, que alguma vez aconteceu em Portugal. Mais, bastante mais que em 1967 em Fátima aquando da visita de Paulo VI, e o Comício da Fonte Luminosa em 1975 com Mário Soares.

Se tivesse tido oportunidade de me encontrar com o Papa e de lhe dizer alguma coisa, seria apenas OBRIGADO PAPA FRANCISCO.

SOBRE O QUE É IMPORTANTE

 

SOBRE O QUE É IMPORTANTE

FLeming de OLiveira

 

 

Nestes meus apontamentos para O ALCOA, tenho evitado abordar questões políticas tout court, sejam elas locais ou nacionais.

Desta vez, neste regresso ao trabalho e das férias que o jornal também usufruiu, vou fazer uma exceção (perdoem-me a nossa diretora Catarina Reis e os leitores), comentando o “tempo que passa por aí” e evitando vestir a camisola “laranja”, que gostosamente adquiri há perto de 50 anos e tenho na gaveta para utilizar em momentos especiais.

Como muitos portugueses e a maioria dos alcobacenses, entendo que o Governo Costa está a desperdiçar a maioria absoluta, por se centrar no imediato, no impacto da guerra na Ucrânia, sem revelar capacidade de, a par disto, se debruçar sobre questões de médio/longo prazo ou alcance, ao invés de procurar com idoneidade consensual as questões estruturantes, em suma, de intentar uma política consensualizada.

A Justiça, a Educação (sem esquecer a arrastada questão dos professores…e o veto presidencial), a Saúde, a Segurança Social, são matérias sobre as quais haveríamos que ter uma política consensualizada. Não quero dizer com isto que todos os partidos tenham que pensar ou propor o mesmo (PSD e PC ?), falar em uníssono, mas que tem que haver eixos estruturantes. Claro que a ideia não é nova, nem original, mas uma pecha nacional. É mau, muito mau mesmo para o País que, sempre que venha um novo governo, se confronte com o desfazer o que anterior andou a fazer. 

Neste sentido recordo um político, aliás comprometido com o partido do atual governo, que disse há dias que Portugal é uma cobaia.

Sobre a Comissão Parlamentar de Inquérito  sobre a tutela e política de gestão da TAP, entendo que o essencial (“a gestão das empresas públicas, a situação da TAP e o seu futuro”)  não foi verdadeiramente discutido, pelo menos tendo em nota o que a televisão mostrou à saciedade e ad nauseam. A CPI foi alimentada com questões laterais, menos relevantes, afinal com a intriga política e as notícias sensacionalistas, fáceis de noticiar, de digerir e que dispensam análise por quem sabe e não se socorre do improviso.

Bom trabalho, paz e saúde, caros leitores, neste regresso ao quotidiano.

E deixemos a intriga.

 

quarta-feira, 12 de julho de 2023

EÇA DE QUEIROZ, O TEMIDO Dr. GODINHO, O PADRE AMARO E LEIRIA.

 
EÇA DE QUEIROZ, O TEMIDO Dr. GODINHO, O PADRE AMARO E LEIRIA.

 

No dia 17 de Junho de 2023, foi apresentado no Juncal o livro EÇA DE QUEIROZ, O TEMIDO Dr. GODINHO, O PADRE AMARO E LEIRIA.

 

Bacharéis, Magistrados, Advogados, Tabeliães, Escrivães, Meirinhos, Homens de Leis, aparecem amiúde, na obra queirosiana.

Como viu ele essa gente?

Com o aristocratismo indolente e dandy de um Carlos da Maia, com o apuro intelectual de um Fradique Mendes ou com o espírito das rimas mordazes de Sá de Miranda ou de Gil Vicente? Que ideia fazia dessas pessoas que lidam com o papel selado? Pretendeu elogiá-las? Denegri-las? Ou tão só representá-las?

 

A entrada d’O Crime do Padre Amaro no universo escolar foi muitas vezes retardada e até censurada, em particular durante o Estado Novo, sob o pretexto de uma moralidade a que sobrava hipocrisia e a que faltava lucidez.

 

Em Leiria, Amaro rezava missas como se impunha mas o seu pensamento, devaneio e ocupação eram a Amélia.

 

É n´O Crime (…) que aparece o temido leiriense Dr. Godinho, respeitável chefe de família, cuja eloquência arrancou inúmeros desventurados ao cutelo da lei. Homem pronto a levantar falsos testemunhos, e cujo desamor pela Igreja e seus ministros se sintetiza na ordem dada aos redatores d´A Voz do Distrito: Em tudo o que cheire a padre, para baixo! Havendo escândalo conta-se! Não havendo, inventa-se!

 

Eça de Queiroz faleceu em 16 de Agosto de 1900 em Paris e foi sepultado em Lisboa. Em setembro de 1989, os seus restos mortais foram transladados do Cemitério do Alto de São João/Lisboa para um jazigo de família no cemitério de Santa Cruz do Douro (Tormes), Baião.

