terça-feira, 4 de abril de 2017

O TEATRO NO TEMPO DA I REPÚBLICA EM ALCOBAÇA


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A direção do teatro alcobacense, corria o ano de 1910, realizou nele algumas melhorias, embora não tantas quanto as necessárias, pois, sem apoios, estava dependente das parcas receitas de bilheteira de que dispunha.
Mesmo assim, procedeu à cobertura do corredor dos camarins, à substituição da escada que conduz ao palco, doravante mais larga, bem lançada e com ar elegante e obras nas dependências deste.
O Semana Alcobacense, que noticiou o acontecimento, não deu louvores aos cavalheiros que compunham a direção, porque é coisa que eles certamente não receberiam com agrado; mas vamos acompanhando e dizendo das obras por ela levadas a efeito que mais não seja, para conhecimento dos nossos conterrâneos.
A empresa do Cine-Moderno iniciou em dezembro de 1919 a sua atividade no Teatro, tendo contratado para atuar e complementar a sessão de inauguração, o dueto italiano Los Belini que fazia uma digressão pelo País (dois atores/cantores), que em cada número do seu reportório recolhiam fortes aplausos.
Para valorizar a sessão, a empresa mandou vir um pianista e um violinista de Lisboa (que atuavam num café concerto da capital), os quais partilharam as ovações dispensadas a Los Belini.
Em meados da década de 1920, começou a esboçar-se um movimento para que Alcobaça pudesse dispor da casa de espetáculos que merecia e o progresso impunha.
A direção do Teatro Alcobacense oficiou à Câmara Municipal para a cedência de um terreno na Praça do Município.
Numa época em que as deslocações para fora da terra se processavam com morosidade, incómodo e risco, o teatro e o incipiente cinema a nível local, adquiriram enorme importância nos hábitos dos portugueses. Note-se que, a viagem por estrada Alcobaça/Leiria ou a Alcobaça/Caldas da Rainha, era coisa para durar, pelo menos, três horas. Havia em Alcobaça várias alquilarias. A diligência era ainda o meio mais vulgar ou a carreira que  conduziam ao caminho de ferro de Valado de Frades.
Em breve, desapareceram os riperts, char-a-bancs, milords, coupés, caleches, vis-a-vis ou berlindas.
Ir ao teatro ou ao cinema, implicava um ritual, desde logo, no vestuário que as pessoas cumpriam, muito gostosamente, e com seriedade, pois era para verem e ser vistas. As récitas eram a la long anunciadas e as musicais aguardadas com expectativa, esgotando-se por vezes as entradas, quando ocorriam ao sábado. No teatro havia um bar, que no antes do início ou no intervalo da sessão, servia gelados, doces e bebidas. O público, especialmente o feminino, queixava-se da qualidade e asseio dos sanitários que por vezes cheiravam mal.
The Vagabond (em Portugal Charlot Violinista), é uma comédia  do tempo do mudo, escrita, produzida, dirigida e protagonizada por Charles Chaplin, datada de 1916.
Quando exibida em Alcobaça, o sucesso foi estrondoso, esgotando sucessivas sessões e encharcando os lenços de espetadores sensíveis.
É a história de um vagabundo que ganhava a vida a tocar violino. No dia em que chegou a um acampamento cigano, conheceu uma moça que tendo sido raptada, era maltratada e obrigada a trabalhar sem descanso. O vagabundo decidiu defende-la e salvá-la, fugindo por isso ambos.
Um talentoso pintor, que estava sem inspiração, a ver a jovem sentiu-se atraído por ela, no que foi correspondido e pintou o seu retrato. A mãe da moça, viu o retrato da desaparecida filha numa exposição, emocionou-se deveras e entrou em contacto com o pintor que irá promover o reencontro de ambas. Agradecida, a mãe ofereceu uma recompensa ao vagabundo que salvara a filha, mas ele recusou. Ao se despedirem, ele ficou triste e melancólico, sozinho, pelo que a mãe e a moça voltaram a trás e convidaram-no para ir com elas.
O público aplaudiu de pé, verteu mais algumas lágrimas, mas saiu satisfeito e reconfortado.
O Teatro, no antigo Refeitório do Mosteiro, fora instalado em 1839, por iniciativa de um grupo de personalidades locais, que abriram subscrição pública com madeiras oferecidas pelo Conde de Vila Real.
O Governo liberal entregou à Câmara Municipal (Portaria do Ministério da Fazenda de 4 de agosto de 1837), uma zona do Mosteiro não afeta ao culto. O Teatro foi inaugurado, em 6 de janeiro de 1840, com o drama histórico Pedro, o Grande /A Escrava de Marienburgo, interpretado por um grupo de amadores. Ao longo de cerca de um século, muitas peças ali foram representadas, o que implicou obras, nem sempre compatíveis com as caraterísticas do local, como foi o caso do pano de boca, mandado pintar em 1865, a um conhecido cenógrafo de Lisboa, considerado um dos melhores do seu tempo, e que por isso tido por muito caro, o que motivou alguma polémica local.



