NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
VI
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DAS INSTALAÇÕES DA TOILETTE DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Em 25 de Junho de 1891, visitaram Alcobaça, o Rei D. Carlos e Esposa, D. Amélia, tendo sido festivamente recebidos pela população e pelas forças vivas. Segundo Bernardo Villa-Nova, no Livro de Honra do Hospital de Alcobaça, então recentemente inaugurado, D. Carlos escreveu com o seu punho:
APROVEITO A OCASIÃO DESTA VISITA PARA FELICITAR A MESA DA MISERICÓRDIA PELA PERFEIÇÃO DE ARRANJO E DE ASSEIO EM QUE TEM O HOSPITAL.
EL-REI D. CARLOS
D. AMÉLIA-RAINHA
Em 29 de Abril de 1907, de novo o Rei D. Carlos visitou Alcobaça, acompanhado do príncipe alemão Guilherme de Hohenlern.
A Rainha D. Amélia havia feito uma visita particular ao Mosteiro em Agosto de 1892.
De origem francesa, era pessoa culta e artista e que, não obstante os tempos conturbados do fim da monarquia e do exílio que cumpriu, assumiu sempre postura digna e respeitável.
D. Amélia era delicada pintora e desenhadora, sendo a sua obra mais conhecida, a colecção de desenhos do Paço de Sintra, destinados a ilustrar o estudo do Conde de Sabugosa, sobre esse palácio. Já no exílio, em França, manifestou para com os desprotegidos de Portugal, o espírito beneficente. Note-se, que o produto da venda da edição em dois volumes fac-similados de Mes Dessins, reverteu a favor da Associação Nacional aos Tuberculosos. D. Amélia dedicou parte da sua vida a fundar e apoiar instituições de beneficência, ligadas à saúde, à ciência e à cultura.
Entre estas, destacam-se dispensários e sanatórios, lactários, cozinhas económicas, bem como as creches que davam assistência às crianças pobres.
Em 1899, fundou a Assistência Nacional aos Tuberculosos e criou em Portugal, o primeiro Instituto Pasteur, com o nome de Instituto Câmara Pestana.
Também o interesse pelos bens e cultura portugueses, levou-a a fundar o Museu Nacional dos Coches. Voltando à referida visita, diremos que nesse mês de Agosto de 1892, D. Amélia veio a Alcobaça acompanhada dos seus amigos Conde de Sabugosa e Esposa, para desenhar alguns temas do Mosteiro, na altura em fase de degradação, por incúria dos governantes e também de pessoas da terra.
Segundo rezam as crónicas locais (imprensa), eivadas de algumas pinceladas poéticas, naquela mansão de luto que arte tornou tão bela, a presença da Rainha, sentada num tosco escadote, desenhando o túmulo de outra rainha que a precedeu no mesmo trono e cuja existência custou tantas lágrimas a uma pobre repudiada, tomou a nossos olhos um vulto especial, uma especial feição. Não víamos nela somente a mulher coroada, víamos uma artista modestamente vestida, extasiada ante um modelo que foi um primor na arte. (...) Vimos a arqueóloga seguindo a evolução da arte, não se importando com os dramas e os idílios que cada um daqueles monumentos representa.
Não constitui exagero, afirmarmos que o Mosteiro de Alcobaça, sintetiza alguns dos aspectos que nos identificam como Povo e Nação.
Talvez, por isso, uma mulher de origem francesa, tentou em Alcobaça compreender o verdadeiro e profundo ser e sentir de um povo, que já não nutria simpatia especial pela Monarquia, mas que nunca deixou de considerar a Rainha. Segundo o jornal que se publicava na vila, denominado De Alcobaça, após ter almoçado no Claustro de D. Dinis, sentada nuns degraus arruinados, demorou-se seis horas em trabalho delicado e paciente e, ao despedir-se, disse que voltaria muitas vezes, porque tinha muito que desenhar ali.
D. Amélia não chegou a voltar a Alcobaça, nem mesmo quando terminada a Guerra, foi em Junho de 1945 autorizada, tal como a demais família real, a visitar Portugal.
No início da Guerra, Salazar ofereceu-lhe asilo, que foi recusado. Faleceu em França, a 25 de Outubro de 1951 e encontra-se sepultada no Panteão Nacional.
Depois de Isabel, os jovens Príncipes de Mónaco, Rainier e a charmosa Grace, acompanhados dos filhos, visitaram Alcobaça em 1964, no seguimento de uma ida a Fátima, tendo almoçado na Estalagem do Cruzeiro, em Aljubarrota. Há quem conte, como Luísa Pescadinha, ter assistido na Nazaré, a Princesa Grace, a contar e confirmar pessoalmente, as suas típicas sete saias de peixeira.
Em 1959, o Rei dos Reis, O Senhor dos Senhores, O Conquistador Leão da Tribo de Judah, O Supremo Defensor da Fé e Poder da Santíssima Trindade, o Imperador Etíope, Hailé Selassié, que havia sido coroado em 2 de Novembro de 1930 (o salmo 87:4-6 foi também interpretado como a previsão da coroação de Hail Selassié), efectuou uma visita a Portugal e, a Alcobaça, atirando aquando do acesso ao Mosteiro, moedas de ouro aos populares que se debatiam histericamente atrás delas. Hailé Selassié era, de acordo com a tradição, o ducentésimo vigésimo quinto da linhagem de imperadores etíopes, descendentes do bíblico Rei Salomão e a Rainha de Sheba. Nos discursos da praxe, o Chefe de Estado africano e os responsáveis portugueses, fizeram referências aos laços históricos que uniam os dois países, desde o século XVI.
Na evocação da amizade luso-etíope, um episódio parece ter sido deliberadamente omitido, a posição assumida por Portugal na Sociedade das Nações, aquando da agressão da Itália fascista à Abissínia. Porque é que até determinada altura a defesa da independência da Abissínia mereceu o apoio do governo de Lisboa?
E quais os motivos do volte-face operado por Portugal, em 1936, quando chegou internacionalmente a altura de endurecer o regime de sanções imposto à Itália?
FIM
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terça-feira, 1 de junho de 2010
RAINHA ISABEL II - V AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
V
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DAS INSTALAÇÕES DA TOILETTE DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Por onde andou, Belém, Alcobaça, Nazaré, aonde assistiu à exibição de dois ranchos folclóricos, e Batalha, a soberana britânica foi aclamada por milhares de pessoas, embora muitas das situações tivessem sido encenadas, como se veio a saber com os pescadores da Nazaré.
Percebe-se pela correspondência trocada entre diplomatas dos dois países, que o embaixador britânico em Lisboa, Sir Charles Stirling, quis conhecer, com mais de um mês de antecedência, o conteúdo do discurso do Presidente da República. Fez-se saber, de Londres, que a Rainha não desejava uma visita do Presidente do Conselho, alegando que tal podia implicar uma conversa sobre grandes problemas políticos.
Faltava mais de uma semana para a concretização da visita oficial da Rainha Isabel, e já a correspondência engrossava o dossier no Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre todos os pormenores, incluindo financeiros.
Enquanto as ofertas inglesas parece não ascenderem a mais de 20 ou 25 mil escudos, as nossas somaram 222.590$90, alertava uma nota do M.N.E. em Janeiro de 1957, dando conta dos valores: uma banda para a Rainha-95.000$00; um serviço de jantar para a Rainha e de chá para o Duque- 90.000$00); um lugre Gazela para o príncipe Carlos-25.000$00; uma boneca, vestidos e toucador de prata para a princesa Ana-11.000$00.
E até houve um presente extra para Isabel II, o Bussaco, um belo garanhão castanho, com oito anos, de pura raça lusitana e detentor certificado de árvore genealógica de três gerações, com arreios encomendados pelo próprio Presidente da República. Sabe-se que o animal deixou descendência nas cavalariças inglesas. Para lá do protocolo, a Rainha conversou com Craveiro Lopes, que sendo oficial de cavalaria, era um entendido em assuntos de raças e performances, como a Rainha.
Todos os passos da visita real foram previstos ao detalhe. As dormidas, a hora do chá, a criadagem, os seguranças, que não deviam dormir em Queluz no mesmo piso da Rainha, a presença da PIDE, os cortejos, os banquetes inclusive de Alcobaça, as visitas, os petiscos. E algumas dicas: A Rainha aprecia muito sardinhas portuguesas de lata, lia-se nas indicações do Embaixador Inglês, em Lisboa.
António Pinto de Mesquita, embaixador reformado, contou ao Diário de Notícias, a propósito dos cinquenta anos da visita, que ainda conserva o uniforme que o Ministério dos Negócios Estrangeiros ofereceu aos funcionários para a visita, mas ofereci-o ao meu filho, porque já vamos na quarta geração de diplomatas.
Na altura, Pinto de Mesquita tinha 29 anos, e estava no Serviço de Protocolo do M.N.E., pelo que assisti à cena em que o duque renunciou, no Porto, ao Rolls-Royce e entrou num carro de bombeiros aberto..
Lembra que Salazar pôs um cuidado especial na visita, não pensava noutra coisa. A visita foi a coroação de todo o esforço diplomático de Armindo Monteiro, que permitiu a Salazar uma grande reaproximação à Inglaterra, que se tem mantido.
A visita de 4 dias de Isabel de Inglaterra, constituiu uma prova de fogo para a RTP, que começava a dar os primeiros passos.
Foi acontecimento que teve significado especial para o País e o Regime.
Um tema como este, rodeado de um enorme interesse popular, levou a RTP a ter a oportunidade, bem como a necessidade, de oferecer a um relativamente significativo número de espectadores em expansão, a cobertura integral da visita, fazendo uma reportagem, até à altura, sem paralelo na história da informação no país.
Os passos da soberana e marido, foram minuciosa e rigorosamente documentados pelas equipas de repórteres de câmara e chegaram, escassas horas depois, a uma audiência que, estimativas ao tempo, calcularam ser cerca de um milhão de portugueses, atendendo à invulgar frequência registada nos locais públicos, como cafés e estabelecimentos, onde normalmente ainda só se encontravam os receptores.
A visita, mereceu na RTP as honras de um jornal diário, e que, incluindo as reportagens do dia, não deixava de documentar o programa do dia seguinte, mostrando os locais a visitar, a descrição dos acontecimentos próximos, os preparativos que estavam a decorrer. Alcobaça sentiu essa presença e afã, que mobilizou, pelo inusitado, o interesse das pessoas, ao reconhecer algumas caras do pequeno ecrã e proporcionou motivos de conversa nas famílias e tertúlias.
A par do serviço que houve que assegurar para a RTP, teve esta de responder ao interesse do estrangeiro, pelo fornecimento de imagens. Largas dezenas de metros de filme, na altura utilizava-se uma película que tinha de ser impressionada ao jeito do cinema, foram fornecidos ao Brasil e à United Press Television.