A Assembleia da República em janeiro de 2021 aprovou por unanimidade um projeto de resolução para conceder honras de Panteão Nacional aos restos mortais de Eça de Queiroz em reconhecimento e homenagem pela obra literária ímpar e determinante na história da literatura portuguesa.

 

A obra pode ser adquirida via flemingdeoliveira@gmail.com ou 962925444 




UM PAPA EM PORTUGAL

 

UM PAPA EM PORTUGAL

 

FLeming de OLiveira

O ambiente era de tensão, entre o Governo Português e o Vaticano, nesses tempos finais do salazarismo, embora a maioria dos portugueses não se apercebesse disso.

“Oficialmente nada sei, mas, pessoalmente, creio que o Papa” (Paulo VI) “virá a Portugal, caso não haja implicações internacionais que o não permitam”, declarou, com cautela, o leiriense Cónego José Galamba de Oliveira, vice-presidente da comissão central das comemorações do cinquentenário das aparições.

Os rumores de uma visita papal a Portugal começaram a circular durante a cerimónia da entrega por Paulo VI da Rosa de Oiro ao Santuário de Fátima e, embora sem confirmação oficial, passaram a ter acolhimento muito favorável nas autoridades eclesiásticas portuguesas. A viagem foi publicitada na Audiência Geral de 2 de maio de 1967 e apresentada como uma “peregrinação para honrar Maria Santíssima e invocar a sua intercessão em favor da paz na Igreja e no Mundo. A peregrinação rapidíssima, terá caráter privado. Sua Santidade o Papa, partirá para Fátima no dia 13, e o avião aterrará no aeródromo de Monte Real. Depois de celebrar missa e falar aos fiéis, regressará a Roma no mesmo dia”.

Do ponto de vista da comunicação social, a visita papal foi, provavelmente, o acontecimento mais mediático a que, até então, se assistira e que veio atenuar a política isolacionista do Estado Novo e também fonte de inspiração e estímulo para os que se lhe opunham.

Salazar terá “jurado” a Franco Nogueira que enquanto fosse vivo, Paulo VI não viria a Portugal, que lhe recusaria o visto de entrada.

À partida, era expectável que a visita do Papa se prestasse a ser fortemente capitalizada pelo regime. Mas também acabou por se revelar mobilizadora e benéfica para as oposições, que reconheciam os seus anseios e preocupações no discurso de Paulo VI que liderava um movimento de renovação da Igreja, que assumira a causa dos mais fracos e denunciava as injustiças decorrentes de um capitalismo feroz e alheado do progresso dos povos, que por isso fomentava a revolta e a guerra.

Conforme o embaixador de Portugal em Roma, António de Faria, o Pontífice tardou todavia a dar o “sim” à deslocação.

O primeiro a receber no Vaticano um arcebispo de Canterbury  (na época, Geoffrey Fisher)  foi porém João XXIII, a 2 de dezembro de 1960. O primeiro encontro entre um Pontífice e um Primaz da Comunhão Anglicana desde 1559, foi um marco do ecumenismo. Mas, curiosamente, um evento do qual não existe nenhuma fotografia. Afinal a Igreja também faz “birras”…

Conta-se que o parecer favorável de João XXIII ao encontro (o pedido vinha do próprio Fisher)  gerou turbulência na Cúria, pelo que não foi destacado fotógrafo para o acontecimento. Não foi uma decisão improvisada, mas sim preparada por anos de atenta reaproximação, mas que nem a fórmula de uma “visita de cortesia” foi suficiente para torná-la menos explosiva.

Paulo VI foi o primeiro Papa a fazer com regularidade, viagens para fora do Vaticano. Antes de Fátima, foi à Terra Santa, à Assembleia Geral de ONU, em 1963 ao Congresso Eucarístico em Bombaim, o que Franco Nogueira, qualificou como “um agravo gratuito, no duplo sentido de que é inútil e injusto para com um país católico”.

A deslocação a Fátima, à partida, não foi apreciada pelo governo português. Permanecia o agravo entre a Índia e Portugal, pois aquela tinha invadido e ocupado Goa, Damão e Diu em dezembro de 1961, e, apesar da tentativa do Papa em procurar mostrar que a ida a Bombaim não era um gesto hostil a Portugal e ao catolicismo português, provocou uma forte reação por parte de Salazar e do Governo.

A visita papal a Portugal deveria ser um momento de glória, nunca de embaraço. Não foi uma visita de Estado, o Pontífice decidiu não ir a Lisboa, não pernoitar em Portugal mas aceitar ser convidado do Bispo de Leiria. Enfim, para mostrar o distanciamento face ao regime político português.

