-50 ANOS DO 25 DE
ABRIL-
VIVER COM UMA GUERRA
NO HORIZONTE
José Alberto Vasco
Ser um rapaz que entrava em 1974 com 18
anos de idade era muito complicado para qualquer jovem português, numa época em
que Portugal se envolvera numa mortífera guerra colonial com várias frentes de conflito.
Estudasse ou trabalhasse, o inquietante horizonte era o mesmo, numa época em
que o serviço militar era obrigatório e apenas implacáveis razões de saúde
permitiam evitá-lo, bem longe dos tempos da nossa agora vigente democracia e de
possibilidades de denegação legal como a objeção de consciência. Em tempos de
ditadura e hostilidade política compulsiva ao Estado de Direito e às suas
fundamentações, o panorama para esse mancebo vinculava-se coercivamente ao
cumprimento do serviço militar obrigatório, tendo como alternativa mais lógica
a deserção, com os inerentes problemas legais e vivenciais que essa atitude envolvia
a quem por ela optasse.
A guerra colonial, que os movimentos de
libertação do ultramar africano logicamente apelidaram de guerra da
independência, resultou de séculos de discutível ocupação portuguesa em países
como Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, tendo-se iniciado em 4 de fevereiro de
1961, quando um batalhão afeto ao MPLA atacou em Luanda instituições locais
como a Casa de Reclusão Militar, a Cadeia da 7ª Esquadra da Polícia, a sede dos
CTT e a Emissora Nacional de Angola, seguido por um desmedido massacre
perpetrado pela UPA, no norte de Angola, em 15 de março, que se tornou decisivo
por ter despoletado uma resposta imediata do governo do Estado Novo, liderado pelo
insensato Oliveira Salazar, ordenando a mobilização nacional obrigatória de
resposta com o envio de tropas para aquilo a que chamou de Zona Sublevada do
Norte, correspondente aos distritos do Zaire, Uíje e Cuanza-Norte. Seguiram-se
13 anos de hediondo conflito, extensível aos outros países ocupados por
Portugal em África, cujos movimentos de libertação também se organizaram
militarmente nesse sentido, enfrentando idêntica resposta do impulsivo governo
salazarista.
Viver nesse contexto de previsível e
quase inevitável participação forçada numa guerra truculenta e brutal era uma
perturbante expetativa de futuro para um
adolescente que vivia esse ciclo da sua vida, pendente da obrigatoriedade de ir
combater numa guerra sanguinária com a qual muitos não concordavam, como era o
meu caso, e para a qual foi aflitivamente mobilizada noventa por cento da
população jovem masculina do país, com um funesto saldo final estimado em cerca
de dez mil mortos e vinte mil inválidos entre as nossas tropas. Iniciei 1974 alarmado
pelo desassossego e pela incerteza quanto ao meu destino, tendo logo no início
do ano sido convocado para a inspeção militar obrigatória, que antecedia a temida
convocatória. Cumpri esse desígnio, embora já robustecendo dúvidas sobre se
iria ou não sujeitar-me à previsível mobilização, mas fui beneficiado pela ventura
imensa de ter sido adiado o resultado daquela inspeção, pois, entretanto, um
grupo de inesquecíveis e corajosos militares concretizou esse inolvidável ato
revolucionário que foi o 25 de Abril, libertando Portugal e a sua juventude de
um regime político cinzento, autoritário e retrógrado, sem capacidade política
de evoluir num universo civilizado, registando como uma das conquistas
essenciais daquela revolução o epílogo do redundante conflito bélico e
civilizacional que durante mais de uma década atormentara Portugal.
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