Por outro lado, tanto a BBC, como a ITV, fizeram deslocar a Portugal equipas de reportagem. A BBC, chegou a Portugal com alguma antecedência para documentar todos os locais a visitar por Isabel II.
A cerimónia do desembarque de Isabel II no Terreiro do Paço, foi objecto de um interesse especial. Uma bobina com muitos metros de filme, compreendendo planos colhidos de posição estratégica, era necessária ao conjunto da reportagem e foi rodada por um operador da RTP, o único que teve permisdsão para aceder ao local. Um jacto da RAF, aguardou na Portela o tempo necessário para que um estafeta-moto fizesse entrega do filme, e de outros realizados por operadores britânicos. Cerca de 3 horas depois, o Reino Unido via as imagens da Rainha a desembarcar em Lisboa.
Na memória colectiva de Alcobaça, está indissoluvelmente ligado a esta visita real, a pessoa do Presidente da Câmara, Joaquim Augusto de Carvalho. É de justiça fazer-lhe aqui uma pequena homenagem, para o que nos socorremos da notícia publicada em O Alcoa, de 17 de Julho de 2008, da autoria de Luís Peres Pereira:
Natural de Ílhavo, veio para Alcobaça na década de 30. Foi co-fundador da Crisal e Presidente do Clube Desportivo Comércio e Indústria de Alcobaça. No mandato de Júlio Biel, foi vereador e Presidente da Comissão Municipal de Turismo. Tomou posse como Presidente da Câmara a 9 de Outubro de 1953. O seu mandato, fortemente, ligado à aplicação do II Plano de Fomento, permite-lhe investir em várias frentes, nomeadamente, na electrificação, que neste período foi alvo de colossal avanço. Assim, em várias sedes de freguesia e respectivos lugares, é inaugurada a rede eléctrica: Alpedriz, Bárrio, Benedita, e cinco dos seus lugares, Cós e dois lugares, Évora de Alcobaça, Turquel, Montes, Vestearia, Vimeiro, Maiorga e quatro lugares, Pataias e um lugar, Pataias- Gare, e Alfeizerão e dois lugares. A componente educativa também foi contemplada, destacando-se o apoio prestado para o arranque da Escola Técnica de Alcobaça, a criação do Posto Escolar de Monte de Bois, no Bárrio; edificação das cantinas escolares, em Pataias, Aljubarrota e Ataíja; construção de escolas nas freguesias de Cela (Junqueira) Turquel (Casal de Vale de Ventos, Louções, Carvalhal e Fonte Santa) e Pataias e início das obras da futura escola de Cós. As ligações viárias também conheceram avanço. Na freguesia de Alfeizerão inaugurou a estrada do Casal Pardo e o acesso ao Valado de Santa Quitéria; ligação entre Turquel e Carvalhal; e a abertura da estrada de ligação da Castanheira ao Juncal. Outros investimentos, como a requalificação da Avenida Marginal em S. Martinho do Porto, a construção do Estádio Municipal de Alcobaça, uma fonte no Casal dos Lopes, freguesia da Maiorga, ou um lavadouro público no Casal de Aguiar, freguesia de Alfeizerão, espelham bem a diversidade da sua actividade autárquica.
Várias Igrejas são abertas ao culto neste período: Benedita, Bárrio, Vimeiro e Carris, freguesia de Évora. Assiste-se à reabertura de Igrejas Paroquiais de Turquel e da Vestearia, e da Igreja da Misericórdia de Alcobaça. As visitas internacionais também marcaram o seu mandato: a visita de Hailé Selasié, Imperador da Etiópia; da Princesa Margarida, de Inglaterra, e a visita da Rainha Isabel II, de Inglaterra, acompanhada do Presidente da República General Craveiro Lopes. Esta última visita impulsionou uma impressionante transformação urbana da Praça Oliveira Salazar, de onde foi retirado o Edifício do Jardim-Escola João de Deus Ramos, libertando mais ainda visualmente a Praça, ao mesmo tempo que promoveu obras de reintegração do Castelo de Alcobaça. Ao longo do mandato homenageou Frei Estêvão Martins, o Bispo D. António de Campos, Manuel Vieira Natividade e a Ala dos Namorados, o grupo dos bravos jovens cavaleiros mortos na Batalha de Aljubarrota, que se encontram sepultados no Claustro do Silêncio do Mosteiro de Alcobaça, contando nestes dois momentos com a presença do Sub-Secretário da Educação Nacional, Baltasar Rebelo de Sousa. Na ocasião da sua retirada da Autarquia, em 1963, foi alvo de apoteótica homenagem (…). Completaria 96 anos de idade a 4 de Setembro.
CONTINUA
V
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
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UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Por onde andou, Belém, Alcobaça, Nazaré, aonde assistiu à exibição de dois ranchos folclóricos, e Batalha, a soberana britânica foi aclamada por milhares de pessoas, embora muitas das situações tivessem sido encenadas, como se veio a saber com os pescadores da Nazaré.
Percebe-se pela correspondência trocada entre diplomatas dos dois países, que o embaixador britânico em Lisboa, Sir Charles Stirling, quis conhecer, com mais de um mês de antecedência, o conteúdo do discurso do Presidente da República. Fez-se saber, de Londres, que a Rainha não desejava uma visita do Presidente do Conselho, alegando que tal podia implicar uma conversa sobre grandes problemas políticos.
Faltava mais de uma semana para a concretização da visita oficial da Rainha Isabel, e já a correspondência engrossava o dossier no Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre todos os pormenores, incluindo financeiros.
Enquanto as ofertas inglesas parece não ascenderem a mais de 20 ou 25 mil escudos, as nossas somaram 222.590$90, alertava uma nota do M.N.E. em Janeiro de 1957, dando conta dos valores: uma banda para a Rainha-95.000$00; um serviço de jantar para a Rainha e de chá para o Duque- 90.000$00); um lugre Gazela para o príncipe Carlos-25.000$00; uma boneca, vestidos e toucador de prata para a princesa Ana-11.000$00.
E até houve um presente extra para Isabel II, o Bussaco, um belo garanhão castanho, com oito anos, de pura raça lusitana e detentor certificado de árvore genealógica de três gerações, com arreios encomendados pelo próprio Presidente da República. Sabe-se que o animal deixou descendência nas cavalariças inglesas. Para lá do protocolo, a Rainha conversou com Craveiro Lopes, que sendo oficial de cavalaria, era um entendido em assuntos de raças e performances, como a Rainha.
Todos os passos da visita real foram previstos ao detalhe. As dormidas, a hora do chá, a criadagem, os seguranças, que não deviam dormir em Queluz no mesmo piso da Rainha, a presença da PIDE, os cortejos, os banquetes inclusive de Alcobaça, as visitas, os petiscos. E algumas dicas: A Rainha aprecia muito sardinhas portuguesas de lata, lia-se nas indicações do Embaixador Inglês, em Lisboa.
António Pinto de Mesquita, embaixador reformado, contou ao Diário de Notícias, a propósito dos cinquenta anos da visita, que ainda conserva o uniforme que o Ministério dos Negócios Estrangeiros ofereceu aos funcionários para a visita, mas ofereci-o ao meu filho, porque já vamos na quarta geração de diplomatas.
Na altura, Pinto de Mesquita tinha 29 anos, e estava no Serviço de Protocolo do M.N.E., pelo que assisti à cena em que o duque renunciou, no Porto, ao Rolls-Royce e entrou num carro de bombeiros aberto..
Lembra que Salazar pôs um cuidado especial na visita, não pensava noutra coisa. A visita foi a coroação de todo o esforço diplomático de Armindo Monteiro, que permitiu a Salazar uma grande reaproximação à Inglaterra, que se tem mantido.
A visita de 4 dias de Isabel de Inglaterra, constituiu uma prova de fogo para a RTP, que começava a dar os primeiros passos.
Foi acontecimento que teve significado especial para o País e o Regime.
Um tema como este, rodeado de um enorme interesse popular, levou a RTP a ter a oportunidade, bem como a necessidade, de oferecer a um relativamente significativo número de espectadores em expansão, a cobertura integral da visita, fazendo uma reportagem, até à altura, sem paralelo na história da informação no país.
Os passos da soberana e marido, foram minuciosa e rigorosamente documentados pelas equipas de repórteres de câmara e chegaram, escassas horas depois, a uma audiência que, estimativas ao tempo, calcularam ser cerca de um milhão de portugueses, atendendo à invulgar frequência registada nos locais públicos, como cafés e estabelecimentos, onde normalmente ainda só se encontravam os receptores.
A visita, mereceu na RTP as honras de um jornal diário, e que, incluindo as reportagens do dia, não deixava de documentar o programa do dia seguinte, mostrando os locais a visitar, a descrição dos acontecimentos próximos, os preparativos que estavam a decorrer. Alcobaça sentiu essa presença e afã, que mobilizou, pelo inusitado, o interesse das pessoas, ao reconhecer algumas caras do pequeno ecrã e proporcionou motivos de conversa nas famílias e tertúlias.
A par do serviço que houve que assegurar para a RTP, teve esta de responder ao interesse do estrangeiro, pelo fornecimento de imagens. Largas dezenas de metros de filme, na altura utilizava-se uma película que tinha de ser impressionada ao jeito do cinema, foram fornecidos ao Brasil e à United Press Television.
Por outro lado, tanto a BBC, como a ITV, fizeram deslocar a Portugal equipas de reportagem. A BBC, chegou a Portugal com alguma antecedência para documentar todos os locais a visitar por Isabel II.
A cerimónia do desembarque de Isabel II no Terreiro do Paço, foi objecto de um interesse especial. Uma bobina com muitos metros de filme, compreendendo planos colhidos de posição estratégica, era necessária ao conjunto da reportagem e foi rodada por um operador da RTP, o único que teve permisdsão para aceder ao local. Um jacto da RAF, aguardou na Portela o tempo necessário para que um estafeta-moto fizesse entrega do filme, e de outros realizados por operadores britânicos. Cerca de 3 horas depois, o Reino Unido via as imagens da Rainha a desembarcar em Lisboa.