Assim que correu a notícia da visita papal, o país entrou em efervescência a preparar a receção que, além da solenidade protocolar propriamente dita, se queria envolta em exuberantes manifestações populares de carinho e apoio à sua pessoa (e ao regime…), bem como ao propósito da peregrinação, a paz no mundo e o entendimento dos homens.

O regime controlava a comunicação social, pelo que pode ao seu estilo apresentar e fazer o enquadramento da visita, valorizando a vinda em si e apagando sinais desse distanciamento junto da população. Era importante confirmar a imagem de um Portugal católico e leal, sendo a multidão uma manifestação de apoio ao regime.

Essa postura, foi a que passou para consumo interno.

 

AGITAÇÃO EM FRANÇA

 

AGITAÇÃO EM FRANÇA

Cumprimentos aos nossos leitores

 

FLeming de OLiveira

 

A agitação social que recentemente se registou em numerosas cidades francesas, parece-me ser o momento para abordar a sua dimensão real e causas, antes de fazer o levantamento dos desafios que se colocam para levar a cabo uma nova política de integração sociocultural, cujas lacunas insofismavelmente se revelam.

Tendo em conta o efeito amplificador de imagens de incêndios e de violência que nos chegaram, era expectável títulos tão sensacionalistas como “A França a fogo e a fogo”, “Paris já está a arder”. Certos comentadores, aproveitaram a oportunidade para ajustar contas com o modelo de integração “à francesa”, sublinhando o carácter xenófobo e racista do país.

Falei um dia destes com um meu conhecido radicado em Marselha desde inícios de 1970 (bem sucedido empresário da construção civil, reformado e integrado com filhos, netos e 2 bisnetos, mas que nem por isso deixa de se assumir como português nado e criado no Marco de Canavezes, aonde vem todos os anos) cuja sorte como de muitos nossos compatriotas poderia ser eventualmente inquietante, no quadro destes acontecimentos. Pessoalmente não se sentiu inquieto. Os actos de violência, no seu entender, foram indiscutível e desproporcionadamente graves, gravíssimos, incontáveis automóveis queimados, edifícios públicos vandalizados, lojas saqueadas, polícias feridos e muitos de detidos. Os acontecimentos não tiveram dimensão política, étnica ou religiosa, que por vezes os “media” lhes quiseram atribuir para consumo interno ou externo, não se apercebeu corresponderem a um plano pré-concertado. A violência rebentou sem ligação entre grupos de adolescentes, imigrantes de segunda geração, que conhecem mal (ou nem conhecem) o seu país de origem e que atravessam uma crise de identidade. Alegam, conforme os casos, que não tem as oportunidades dos outros jovens franceses para estudar, para trabalhar (o que não é inverdade) ou dispor de habitação condigna (mas o problema não é apenas francês). O seu comportamento, reflexo desta frustração e alegadamente em direta retaliação à descriminação policial, não questiona, todavia, serem franceses de pleno direito.

O meu interlocutor, apesar da pequena escolaridade que obteve em Portugal, defende, talvez por isso, a educação como prioridade, a luta contra o insucesso escolar, o aumento das bolsas de mérito para os provenientes dos “bairros problemáticos”, a abertura do ensino profissional aos jovens em rutura escolar, e na boa conceção portuguesa, uma maior responsabilização dos pais.

Ele que vive numa casa confortável fruto de muita canseira, lado a lado com imigrantes espanhóis e franceses da pequena classe média com quem se encontra no café, gostaria de ver erradicados os blocos de cimento construídos por si e muitos portugueses nos anos de 1960 e 1970 para corresponder ao pico da emigração proveniente da Europa do sul.


Se hoje em dia não se sente discriminado socialmente como gosta de salientar, já não pode dizer o mesmo dos magrebinos que abundam em Marselha (mas que não frequentam o seu café), pelo que vê como necessária a criação de uma autoridade contra a discriminação e para a igualdade de oportunidades, munida de poderes sancionatórios.


Portugal sentiu-se tocado, mas não contaminado, pelos acontecimentos em França.

Portugal foi um país de emigração, nomeadamente para a França. Para milhares de compatriotas nossos que procuravam trabalho, fugiam à ditadura e à guerra de África, o “salto” foi difícil, mas o estabelecimento globalmente bem-sucedido, pelo que se constata que, tal como os descendentes, ocupam frequentemente posições de destaque.


A integração dos portugueses em França pode ser considerada um êxito, sem descurar problemas iniciais como os que conheci em 1966 no bairro de lata de Champigny (Paris) o que como burguês me chocou pelo inusitado, ou os que ainda podem subsistir. A França enfrenta hoje o desafio da adaptação da sua política de integração com o fim de satisfazer os que reclamam na sua maioria de forma pacífica, o desejo de serem franceses de pleno direito.  Vamos a ver os que pode acontecer nos próximos tempos.

Cumprimentos aos leitores de O AlCOA em França.