Na memória colectiva de Alcobaça, está indissoluvelmente ligado a esta visita real, a pessoa do Presidente da Câmara, Joaquim Augusto de Carvalho. É de justiça fazer-lhe aqui uma pequena homenagem, para o que nos socorremos da notícia publicada em O Alcoa, de 17 de Julho de 2008, da autoria de Luís Peres Pereira:
Natural de Ílhavo, veio para Alcobaça na década de 30. Foi co-fundador da Crisal e Presidente do Clube Desportivo Comércio e Indústria de Alcobaça. No mandato de Júlio Biel, foi vereador e Presidente da Comissão Municipal de Turismo. Tomou posse como Presidente da Câmara a 9 de Outubro de 1953. O seu mandato, fortemente, ligado à aplicação do II Plano de Fomento, permite-lhe investir em várias frentes, nomeadamente, na electrificação, que neste período foi alvo de colossal avanço. Assim, em várias sedes de freguesia e respectivos lugares, é inaugurada a rede eléctrica: Alpedriz, Bárrio, Benedita, e cinco dos seus lugares, Cós e dois lugares, Évora de Alcobaça, Turquel, Montes, Vestearia, Vimeiro, Maiorga e quatro lugares, Pataias e um lugar, Pataias- Gare, e Alfeizerão e dois lugares. A componente educativa também foi contemplada, destacando-se o apoio prestado para o arranque da Escola Técnica de Alcobaça, a criação do Posto Escolar de Monte de Bois, no Bárrio; edificação das cantinas escolares, em Pataias, Aljubarrota e Ataíja; construção de escolas nas freguesias de Cela (Junqueira) Turquel (Casal de Vale de Ventos, Louções, Carvalhal e Fonte Santa) e Pataias e início das obras da futura escola de Cós. As ligações viárias também conheceram avanço. Na freguesia de Alfeizerão inaugurou a estrada do Casal Pardo e o acesso ao Valado de Santa Quitéria; ligação entre Turquel e Carvalhal; e a abertura da estrada de ligação da Castanheira ao Juncal. Outros investimentos, como a requalificação da Avenida Marginal em S. Martinho do Porto, a construção do Estádio Municipal de Alcobaça, uma fonte no Casal dos Lopes, freguesia da Maiorga, ou um lavadouro público no Casal de Aguiar, freguesia de Alfeizerão, espelham bem a diversidade da sua actividade autárquica.
Várias Igrejas são abertas ao culto neste período: Benedita, Bárrio, Vimeiro e Carris, freguesia de Évora. Assiste-se à reabertura de Igrejas Paroquiais de Turquel e da Vestearia, e da Igreja da Misericórdia de Alcobaça. As visitas internacionais também marcaram o seu mandato: a visita de Hailé Selasié, Imperador da Etiópia; da Princesa Margarida, de Inglaterra, e a visita da Rainha Isabel II, de Inglaterra, acompanhada do Presidente da República General Craveiro Lopes. Esta última visita impulsionou uma impressionante transformação urbana da Praça Oliveira Salazar, de onde foi retirado o Edifício do Jardim-Escola João de Deus Ramos, libertando mais ainda visualmente a Praça, ao mesmo tempo que promoveu obras de reintegração do Castelo de Alcobaça. Ao longo do mandato homenageou Frei Estêvão Martins, o Bispo D. António de Campos, Manuel Vieira Natividade e a Ala dos Namorados, o grupo dos bravos jovens cavaleiros mortos na Batalha de Aljubarrota, que se encontram sepultados no Claustro do Silêncio do Mosteiro de Alcobaça, contando nestes dois momentos com a presença do Sub-Secretário da Educação Nacional, Baltasar Rebelo de Sousa. Na ocasião da sua retirada da Autarquia, em 1963, foi alvo de apoteótica homenagem (…). Completaria 96 anos de idade a 4 de Setembro.
CONTINUA
RAINHA ISABEL II - IV AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
IV
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
As pessoas em Alcobaça também se prepararam, para a visita, mesmo sabendo que não iriam nem poderiam ser convidadas para as recepções.
Como era a moda e o que se usava nos fins da década de cinquenta?
As senhoras da sociedade usavam luvas, sempre que possível a condizer com o vestido, composto de uma jaqueta e saia, com abertura nas mangas e golas em bico. O chapéu era cónico, o sapato negro de tacão, por vezes alto, e com biqueira. Tal como sempre, houve senhoras que queriam ver e ser vistas, revelando estarem up date, adquirindo conjuntos de toiletes, que compreendiam sapatos, chapéus e vestidos, em modistas e estabelecimentos de Lisboa (pois que em Alcobaça não se sentiam confortadas, para o grande momento…), apesar de haver modistas. Mas estas eram mais tipo costureiras como a Maria Amélia do Couto, a Segismunda, a Maria Pequena ou a Sineiro, que faziam vestidos simples, inclusive de noiva, e principalmente muitos arranjos.
Há cerca de 50 anos a principal modista de Alcobaça era talvez Elvira Veríssimo, que tinha um atelier na rua do Dr. Brilhante, situado ao lado da actual Ourivesaria Rilhó, considerada por muitos como a mestra das outras que trabalharam em Alcobaça. Não se esqueça a Lúcia costureira, a América, mulher do Fernando Albano, a Joaquina Coelho, com atelier perto da antiga Olaria de Alcobaça, a Maria do Carmo, a Alice, a Virgínia Mineiro, com atelier na Pissarra e mulher de Pica Sapateiro. Estas modistas/costureiras tinham clientes, tanto da vila, como de vários pontos do Concelho. A mulher de Altino fez os vestidos por medida para muita noiva, embora houvesse já as que os compravam feitos.
Domingas Lucas, que não ganhou com a visita da Rainha, diz na sua forma peculiar de se exprimir, que nunca ninguém lhe ensinou costura, que esta arte é um dom. Não sei explicar, mas acho que cada qual nasce com uma habilidade e um gosto para uma coisa.
Além de ser bastante conhecida e por vezes ainda solicitada na zona onde reside, Alfeizerão, os seus fatos já tiveram méritos reconhecidos. Algumas senhoras nem chegavam a tirar medidas, explicou, adiantando que, a maior parte das vezes, saía-lhe bem à primeira, o que dispensava as provas.
Para a visita da Rainha, os sapateiros de Alcobaça, como o Cândido Sarmento, o João Elias, o Juveo, o Pica, da Pissarra, também não tiveram clientes, não fizeram negócio, não competiam com os de Lisboa, seja com os cavalheiros ou com as senhoras. Eram, ainda e só, sapateiros à maneira tradicional. O calçado, faziam-no à mão. Utilizavam peles de vitelo e vaca, que, quando secas e grosseiras, tinham o nome de atanadas.
As peles eram ensebadas, ao lume para se impermeabilizar, com sebo de borrego que se comprava no talho. Usava-se pneu para as solas. O cerol servia para untar as linhas, de modo a ficarem mais resistentes. O sapateiro tradicional usava martelos, torqueses e sovelas, instrumento constituído por uma espécie de agulha direita ou curva e encavada com que os sapateiros e os correeiros usavam para furar o cabedal para coser, pois do calçado faziam parte a presilha, o tacão, a gáspea, daí o dizer-se que mandei gaspear os sapatos, a palmilha, a vira, o rebordo, as almas, as solas, daí o dizer-se mandei deitar meias solas. Nas solas dos sapatos e botas usavam-se com frequência os chamados pregadores ou protectores, peças pequenas em ferro, colocadas nas biqueiras ou calcanhares, para que as solas durassem mais tempo. Era dura, não desafogada, a vida do sapateiro, até porque muita gente, há sessenta anos ainda andava descalça... ou não pagava.
Ouvimos recentemente contar a história que segue, embora não tenhamos conseguido apurar com quem se passou. Há cerca de 60 anos um sapateiro de Alcobaça, começou a exigir o pré-pagamento do trabalho. As razões eram evidentes. Alguns clientes não pagavam, outros não levantavam os trabalhos, e no fim do mês as más consequências desses comportamentos eram manifestas. Um dia, um cliente pediu que lhe fossem substituídos os tacões dos seus sapatos de marca, alegadamente para ir à recepção à Rainha. O sapateiro explicou ao cliente que tinha de os deixar, podendo levantá-los mais tarde. Ao mesmo tempo, propôs-lhe o prévio pagamento do serviço. Mas como o cliente dizia ter todo o tempo do mundo, não se importava de esperar. E, assim foi. Tirou os sapatos, sentou-se numa cadeira, cruzou as pernas, mostrando meias de boa qualidade, e fumou um cigarrinho, enquanto aguardava. Ao fim de algum tempo, o trabalho estava pronto.
Calçou-se, perguntou quanto era e disse que tinha que ir ao carro buscar a carteira, pois não tinha ido antes, porque não podia ir descalço.
-Concerteza, comentou, com a maior naturalidade o sapateiro.
O cliente, sapatos arranjados, saiu da loja e nunca mais apareceu.
E os cabeleireiros da terra?
Tinham ou tiveram muito que fazer com a visita real?Com a vista real cremos também que não. O cabeleireiro de Alcobaça com mais freguesia, com clientes mesmo de Caldas da Rainha, era o Manuel Catita, com salão ao lado do actual do Café Portugal e entrada tanto pela Rua Alexandre Herculano, como pela Praça da República. Este salão teve o serviço da Lili manicure, bem como de aprendizes, cuja função era apenas lavar cabeças. Não penteavam, muito menos pegavam na tesoura.
Do alto dos seus quase sessenta anos no ramo, Joaquim Cabeleireiro, de Caldas da Rainha, fez umas considerações sobre a profissão. Há anos, dizia-se que um cabeleireiro com uma escova e um pente não passaria fome. Hoje, esse conceito deve ser modificado pois, dificilmente sobreviverá o que dispuser apenas de talento e habilidade. Recorda que, antigamente, a noiva lhe levava uma foto ou revista e, assim, fazia o modelo que ela queria, mas hoje respeitamos sim, mas, com toda delicadeza e educação sugerimos modelos que lhe ficarão melhor.
Atendeu noivas que queriam casar com o cabelo solto, porque tinham orelhas de abano, nariz saliente, rostos muito redondos ou pequenos demais…. Nos últimos vinte ou trinta anos, profissionais como Joaquim Cabeleireiro sentiram a grande mudança no dia-a-dia do salão, concretamente com relação ao movimento de clientes, cuja assiduidade e rotina foi aumentando. Vários factores concorreram para a alteração, como hábitos e técnicas que substituíram algumas, anteriormente utilizadas.
O perfil da cliente mudou. Antes, Joaquim Cabeleireiro, como muitos colegas de Alcobaça, trabalhava exaustivamente, de segunda-feira a sábado, aos sábados, por causa dos casamentos ou festividades, o trabalho começava às 7h30, e os serviços mais procurados eram o corte, o pentear, o banho de creme, a coloração, a permanente e a touca de gesso, isto é, uma mistura de líquido de permanente e farinha de trigo, utilizada para diminuir o volume.
Hoje, comenta Joaquim Cabeleireiro só continua inalterado o perfil da cliente que procura o serviço de corte mensal, bimestral ou semestral. A diferença está na procura de outros trabalhos. Há cinquenta anos, algumas das minhas clientes, mesmo as que tinham cabelos curtos, iam ao Salão até duas vezes por semana, ainda que tão só para pentear. Com a evolução das técnicas de corte e a moda, a escova deixou de ser exclusividade e prioridade no meu salão. Em compensação, outros serviços ganharam força, substituindo práticas anteriores. É o caso da coloração, que antigamente só era procurada para cobrir fios brancos, e agora passou a ser um factor de fidelidade, como reconhece Joaquim Cabeleireiro.
Houve homens, os cavalheiros como se reputavam e usava dizer, que fizeram fatos de em Leiria ou Lisboa, mesmo não indo à recepção. Recordamo-nos do que era fazer um fato antes da era do pronto-a-vestir, como o caso de nosso Pai (no Porto) ou do Dr. Magalhães (em geral em Lisboa, mas por vezes em Leiria).
Faça-se aqui uma pequena e incidental digressão sobre o tema, abordando uma profissão que se extinguirá, definitiva e eventualmente, dentro de algum tempo.
Com efeito, a arte de alfaiate, muito popular há meio século, está praticamente extinta.
Haveria na altura da visita, na vila de Alcobaça, cerca de uma vintena de profissionais a exercer a arte, já com a categoria de mestre, como o reviralhista Serafim Amaral, o Gaivoto, à Pissarra, o Bento Ricardo, perto do Posto de Turismo e que era padrinho da mulher de Altino Ribeiro, o Bajouco, ao lado do antigo Quartel dos Bombeiros, o Amaral, ao lado do Capador, o Abílio Alfaiate Lourenço Marques, junto aos antigos sanitários públicos, ao lado da actual sede da Junta de Freguesia de Alcobaça, o Xico Belo, ao lado do Palácio Costa Veiga, o Isidro Caneco, perto da Fonte dos Talassas ou o Manel Alfaiate. Aprendizes, semi-oficiais e oficiais, talvez houvesse para aí o dobro dos que se tinham alcandorado ao topo da arte. Só era mestre quem já sabia tomar medidas e talhar.
Hoje, Manuel Alfaiate, que em novo foi profissional de sucesso, está com mais de oitenta anos.
Não se aventurando a fazer obra de responsabilidade, ainda constitui um pronto-socorro para um vizinho que precise de apertar, alargar um casaco ou umas calças, subir, descer bainhas ou mangas, e se for bem conversado, antes de almoçar, ainda confecciona umas calças para ambos os sexos.
Até aos anos cinquenta, rara era a peça de vestuário que não fosse feita por medida, como diz Manuel Alfaiate. Quando um fato era adquirido numa loja de pronto a vestir, o que acontecia apenas nas cidades, o alfaiate da província comentava, desdenhosamente, que se tratava de obra de fancaria. O freguês entregava o tecido na alfaiataria, ou comprava-o lá, submetendo-se a tomada de medidas de rigor geométrico pelo mestre, cuja fita métrica estava ordinariamente suspensa sobre o pescoço. A fazenda era molhada para depois não encolher.
A obra iniciava-se com o esboço do fato, feito com giz branco apropriado, seguindo-se o corte e depois todas as operações de confecção que incluía uma ou duas provas. Na segunda prova de Manuel Alfaiate, entrava o pormenor da dimensão das mangas, tomada com o braço estendido e dobrado, e o cair da gola, os rebuços. Era importante assegurar ao cavalheiro que o casaco caía bem, tanto de frente como de costas, sendo para tal necessário que permanecesse quieto, direito, sem levantar os ombros. A altura das calças dependia do tacão do sapato.
Depois de tudo, poderia sair um trabalho digno de aparecer, se não na recepção à Rainha, pelo menos numa festa ou tão só na rua. O traçado de giz de Manuel Alfaiate, denunciava o futuro formato do casaco ou das calças. Com o corte certeiro da tesoura, o mestre transformava o tecido numa peça única. Um casaco, colete e calças, exigia trabalho aprimorado e era feito geralmente de tecido de qualidade, que só os clientes mais abastados tinham possibilidades de adquirir. Para os outros havia o cotim, a ganga e a saragoça, que não exigiam confecção muito apurada, dispensavam forros e, por isso, eram mais ruraos e menos onerosos.
Recordamo-nos da azáfama que, nos nossos tempos de estudante, reinava nas alfaiatarias do Porto, nas semanas que precediam as épocas festivas, como o Natal ou a Páscoa.
O Domingo de Páscoa e o Natal eram os dias em que muitos desejavam estrear roupa nova e então, o trabalho nas oficinas de alfaiate, desenrolava-se com um frenesim, fora do comum. Não havia horários, e os serões prolongavam-se até às tantas. Também não havia folgas e era apertado o tempo dispensado às refeições e ao descanso.Talhar, alinhavar, coser à máquina e à mão, provar, casear, pregar botões e passar a ferro, eram operações que se sucediam com celeridade, mas quase sempre sem prejuízo do apuramento da obra, pois estava em jogo o prestígio do mestre, sem excluir a rivalidade dentro da classe. Os janotas queriam exibir-se, e os alfaiates, na mira de proventos que os compensassem de épocas mais brandas, davam o máximo.
Os alfaiates estão, pois, em vias de extinção como se sabe. As lojas de pronto a vestir e concorrência dos ciganos, foram acabando com eles. Nas grandes cidades ainda vão subsistindo os que são procurados por executivos ou gente da alta que, embora pagando caro, ainda preferem um fato que se molde bem ao corpo ou então que, pela corpulência ou defeito físico, não encontrem naqueles estabelecimentos, coisa que lhes assente bem. Mas a verdade é que a confecção de obra personalizada, está a passar à história. Alcobaça não é excepção.
Conhecemos um alfaiate, à moda antiga, que trabalhou no Porto para o autor destas notas e, especialmente, para o seu Pai, que ainda tem oficina na Rua Sá da Bandeira, ao Bolhão. Os mais de 70 anos do Sr. Miguel, não são visíveis no rosto e postura erecta, homem que desde os 11 anos é alfaiate. Segundo diz, não se imagina reformado e ainda faz as suas peças de roupa, com excepção das camisas. Aprendeu a arte muito novo, quase criança, acabara de sair da escola baptista, sem poder prosseguir os estudos. Foi ao longo dos anos que aprendeu os segredos da actividade. A dedicação, o empenho, a habilidade e até a afabilidade, valeram-lhe uma seleccionada e fiel clientela, hoje quase só da sua idade!, que ainda vem encomendar fatos ou, simplesmente, umas calças ou um casaco especiais. Enquanto conversámos, numa visita para matar saudades, admitiu que o volume de trabalho tem vindo a diminuir, mas que mesmo assim consegue viver. Gosta de conversar e, apesar de não ter muitos estudos.
-Um homem mandou fazer um fato no alfaiate. Este disse-lhe para vir fazer a prova daqui a oito dias. O homem foi lá e o alfaiate disse-lhe que ainda não estava bom pois que venha daqui a mais oito dias. O homem voltou na data marcada e o alfaiate disse-lhe, mais uma vez, que ainda não estava bem, devendo voltar daqui a oito dias. Então, o homem retorquiu, impaciente: O senhor demora mais a fazer um fato do que Deus o mundo! O alfaiate respondeu muito senhor de si: Mas depois se comparar um com o outro... verá que o fato ficou perfeito!.
CONTINUA
IV
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
As pessoas em Alcobaça também se prepararam, para a visita, mesmo sabendo que não iriam nem poderiam ser convidadas para as recepções.
Como era a moda e o que se usava nos fins da década de cinquenta?
As senhoras da sociedade usavam luvas, sempre que possível a condizer com o vestido, composto de uma jaqueta e saia, com abertura nas mangas e golas em bico. O chapéu era cónico, o sapato negro de tacão, por vezes alto, e com biqueira. Tal como sempre, houve senhoras que queriam ver e ser vistas, revelando estarem up date, adquirindo conjuntos de toiletes, que compreendiam sapatos, chapéus e vestidos, em modistas e estabelecimentos de Lisboa (pois que em Alcobaça não se sentiam confortadas, para o grande momento…), apesar de haver modistas. Mas estas eram mais tipo costureiras como a Maria Amélia do Couto, a Segismunda, a Maria Pequena ou a Sineiro, que faziam vestidos simples, inclusive de noiva, e principalmente muitos arranjos.
Há cerca de 50 anos a principal modista de Alcobaça era talvez Elvira Veríssimo, que tinha um atelier na rua do Dr. Brilhante, situado ao lado da actual Ourivesaria Rilhó, considerada por muitos como a mestra das outras que trabalharam em Alcobaça. Não se esqueça a Lúcia costureira, a América, mulher do Fernando Albano, a Joaquina Coelho, com atelier perto da antiga Olaria de Alcobaça, a Maria do Carmo, a Alice, a Virgínia Mineiro, com atelier na Pissarra e mulher de Pica Sapateiro. Estas modistas/costureiras tinham clientes, tanto da vila, como de vários pontos do Concelho. A mulher de Altino fez os vestidos por medida para muita noiva, embora houvesse já as que os compravam feitos.
Domingas Lucas, que não ganhou com a visita da Rainha, diz na sua forma peculiar de se exprimir, que nunca ninguém lhe ensinou costura, que esta arte é um dom. Não sei explicar, mas acho que cada qual nasce com uma habilidade e um gosto para uma coisa.
Além de ser bastante conhecida e por vezes ainda solicitada na zona onde reside, Alfeizerão, os seus fatos já tiveram méritos reconhecidos. Algumas senhoras nem chegavam a tirar medidas, explicou, adiantando que, a maior parte das vezes, saía-lhe bem à primeira, o que dispensava as provas.
Para a visita da Rainha, os sapateiros de Alcobaça, como o Cândido Sarmento, o João Elias, o Juveo, o Pica, da Pissarra, também não tiveram clientes, não fizeram negócio, não competiam com os de Lisboa, seja com os cavalheiros ou com as senhoras. Eram, ainda e só, sapateiros à maneira tradicional. O calçado, faziam-no à mão. Utilizavam peles de vitelo e vaca, que, quando secas e grosseiras, tinham o nome de atanadas.
As peles eram ensebadas, ao lume para se impermeabilizar, com sebo de borrego que se comprava no talho. Usava-se pneu para as solas. O cerol servia para untar as linhas, de modo a ficarem mais resistentes. O sapateiro tradicional usava martelos, torqueses e sovelas, instrumento constituído por uma espécie de agulha direita ou curva e encavada com que os sapateiros e os correeiros usavam para furar o cabedal para coser, pois do calçado faziam parte a presilha, o tacão, a gáspea, daí o dizer-se que mandei gaspear os sapatos, a palmilha, a vira, o rebordo, as almas, as solas, daí o dizer-se mandei deitar meias solas. Nas solas dos sapatos e botas usavam-se com frequência os chamados pregadores ou protectores, peças pequenas em ferro, colocadas nas biqueiras ou calcanhares, para que as solas durassem mais tempo. Era dura, não desafogada, a vida do sapateiro, até porque muita gente, há sessenta anos ainda andava descalça... ou não pagava.
Ouvimos recentemente contar a história que segue, embora não tenhamos conseguido apurar com quem se passou. Há cerca de 60 anos um sapateiro de Alcobaça, começou a exigir o pré-pagamento do trabalho. As razões eram evidentes. Alguns clientes não pagavam, outros não levantavam os trabalhos, e no fim do mês as más consequências desses comportamentos eram manifestas. Um dia, um cliente pediu que lhe fossem substituídos os tacões dos seus sapatos de marca, alegadamente para ir à recepção à Rainha. O sapateiro explicou ao cliente que tinha de os deixar, podendo levantá-los mais tarde. Ao mesmo tempo, propôs-lhe o prévio pagamento do serviço. Mas como o cliente dizia ter todo o tempo do mundo, não se importava de esperar. E, assim foi. Tirou os sapatos, sentou-se numa cadeira, cruzou as pernas, mostrando meias de boa qualidade, e fumou um cigarrinho, enquanto aguardava. Ao fim de algum tempo, o trabalho estava pronto.
Calçou-se, perguntou quanto era e disse que tinha que ir ao carro buscar a carteira, pois não tinha ido antes, porque não podia ir descalço.
-Concerteza, comentou, com a maior naturalidade o sapateiro.
O cliente, sapatos arranjados, saiu da loja e nunca mais apareceu.
E os cabeleireiros da terra?
Tinham ou tiveram muito que fazer com a visita real?Com a vista real cremos também que não. O cabeleireiro de Alcobaça com mais freguesia, com clientes mesmo de Caldas da Rainha, era o Manuel Catita, com salão ao lado do actual do Café Portugal e entrada tanto pela Rua Alexandre Herculano, como pela Praça da República. Este salão teve o serviço da Lili manicure, bem como de aprendizes, cuja função era apenas lavar cabeças. Não penteavam, muito menos pegavam na tesoura.
Do alto dos seus quase sessenta anos no ramo, Joaquim Cabeleireiro, de Caldas da Rainha, fez umas considerações sobre a profissão. Há anos, dizia-se que um cabeleireiro com uma escova e um pente não passaria fome. Hoje, esse conceito deve ser modificado pois, dificilmente sobreviverá o que dispuser apenas de talento e habilidade. Recorda que, antigamente, a noiva lhe levava uma foto ou revista e, assim, fazia o modelo que ela queria, mas hoje respeitamos sim, mas, com toda delicadeza e educação sugerimos modelos que lhe ficarão melhor.
Atendeu noivas que queriam casar com o cabelo solto, porque tinham orelhas de abano, nariz saliente, rostos muito redondos ou pequenos demais…. Nos últimos vinte ou trinta anos, profissionais como Joaquim Cabeleireiro sentiram a grande mudança no dia-a-dia do salão, concretamente com relação ao movimento de clientes, cuja assiduidade e rotina foi aumentando. Vários factores concorreram para a alteração, como hábitos e técnicas que substituíram algumas, anteriormente utilizadas.
O perfil da cliente mudou. Antes, Joaquim Cabeleireiro, como muitos colegas de Alcobaça, trabalhava exaustivamente, de segunda-feira a sábado, aos sábados, por causa dos casamentos ou festividades, o trabalho começava às 7h30, e os serviços mais procurados eram o corte, o pentear, o banho de creme, a coloração, a permanente e a touca de gesso, isto é, uma mistura de líquido de permanente e farinha de trigo, utilizada para diminuir o volume.
Hoje, comenta Joaquim Cabeleireiro só continua inalterado o perfil da cliente que procura o serviço de corte mensal, bimestral ou semestral. A diferença está na procura de outros trabalhos. Há cinquenta anos, algumas das minhas clientes, mesmo as que tinham cabelos curtos, iam ao Salão até duas vezes por semana, ainda que tão só para pentear. Com a evolução das técnicas de corte e a moda, a escova deixou de ser exclusividade e prioridade no meu salão. Em compensação, outros serviços ganharam força, substituindo práticas anteriores. É o caso da coloração, que antigamente só era procurada para cobrir fios brancos, e agora passou a ser um factor de fidelidade, como reconhece Joaquim Cabeleireiro.
Houve homens, os cavalheiros como se reputavam e usava dizer, que fizeram fatos de em Leiria ou Lisboa, mesmo não indo à recepção. Recordamo-nos do que era fazer um fato antes da era do pronto-a-vestir, como o caso de nosso Pai (no Porto) ou do Dr. Magalhães (em geral em Lisboa, mas por vezes em Leiria).
Faça-se aqui uma pequena e incidental digressão sobre o tema, abordando uma profissão que se extinguirá, definitiva e eventualmente, dentro de algum tempo.
Com efeito, a arte de alfaiate, muito popular há meio século, está praticamente extinta.
Haveria na altura da visita, na vila de Alcobaça, cerca de uma vintena de profissionais a exercer a arte, já com a categoria de mestre, como o reviralhista Serafim Amaral, o Gaivoto, à Pissarra, o Bento Ricardo, perto do Posto de Turismo e que era padrinho da mulher de Altino Ribeiro, o Bajouco, ao lado do antigo Quartel dos Bombeiros, o Amaral, ao lado do Capador, o Abílio Alfaiate Lourenço Marques, junto aos antigos sanitários públicos, ao lado da actual sede da Junta de Freguesia de Alcobaça, o Xico Belo, ao lado do Palácio Costa Veiga, o Isidro Caneco, perto da Fonte dos Talassas ou o Manel Alfaiate. Aprendizes, semi-oficiais e oficiais, talvez houvesse para aí o dobro dos que se tinham alcandorado ao topo da arte. Só era mestre quem já sabia tomar medidas e talhar.
Hoje, Manuel Alfaiate, que em novo foi profissional de sucesso, está com mais de oitenta anos.
Não se aventurando a fazer obra de responsabilidade, ainda constitui um pronto-socorro para um vizinho que precise de apertar, alargar um casaco ou umas calças, subir, descer bainhas ou mangas, e se for bem conversado, antes de almoçar, ainda confecciona umas calças para ambos os sexos.
Até aos anos cinquenta, rara era a peça de vestuário que não fosse feita por medida, como diz Manuel Alfaiate. Quando um fato era adquirido numa loja de pronto a vestir, o que acontecia apenas nas cidades, o alfaiate da província comentava, desdenhosamente, que se tratava de obra de fancaria. O freguês entregava o tecido na alfaiataria, ou comprava-o lá, submetendo-se a tomada de medidas de rigor geométrico pelo mestre, cuja fita métrica estava ordinariamente suspensa sobre o pescoço. A fazenda era molhada para depois não encolher.
A obra iniciava-se com o esboço do fato, feito com giz branco apropriado, seguindo-se o corte e depois todas as operações de confecção que incluía uma ou duas provas. Na segunda prova de Manuel Alfaiate, entrava o pormenor da dimensão das mangas, tomada com o braço estendido e dobrado, e o cair da gola, os rebuços. Era importante assegurar ao cavalheiro que o casaco caía bem, tanto de frente como de costas, sendo para tal necessário que permanecesse quieto, direito, sem levantar os ombros. A altura das calças dependia do tacão do sapato.
Depois de tudo, poderia sair um trabalho digno de aparecer, se não na recepção à Rainha, pelo menos numa festa ou tão só na rua. O traçado de giz de Manuel Alfaiate, denunciava o futuro formato do casaco ou das calças. Com o corte certeiro da tesoura, o mestre transformava o tecido numa peça única. Um casaco, colete e calças, exigia trabalho aprimorado e era feito geralmente de tecido de qualidade, que só os clientes mais abastados tinham possibilidades de adquirir. Para os outros havia o cotim, a ganga e a saragoça, que não exigiam confecção muito apurada, dispensavam forros e, por isso, eram mais ruraos e menos onerosos.
Recordamo-nos da azáfama que, nos nossos tempos de estudante, reinava nas alfaiatarias do Porto, nas semanas que precediam as épocas festivas, como o Natal ou a Páscoa.
O Domingo de Páscoa e o Natal eram os dias em que muitos desejavam estrear roupa nova e então, o trabalho nas oficinas de alfaiate, desenrolava-se com um frenesim, fora do comum. Não havia horários, e os serões prolongavam-se até às tantas. Também não havia folgas e era apertado o tempo dispensado às refeições e ao descanso.Talhar, alinhavar, coser à máquina e à mão, provar, casear, pregar botões e passar a ferro, eram operações que se sucediam com celeridade, mas quase sempre sem prejuízo do apuramento da obra, pois estava em jogo o prestígio do mestre, sem excluir a rivalidade dentro da classe. Os janotas queriam exibir-se, e os alfaiates, na mira de proventos que os compensassem de épocas mais brandas, davam o máximo.
Os alfaiates estão, pois, em vias de extinção como se sabe. As lojas de pronto a vestir e concorrência dos ciganos, foram acabando com eles. Nas grandes cidades ainda vão subsistindo os que são procurados por executivos ou gente da alta que, embora pagando caro, ainda preferem um fato que se molde bem ao corpo ou então que, pela corpulência ou defeito físico, não encontrem naqueles estabelecimentos, coisa que lhes assente bem. Mas a verdade é que a confecção de obra personalizada, está a passar à história. Alcobaça não é excepção.
Conhecemos um alfaiate, à moda antiga, que trabalhou no Porto para o autor destas notas e, especialmente, para o seu Pai, que ainda tem oficina na Rua Sá da Bandeira, ao Bolhão. Os mais de 70 anos do Sr. Miguel, não são visíveis no rosto e postura erecta, homem que desde os 11 anos é alfaiate. Segundo diz, não se imagina reformado e ainda faz as suas peças de roupa, com excepção das camisas. Aprendeu a arte muito novo, quase criança, acabara de sair da escola baptista, sem poder prosseguir os estudos. Foi ao longo dos anos que aprendeu os segredos da actividade. A dedicação, o empenho, a habilidade e até a afabilidade, valeram-lhe uma seleccionada e fiel clientela, hoje quase só da sua idade!, que ainda vem encomendar fatos ou, simplesmente, umas calças ou um casaco especiais. Enquanto conversámos, numa visita para matar saudades, admitiu que o volume de trabalho tem vindo a diminuir, mas que mesmo assim consegue viver. Gosta de conversar e, apesar de não ter muitos estudos.
-Um homem mandou fazer um fato no alfaiate. Este disse-lhe para vir fazer a prova daqui a oito dias. O homem foi lá e o alfaiate disse-lhe que ainda não estava bom pois que venha daqui a mais oito dias. O homem voltou na data marcada e o alfaiate disse-lhe, mais uma vez, que ainda não estava bem, devendo voltar daqui a oito dias. Então, o homem retorquiu, impaciente: O senhor demora mais a fazer um fato do que Deus o mundo! O alfaiate respondeu muito senhor de si: Mas depois se comparar um com o outro... verá que o fato ficou perfeito!.
CONTINUA
RAINHA ISABEL II - III AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP
(III)
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
A organização da recepção em Alcobaça, foi da responsabilidade dos serviços da Presidência da República e de algumas senhoras da nossa melhor sociedade, como a Duquesa de Palmela, D. Lúcia Monteiro (viúva do Dr. Armindo Monteiro, antigo Embaixador de Portugal em Londres no tempo da II Guerra) e D. Maria de Mello Breyner (Mafra).
Salazar não veio à recepção em Alcobaça, mas na quinta-feira anterior aqui se deslocou para ver os preparativos, no que foi secundado, no dia seguinte, por Marcelo Caetano.
O Presidente da República, Gen. Craveiro Lopes, que não podia ser acusado de pendor monárquico, recebeu fidalgamente a Rainha Isabel. O almoço foi servido no Refeitório dos Monges, decorado com tapeçarias de parede e chão, telas dos nossos primitivos, porcelanas e esculturas.
Craveiro Lopes tinha à sua roda, alguns monárquicos assumidos, que se aproveitaram da situação, colocando na parede do Refeitório dos Monges, em frente ao lugar que lhe estava reservado, um escudo monárquico, comentando à boca calada que o Chiquinho não gosta, mas vai aguentar.
A visita da Rainha trouxe no próprio dia muitos turistas a Alcobaça, bem outros posteriormente para ver os melhoramentos no Mosteiro, a decoração e zona envolvente.
Uns dois ou três dias depois foram suspensas as visitas à Sala dos Reis e Refeitório, bem com retirada a decoração, embora tivesse sido prometido que esta iria ficar por mais uns oito dias.
Havia um fotógrafo em S. Martinho do Porto, conhecido por Pedro, o Coxo, tido por um pouco atrevido. A sua propalada ideia, era furar o cordão policial no Rossio, a fim de fotografar a Rainha, antes de entrar no Mosteiro e se possível, fazer uns cobres.
A verdade, é que conseguiu mesmo tirar algumas fotografias, não obstante andar a fugir da polícia.
Mas como era coxo, e com a precipitação, nas fotos que conseguiu tirar, a Rainha aparecia sempre com a cabeça cortada !!! Nenhuma se aproveitou.
Regressada a Inglaterra, a Rainha Isabel II agraciou com o grau de cavaleiro da Royal Victorian Order, o Presidente da Câmara de Alcobaça, Joaquim Augusto de Carvalho, depois de ter sido publicado no Diário do Governo a necessária autorização por parte do Ministério do Interior.
À data do abandono do Mosteiro pelos monges, Alcobaça era um pequeno aglomerado de casas e com um reduzido número de habitantes, muito propriamente no local fronteiro ao Mosteiro e dele separado por um terreno. Esse terreno, o adro da Igreja, passaria em breve a ser usado para realização de feiras e festas locais bem como a constituir o Rossio da vila.
Rossio, Praça Serpa Pinto, Praça do Conselheiro João Franco, Praça do Município, Praça Dr. Oliveira Salazar, Praça 25 de Abril, eis os nomes que, graças aos ventos da História, foi assumindo o nome de uma praça, espaço que reflecte na sua morfologia a história a diálogo entre o povo e o Mosteiro. Até 1833, foi uma região de fronteira. Essa contenção materializava-se no terreno, na sua cerca e decorria da lei cisterciense (ascetismo e exclusão do mundo).
Após o triunfo do liberalismo, deu-se a apropriação particular e estatal dos espaços, nomeadamente de propriedades do Mosteiro, que passaram para a posse de famílias influentes ou do Município.
O Rossio foi apropriado à medida que o Mosteiro foi reintegrado na vida urbana, ao ser usado como Teatro, Câmara Municipal, Tribunal, Repartição de Finanças, Cadeia, etc. ...
É no Rossio que se condensa grande parte da história de Alcobaça, mas que deixou de ser, após a última intervenção, um lugar importante na vida urbana do dia a dia.
Ainda há quem diga que a visita de Isabel II foi a visita do século.
Tirou-se o bergantim real do Museu da Marinha (para ser manobrado por oitenta remadores), para fazer a ligação de 300 metros do Iate Britania ao Terreiro do Paço. Ofereceram-se presentes caros à família real, requisitou-se a Baixela Germain, fez-se um desfile de barcos no Tejo, um cortejo pela cidade de Lisboa com um coche do século XVIII, construído em Londres para o casamento de D. João VI com D. Carlota Joaquina (foi esta a última vez que saiu à rua), arranjos no Palácio de Queluz e Mosteiro da Alcobaça.
E até se comprou um Rolls-Royce, embora em segunda mão, para transporte da soberana.
Enfim, Salazar fez tudo para que a encenação fosse perfeita. E conseguiu.
A Rainha Isabel, trazia consigo os olhos do mundo, a imprensa cor-de-rosa e não só, que designou a sua estada, no Portugal de Salazar como uma segunda lua-de-mel, o que não era desinteressante em termos de imagem para o exterior.
Isabel era uma jovem com um guarda-roupa elegante, que marcou a moda. O casal real esteve, a título privado, em casa dos Duques de Palmela, por os ligar uma velha amizade.
Filipe de Edimburgo, veio juntar-se a Isabel em Portugal, depois de uma viagem de vários meses pela Commonwealth.
Os ingredientes estavam reunidos para os focos internacionais se centrarem em Lisboa, facto que Salazar, não desdenhou aproveitar.
A Capital e pontos-chave da cidade foram embelezados por Leitão de Barros, onde não faltaram os entalhados a ouro, cetins brancos, veludos vermelhos e panejamentos da época de D. João V.
Relativamente aos custos é verdade que o Presidente do Conselho achou um exagero de orçamento, (por isso se decidiu comprar um Rolls Royce usado, mas que mesmo servia mais que bem…)e que acabou por não discutir, pois considerou como não se veio a comprovar esta viagem como importante contrapartida, no enquadramento da sua concepção de defesa do regime e especialmente do Ultramar já em perigo.
Até então a Grã-Bretanha seguia a orientação de Churchill que era a de manter o império onde o sol nunca se punha. A situação política mudara, agora governava McMillan que defendia, ao contrário de Éden, ambos conservadores, o abandono progressivo das colónias, como acontecera com a Índia, a aliança com os EUA e a aposta na Europa.
CONTINUA
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
A organização da recepção em Alcobaça, foi da responsabilidade dos serviços da Presidência da República e de algumas senhoras da nossa melhor sociedade, como a Duquesa de Palmela, D. Lúcia Monteiro (viúva do Dr. Armindo Monteiro, antigo Embaixador de Portugal em Londres no tempo da II Guerra) e D. Maria de Mello Breyner (Mafra).
Salazar não veio à recepção em Alcobaça, mas na quinta-feira anterior aqui se deslocou para ver os preparativos, no que foi secundado, no dia seguinte, por Marcelo Caetano.
O Presidente da República, Gen. Craveiro Lopes, que não podia ser acusado de pendor monárquico, recebeu fidalgamente a Rainha Isabel. O almoço foi servido no Refeitório dos Monges, decorado com tapeçarias de parede e chão, telas dos nossos primitivos, porcelanas e esculturas.
Craveiro Lopes tinha à sua roda, alguns monárquicos assumidos, que se aproveitaram da situação, colocando na parede do Refeitório dos Monges, em frente ao lugar que lhe estava reservado, um escudo monárquico, comentando à boca calada que o Chiquinho não gosta, mas vai aguentar.
A visita da Rainha trouxe no próprio dia muitos turistas a Alcobaça, bem outros posteriormente para ver os melhoramentos no Mosteiro, a decoração e zona envolvente.
Uns dois ou três dias depois foram suspensas as visitas à Sala dos Reis e Refeitório, bem com retirada a decoração, embora tivesse sido prometido que esta iria ficar por mais uns oito dias.
Havia um fotógrafo em S. Martinho do Porto, conhecido por Pedro, o Coxo, tido por um pouco atrevido. A sua propalada ideia, era furar o cordão policial no Rossio, a fim de fotografar a Rainha, antes de entrar no Mosteiro e se possível, fazer uns cobres.
A verdade, é que conseguiu mesmo tirar algumas fotografias, não obstante andar a fugir da polícia.
Mas como era coxo, e com a precipitação, nas fotos que conseguiu tirar, a Rainha aparecia sempre com a cabeça cortada !!! Nenhuma se aproveitou.
Regressada a Inglaterra, a Rainha Isabel II agraciou com o grau de cavaleiro da Royal Victorian Order, o Presidente da Câmara de Alcobaça, Joaquim Augusto de Carvalho, depois de ter sido publicado no Diário do Governo a necessária autorização por parte do Ministério do Interior.
À data do abandono do Mosteiro pelos monges, Alcobaça era um pequeno aglomerado de casas e com um reduzido número de habitantes, muito propriamente no local fronteiro ao Mosteiro e dele separado por um terreno. Esse terreno, o adro da Igreja, passaria em breve a ser usado para realização de feiras e festas locais bem como a constituir o Rossio da vila.
Rossio, Praça Serpa Pinto, Praça do Conselheiro João Franco, Praça do Município, Praça Dr. Oliveira Salazar, Praça 25 de Abril, eis os nomes que, graças aos ventos da História, foi assumindo o nome de uma praça, espaço que reflecte na sua morfologia a história a diálogo entre o povo e o Mosteiro. Até 1833, foi uma região de fronteira. Essa contenção materializava-se no terreno, na sua cerca e decorria da lei cisterciense (ascetismo e exclusão do mundo).
Após o triunfo do liberalismo, deu-se a apropriação particular e estatal dos espaços, nomeadamente de propriedades do Mosteiro, que passaram para a posse de famílias influentes ou do Município.
O Rossio foi apropriado à medida que o Mosteiro foi reintegrado na vida urbana, ao ser usado como Teatro, Câmara Municipal, Tribunal, Repartição de Finanças, Cadeia, etc. ...
É no Rossio que se condensa grande parte da história de Alcobaça, mas que deixou de ser, após a última intervenção, um lugar importante na vida urbana do dia a dia.
Ainda há quem diga que a visita de Isabel II foi a visita do século.
Tirou-se o bergantim real do Museu da Marinha (para ser manobrado por oitenta remadores), para fazer a ligação de 300 metros do Iate Britania ao Terreiro do Paço. Ofereceram-se presentes caros à família real, requisitou-se a Baixela Germain, fez-se um desfile de barcos no Tejo, um cortejo pela cidade de Lisboa com um coche do século XVIII, construído em Londres para o casamento de D. João VI com D. Carlota Joaquina (foi esta a última vez que saiu à rua), arranjos no Palácio de Queluz e Mosteiro da Alcobaça.
E até se comprou um Rolls-Royce, embora em segunda mão, para transporte da soberana.
Enfim, Salazar fez tudo para que a encenação fosse perfeita. E conseguiu.
A Rainha Isabel, trazia consigo os olhos do mundo, a imprensa cor-de-rosa e não só, que designou a sua estada, no Portugal de Salazar como uma segunda lua-de-mel, o que não era desinteressante em termos de imagem para o exterior.
Isabel era uma jovem com um guarda-roupa elegante, que marcou a moda. O casal real esteve, a título privado, em casa dos Duques de Palmela, por os ligar uma velha amizade.
Filipe de Edimburgo, veio juntar-se a Isabel em Portugal, depois de uma viagem de vários meses pela Commonwealth.
Os ingredientes estavam reunidos para os focos internacionais se centrarem em Lisboa, facto que Salazar, não desdenhou aproveitar.
A Capital e pontos-chave da cidade foram embelezados por Leitão de Barros, onde não faltaram os entalhados a ouro, cetins brancos, veludos vermelhos e panejamentos da época de D. João V.
Relativamente aos custos é verdade que o Presidente do Conselho achou um exagero de orçamento, (por isso se decidiu comprar um Rolls Royce usado, mas que mesmo servia mais que bem…)e que acabou por não discutir, pois considerou como não se veio a comprovar esta viagem como importante contrapartida, no enquadramento da sua concepção de defesa do regime e especialmente do Ultramar já em perigo.
Até então a Grã-Bretanha seguia a orientação de Churchill que era a de manter o império onde o sol nunca se punha. A situação política mudara, agora governava McMillan que defendia, ao contrário de Éden, ambos conservadores, o abandono progressivo das colónias, como acontecera com a Índia, a aliança com os EUA e a aposta na Europa.
CONTINUA
RAINHA ISABEL II - II AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
II
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
O Eng. José Costa e Sousa era, ao tempo da visita, Chefe dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal, aonde fez a carreira profissional.
Recordou-nos que as obras de desaterro do Mosteiro foram alargadas para além do inicialmente previsto, tendo sido expropriadas propriedades contíguas à Rua Dr. Zagalo.
Esta foi alargada para dentro dessas propriedades, de modo a permitir aumentar o espaço frente ao Mosteiro, tornando-o simétrico com o lado norte. Para as obras na Rua Dr. Zagalo, conhecida por Ladeira do Mata Galinhas, e porque havia habitações em risco de ser arrastadas numa derrocada, construiu-se um muro com sacos de cimento, descarregados directamente das camionetes, os quais funcionavam como blocos.
Nesse local, e para escorar algumas casas em perigo, tiveram de ser colocados troncos de pinheiros, cortados no Pinhal da Gafa, alguns com 14 metros de comprimento.
Dado que o corte se fez de noite nunca se soube da razão…, o pessoal municipal trabalhava à luz dos faróis de camionetes e depois carregava, a braço, os enormes e pesados troncos. Para pegar nalguns era, segundo Costa e Sousa, necessário o esforço de mais de 20 homens.
Costa e Sousa, ainda se ri do vendaval num copo de água que foi o problema das instalações sanitárias que se construíram para uso dos Reis de Inglaterra. Estava previsto que estes descessem pela nave lateral do Mosteiro e entrassem na Sala dos Reis.
Esta encontrava-se ricamente mobilada com armários de laca carmesim, biombos orientais e uma colecção de cerâmica chinesa. Anexos à Sala, foram construídos o toucador para a Rainha e a toilette para o Duque de Edimburgo.
Aconteceu que o verniz estalou, a propósito da cor das louças a aplicar!!!. O encarregado do Secretariado Nacional da Informação, cuja presença no local, ao que se dizia, tinha uma componente política, pretendia que se aplicassem louças cor-de-rosa, o do Ministério das Obras Públicas defendia o azul, enquanto que o do Ministério dos Negócios Estrangeiros se inclinava para o branco.
Como quem estava mais tempo no local das obras era o técnico da Câmara, neste caso o Eng. Costa e Sousa, todos lhe diziam nas costas do outro, para aplicar a louça na cor que defendiam. O assunto assumiu tais proporções que o encarregado do S.N.I. ameaçou fazer queixa ao Dr. Salazar, se outra fosse a cor da louça, que não o rosa.
A visita de Isabel de Inglaterra não foi a primeira que um soberano inglês fez a Portugal.
Antes, em 1903, já tinha estado em Lisboa o seu bisavô, Eduardo VII, a convite de D. Carlos, na primeira viagem de Estado que fez ao estrangeiro, depois de ter acedido ao trono.
Em Alcobaça, houve forte entusiasmo quando em Novembro de 1956 se soube que a Rainha de Inglaterra tinha sido convidada pelo Gen. Craveiro Lopes a visitar o País, e que do programa estava prevista uma visita à vila.
Fevereiro, é um dos meses do ano em que o frio mais aperta. O Governo Português não podia correr o risco de constipar o real casal, pelo que foram descarregadas no Mosteiro várias camionetes com botijas de Gazcidla será o Presidente da C.M.A. teria interesse no assunto?, que logo aplicadas a aquecedores, estiveram em experiência e a preparar o ambiente, durante cerca de 15 dias!!!
CONTINUA
II
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
O Eng. José Costa e Sousa era, ao tempo da visita, Chefe dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal, aonde fez a carreira profissional.
Recordou-nos que as obras de desaterro do Mosteiro foram alargadas para além do inicialmente previsto, tendo sido expropriadas propriedades contíguas à Rua Dr. Zagalo.
Esta foi alargada para dentro dessas propriedades, de modo a permitir aumentar o espaço frente ao Mosteiro, tornando-o simétrico com o lado norte. Para as obras na Rua Dr. Zagalo, conhecida por Ladeira do Mata Galinhas, e porque havia habitações em risco de ser arrastadas numa derrocada, construiu-se um muro com sacos de cimento, descarregados directamente das camionetes, os quais funcionavam como blocos.
Nesse local, e para escorar algumas casas em perigo, tiveram de ser colocados troncos de pinheiros, cortados no Pinhal da Gafa, alguns com 14 metros de comprimento.
Dado que o corte se fez de noite nunca se soube da razão…, o pessoal municipal trabalhava à luz dos faróis de camionetes e depois carregava, a braço, os enormes e pesados troncos. Para pegar nalguns era, segundo Costa e Sousa, necessário o esforço de mais de 20 homens.
Costa e Sousa, ainda se ri do vendaval num copo de água que foi o problema das instalações sanitárias que se construíram para uso dos Reis de Inglaterra. Estava previsto que estes descessem pela nave lateral do Mosteiro e entrassem na Sala dos Reis.
Esta encontrava-se ricamente mobilada com armários de laca carmesim, biombos orientais e uma colecção de cerâmica chinesa. Anexos à Sala, foram construídos o toucador para a Rainha e a toilette para o Duque de Edimburgo.
Aconteceu que o verniz estalou, a propósito da cor das louças a aplicar!!!. O encarregado do Secretariado Nacional da Informação, cuja presença no local, ao que se dizia, tinha uma componente política, pretendia que se aplicassem louças cor-de-rosa, o do Ministério das Obras Públicas defendia o azul, enquanto que o do Ministério dos Negócios Estrangeiros se inclinava para o branco.
Como quem estava mais tempo no local das obras era o técnico da Câmara, neste caso o Eng. Costa e Sousa, todos lhe diziam nas costas do outro, para aplicar a louça na cor que defendiam. O assunto assumiu tais proporções que o encarregado do S.N.I. ameaçou fazer queixa ao Dr. Salazar, se outra fosse a cor da louça, que não o rosa.
A visita de Isabel de Inglaterra não foi a primeira que um soberano inglês fez a Portugal.
Antes, em 1903, já tinha estado em Lisboa o seu bisavô, Eduardo VII, a convite de D. Carlos, na primeira viagem de Estado que fez ao estrangeiro, depois de ter acedido ao trono.
Em Alcobaça, houve forte entusiasmo quando em Novembro de 1956 se soube que a Rainha de Inglaterra tinha sido convidada pelo Gen. Craveiro Lopes a visitar o País, e que do programa estava prevista uma visita à vila.
Fevereiro, é um dos meses do ano em que o frio mais aperta. O Governo Português não podia correr o risco de constipar o real casal, pelo que foram descarregadas no Mosteiro várias camionetes com botijas de Gazcidla será o Presidente da C.M.A. teria interesse no assunto?, que logo aplicadas a aquecedores, estiveram em experiência e a preparar o ambiente, durante cerca de 15 dias!!!
CONTINUA
sexta-feira, 21 de maio de 2010
A Rainha Isabel II em Portugal e Alcobaça (1957)
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
I
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO), HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Não obstante mais de cinquenta anos decorridos, não é possível esquecer a visita da jovem Rainha Isabel II, de Inglaterra e seu marido, a Portugal.
Em 1952, havia subido ao trono Isabel II, filha de Jorge VI, acontecimento que ocupou as primeiras páginas da nossa imprensa, graças ao peso político-económico que a Inglaterra, exercia sobre Portugal.
Jorge VI, bisneto da Rainha Vitória, havia reinado durante cerca de 15 anos, duma forma clássica e austera.
A filha, Isabel, era uma graciosa jovem, de 26 anos, que gostava de montar a cavalo, e usava em público o uniforme de Coronel-Comandante dos Granadeiros da Guarda.
Durante a II Guerra, destacou-se no Serviço Auxiliar Territorial Feminino, onde se tornou uma conceituada motorista e mecânica.
Em 1947, casou com Filipe de Edimburgo, numa cerimónia luzidia, que a população aproveitou para testemunhar a simpatia à Monarquia e à futura Rainha.
Os preparativos para a visita à vila da Rainha Isabel II e marido, depois de Craveiro Lopes ter visitado, dois anos antes, oficialmente a Inglaterra e sido recebido em Buckingham, começaram com bastante tempo de antecedência e implicaram importantes transformações, na Ala Esquerda Sul do Mosteiro de Alcobaça e a urbanização da Praça do Rossio, a partir de 15 de Agosto de 1938 denominada Praça Dr. Oliveira Salazar.
Segundo o periódico O Alcoa, na hora conturbada que o mundo vive, há-de considerar-se como exemplo de valor universal a apoteótica manifestação de profunda e sincera amizade entre os dois povos, português e inglês, ligados por uma aliança de mais de seis séculos, que parece rejuvenescer com o tempo, confirmando-se os propósitos que a ditaram: Sólida Perpétua e Verdadeira Liga.
Muito se escreveu então, e depois, sobre esta visita e o seu sentido. Era o tempo da Guerra-Fria, a alguma distância ainda da ocupação de Goa, Damão e Diu, pela União Indiana, perante a (desoladora) inércia do Reino Unido, o velho aliado.
Para além do sucesso social e político que constituiu a visita a Portugal e Alcobaça, a verdade é que aqui foi pretexto para se fazerem obras de recuperação e restauro do Mosteiro, degradado e vandalizado, bem como da sua zona envolvente.
Já em 1955, se anunciavam importantes obras, por determinação do Ministro das Obras Públicas, Engº Arantes e Oliveira, que visitara Alcobaça, e cuja finalidade seria, alegadamente, reintegrar o Mosteiro na sua primitiva e austera traça cisterciense.
Os túmulos de D. Pedro e Inês de Castro foram removidos do local onde antes se encontravam, para aquele onde ora estão.
Não é este o local para fazer a história das relações luso-britânicas, mas divagar sobre alguns pequenos pormenores que, com a distância, poderão ter eventualmente, assumido contornos interessantes.
Como temos dito e redito, a História, tal como a vida das pessoas, não é constituída apenas por acontecimentos capitais, mas também por alguns reconhecidamente menores, que lhe dão o sal e a pimenta imprescindíveis para ser servida.
A nível local foi à Câmara Municipal de Alcobaça, sob a presidência de Joaquim Augusto de Carvalho, quem competiu dar o apoio logístico possível, além do que disponibilizou, em termos de mão de obra.
De fora, estavam questões, tão complicadas, como o protocolo britânico, a decoração da Igreja, da Sala do Banquete ou a Ementa.
Durante alguns meses, houve algumas obras municipais pelo Concelho que tiveram de parar, de modo a possibilitar a deslocação do pessoal para a zona do Rossio.
Aí, ao lado do pessoal da Câmara, trabalharam afanosamente vários empreiteiros e operários da Junta Autónoma das Estradas e do Ministério das Obras Públicas.
Parte da frontaria sul do Mosteiro, estava enterrada e desfigurada.
Começou-se por demolir o Jardim-Escola João de Deus, transferido para a Gafa, e, sem ele, limpou-se o enorme montão de terra que ocultava a fachada sul e impedia a vista das colunas, bem como os arcos, simétricos da ala norte.
Foram restauradas as janelas e suprimidas as águas-furtadas, mandadas construir por particulares que ali viviam, como recordava o Dr. Amílcar Magalhães, cujo escritório era em frente ao Mosteiro e ao Tribunal da Comarca.
O Tribunal, por esta altura, já funcionava em péssimas e vergonhosas condições, no 1º piso da Ala Norte do Mosteiro.
Anos depois, num Domingo de Março de 1966, ruiu estrondosamente parte do tecto de uma dependência, aonde, no dia a dia, trabalhavam, entre outros, o escrivão José Maria Cascão, e o escriturário Adélio Maranhão, que ficaram a dever a sua integridade física ao acaso do dia.
Terminados os trabalhos de desaterro, construídos os muros de suporte de terras e pavimentadas as ruas de acesso, cortadas árvores que afrontavam a fachada, a praça, passou a assumir contornos algo semelhantes aos que apresentou até às recentes e controversas alterações.
No interior, procedeu-se à transladação dos túmulos de Pedro e Inês para o transepto da Igreja, dando satisfação a um antigo desejo de Lopes Vieira, que não teve tempo de ver cumprido.
Ainda se colocaram esculturas nas capelas radiantes da charola, que se encontravam espalhadas pelo chão da Capela de Nª Senhora do Desterro.
Teve bom impacto visual a colocação de esferas armilares nas varandas das casas do Rossio, no que hoje seria considerado uma manifestação de carácter nacionalista, bem como a ornamentação das janelas com colchas e colgaduras.
A Rainha Isabel entrou no Mosteiro depois de passar por alas compactas de pessoas, que nalguns casos vieram de longe, sobre capas de estudantes de Coimbra, ajoelhados à passagem, dirigindo-se à Sala dos Reis, onde era aguardada por Craveiro Lopes, para depois passando pelo Claustro, almoçar no Refeitório conventual.
Ali, foi utilizado um serviço de copos de cristal da Crisal, expressamente fabricado, e que no futuro passou a ser conhecido como o Serviço da Rainha. Da ementa, fez parte uma torta de frutas de Alcobaça e uma aguardente oferecida pela Família Raposo de Magalhães servida, com o café, na Sala dos Reis.
Na falta de eficaz coordenação e perante um grande voluntarismo, o fazer e desfazer nas obras acontecia com frequência, como era um dia colocar-se um colector de esgoto e vir dias depois uma máquina do M.O.P. desaterrá-lo e inutilizá-lo.
Muita intervenção foi no edifício da antiga Hospedaria do Mosteiro, onde os frades alojavam os visitantes importantes.
Depois da extinção das Ordens Religiosas, estiveram ali instaladas o Tribunal Judicial, a Legião Portuguesa, a Tesouraria, Finanças, a Câmara e até a Cadeia Comarcã.
CONTINUA
I
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO), HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Não obstante mais de cinquenta anos decorridos, não é possível esquecer a visita da jovem Rainha Isabel II, de Inglaterra e seu marido, a Portugal.
Em 1952, havia subido ao trono Isabel II, filha de Jorge VI, acontecimento que ocupou as primeiras páginas da nossa imprensa, graças ao peso político-económico que a Inglaterra, exercia sobre Portugal.
Jorge VI, bisneto da Rainha Vitória, havia reinado durante cerca de 15 anos, duma forma clássica e austera.
A filha, Isabel, era uma graciosa jovem, de 26 anos, que gostava de montar a cavalo, e usava em público o uniforme de Coronel-Comandante dos Granadeiros da Guarda.
Durante a II Guerra, destacou-se no Serviço Auxiliar Territorial Feminino, onde se tornou uma conceituada motorista e mecânica.
Em 1947, casou com Filipe de Edimburgo, numa cerimónia luzidia, que a população aproveitou para testemunhar a simpatia à Monarquia e à futura Rainha.
Os preparativos para a visita à vila da Rainha Isabel II e marido, depois de Craveiro Lopes ter visitado, dois anos antes, oficialmente a Inglaterra e sido recebido em Buckingham, começaram com bastante tempo de antecedência e implicaram importantes transformações, na Ala Esquerda Sul do Mosteiro de Alcobaça e a urbanização da Praça do Rossio, a partir de 15 de Agosto de 1938 denominada Praça Dr. Oliveira Salazar.
Segundo o periódico O Alcoa, na hora conturbada que o mundo vive, há-de considerar-se como exemplo de valor universal a apoteótica manifestação de profunda e sincera amizade entre os dois povos, português e inglês, ligados por uma aliança de mais de seis séculos, que parece rejuvenescer com o tempo, confirmando-se os propósitos que a ditaram: Sólida Perpétua e Verdadeira Liga.
Muito se escreveu então, e depois, sobre esta visita e o seu sentido. Era o tempo da Guerra-Fria, a alguma distância ainda da ocupação de Goa, Damão e Diu, pela União Indiana, perante a (desoladora) inércia do Reino Unido, o velho aliado.
Para além do sucesso social e político que constituiu a visita a Portugal e Alcobaça, a verdade é que aqui foi pretexto para se fazerem obras de recuperação e restauro do Mosteiro, degradado e vandalizado, bem como da sua zona envolvente.
Já em 1955, se anunciavam importantes obras, por determinação do Ministro das Obras Públicas, Engº Arantes e Oliveira, que visitara Alcobaça, e cuja finalidade seria, alegadamente, reintegrar o Mosteiro na sua primitiva e austera traça cisterciense.
Os túmulos de D. Pedro e Inês de Castro foram removidos do local onde antes se encontravam, para aquele onde ora estão.
Não é este o local para fazer a história das relações luso-britânicas, mas divagar sobre alguns pequenos pormenores que, com a distância, poderão ter eventualmente, assumido contornos interessantes.
Como temos dito e redito, a História, tal como a vida das pessoas, não é constituída apenas por acontecimentos capitais, mas também por alguns reconhecidamente menores, que lhe dão o sal e a pimenta imprescindíveis para ser servida.
A nível local foi à Câmara Municipal de Alcobaça, sob a presidência de Joaquim Augusto de Carvalho, quem competiu dar o apoio logístico possível, além do que disponibilizou, em termos de mão de obra.
De fora, estavam questões, tão complicadas, como o protocolo britânico, a decoração da Igreja, da Sala do Banquete ou a Ementa.
Durante alguns meses, houve algumas obras municipais pelo Concelho que tiveram de parar, de modo a possibilitar a deslocação do pessoal para a zona do Rossio.
Aí, ao lado do pessoal da Câmara, trabalharam afanosamente vários empreiteiros e operários da Junta Autónoma das Estradas e do Ministério das Obras Públicas.
Parte da frontaria sul do Mosteiro, estava enterrada e desfigurada.
Começou-se por demolir o Jardim-Escola João de Deus, transferido para a Gafa, e, sem ele, limpou-se o enorme montão de terra que ocultava a fachada sul e impedia a vista das colunas, bem como os arcos, simétricos da ala norte.
Foram restauradas as janelas e suprimidas as águas-furtadas, mandadas construir por particulares que ali viviam, como recordava o Dr. Amílcar Magalhães, cujo escritório era em frente ao Mosteiro e ao Tribunal da Comarca.
O Tribunal, por esta altura, já funcionava em péssimas e vergonhosas condições, no 1º piso da Ala Norte do Mosteiro.
Anos depois, num Domingo de Março de 1966, ruiu estrondosamente parte do tecto de uma dependência, aonde, no dia a dia, trabalhavam, entre outros, o escrivão José Maria Cascão, e o escriturário Adélio Maranhão, que ficaram a dever a sua integridade física ao acaso do dia.
Terminados os trabalhos de desaterro, construídos os muros de suporte de terras e pavimentadas as ruas de acesso, cortadas árvores que afrontavam a fachada, a praça, passou a assumir contornos algo semelhantes aos que apresentou até às recentes e controversas alterações.
No interior, procedeu-se à transladação dos túmulos de Pedro e Inês para o transepto da Igreja, dando satisfação a um antigo desejo de Lopes Vieira, que não teve tempo de ver cumprido.
Ainda se colocaram esculturas nas capelas radiantes da charola, que se encontravam espalhadas pelo chão da Capela de Nª Senhora do Desterro.
Teve bom impacto visual a colocação de esferas armilares nas varandas das casas do Rossio, no que hoje seria considerado uma manifestação de carácter nacionalista, bem como a ornamentação das janelas com colchas e colgaduras.
A Rainha Isabel entrou no Mosteiro depois de passar por alas compactas de pessoas, que nalguns casos vieram de longe, sobre capas de estudantes de Coimbra, ajoelhados à passagem, dirigindo-se à Sala dos Reis, onde era aguardada por Craveiro Lopes, para depois passando pelo Claustro, almoçar no Refeitório conventual.
Ali, foi utilizado um serviço de copos de cristal da Crisal, expressamente fabricado, e que no futuro passou a ser conhecido como o Serviço da Rainha. Da ementa, fez parte uma torta de frutas de Alcobaça e uma aguardente oferecida pela Família Raposo de Magalhães servida, com o café, na Sala dos Reis.
Na falta de eficaz coordenação e perante um grande voluntarismo, o fazer e desfazer nas obras acontecia com frequência, como era um dia colocar-se um colector de esgoto e vir dias depois uma máquina do M.O.P. desaterrá-lo e inutilizá-lo.
Muita intervenção foi no edifício da antiga Hospedaria do Mosteiro, onde os frades alojavam os visitantes importantes.
Depois da extinção das Ordens Religiosas, estiveram ali instaladas o Tribunal Judicial, a Legião Portuguesa, a Tesouraria, Finanças, a Câmara e até a Cadeia Comarcã.
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