-EM COZ/ALCOBAÇA, UM MESTRE ESCOLA, O PROF. JOSÉ TEODORO O TEATRINHO DE ALDEIA-


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José dos Santos Teodoro, foi natural dos Pisões/Pataias, onde nasceu em 1886, no seio de uma família rural que lhe forneceu condições para frequentar a escola primária, até à prestigiante 4ª. Classe/2º. grau.
Tendo começado a trabalhar como resineiro, quando teve oportunidade foi frequentar o Magistério Primário em Leiria, o que lhe permitiu iniciar em 1912 a carreira docente na Batalha. Dois anos mais tarde, colocado como professor em Coz (foi muito bem recebido pois, há vários meses. a escola estava fechada por falta de professor apesar das reclamações populares, da Junta e mesma da Câmara), onde lecionou durante cerca de 30 anos. Nesse tempo os pilares das comunidades rurais portuguesas eram o padre (ainda assim apesar da República), o médico e o professor primário. Cabiam ao professor as tarefas não só de alfabetização, mas também de modernização da sociedade de acordo com o ideário republicano, pelo que José dos Santos Teodoro foi o funcionário do Registo Civil da freguesia de Coz (extensão da Conservatória de Alcobaça, especialmente vocacionada para os assentos de nascimento e preparação da documentação de casamento civil que passou a ser obrigatório) e que ajudava a complementar o rendimento, já que o dos professores era baixo e muitas vezes pago com atraso, o que era aceite com alguma benevolência, dado o seu compromisso político com a República. Na escola, tinha numa parede, lado a lado retratos de Afonso Costa e António José de Almeida, dava aulas principalmente rapazes, que iam da 1ª. à 4ª.  classes, em condições de trabalho muito fracas. As aulas, que iam das nove às dezoito horas, com intervalo para o almoço, decorriam numa rígida ordem e disciplina e, por vezes, os mais adiantados ensinavam os mais novos a fazer contas, estudar a tabuada ou a ler no livro de leituras. No fim de cada ano escolar, os alunos, iam prestar provas à Escola mais próxima, ou fazer exame da quarta classe/2º. grau a Alcobaça onde, não raramente, eram aprovados com distinção. O Prof. Teodoro utilizava como método de ensino de aprendizagem da leitura a Cartilha Maternal (método que a República muito valorizava), o quadro preto de ardósia e carteiras, por vezes, repartidas por mais de um aluno. A maioria destes apenas possuía a pedra de ardósia na falta de caderno escolar e alguns aproveitavam o intervalo do almoço, para colocar questões ou tirar dúvidas sobre as matérias lecionadas ou outras.
O Prof. Teodoro, não se limitava a transmitir conhecimentos, mas também comportamentos e valores como a honradez, a palavra, ou o respeito, o que reputava como uma componente muito importante da sua tarefa, e lhe conferiu o direito de ser muito considerado e respeitado por alunos, seus pais e população em geral, sem prejuízo de com autoridade, aliás nunca contestada, dar se necessário uma benévola reprimenda ou mesmo uma carolada, com o ponteiro.
Senhor Professor Teodoro, chegue-lhe, se precisar! Nunca lhe doam as mãos, pois só se perdem as que caem no chão! Faça dele um homem que nós saberemos agradecer-lhe.
Quando se reformou, deixou a sua biblioteca à escola onde lecionou e de acordo com a sua ideia de uma escola pública republicana, terreno para a construção de um novo edifício escolar, que funcionou como tal, mas que se encontra encerrado.
Passadas gerações, o Prof. Teodoro, é recordado com carinho por antigos alunos e por quem com ele conviveu, independentemente de haver em Coz uma rua com o seu nome, a rua principal da terra onde vivia e que a atravessa. É da mais elementar justiça reconhecer o trabalho deste Professor/Mestre Escola, que ensinou até onde tinha aprendido e desenvolveu em muitas crianças, hábitos de trabalho e disciplina, a par de uma formação moral baseada em sólidos princípios de cidadania e amor ao próximo.
-O TEATRINHO DE ALDEIA-
Importantes eram os teatrinhos de aldeia onde se representavam com agrado peças ingénuas para espetadores muito especiais (amigos e familiares), ainda que em espaços de ocasião, improvisados.
Gervásio Lobato ocupou uma grande parte da sua Lisboa em Camisa com a descrição de uma récita em casa do Conselheiro Torres, o qual apesar de reconhecer não ter casa para o efeito, por pressão das filhas, aceitou montar um teatrinho particular numa saleta esguia e acanhada.
Por vezes, não era fácil montar a peça, dada a diferença de idades dos candidatos a atores, sexo e personalidade. Despoletavam conflitos, invejas e amuos, o que implicava que estes teatrinhos fossem pomo de discórdia numa sociedade fechada sobre si, onde havia poucas novidades. Havia que escolher a peça (mais difícil se algum ator tinha veleidades de autor), os atores e os respetivos papéis (utilizava-se até o sorteio de modo a evitar melindres pois todos queriam ser o protagonista ou o bom da peça e as meninas não gostavam de representar papéis masculinos). O ensaio depois de jantar, era um momento cansativo que implicava repetição de cenas e se prolongava por horas. O ensaio geral era reservadíssimo aos iniciados. Na grande noite, para uma plateia de amigos, familiares e convidados expetantes, no meio de alguma confusão, recapitulavam-se nervosamente os papéis socorrendo-se de uma cábula e fazia-se a caraterização. Se havia demora, o público impacientava-se, pateava ou mandava bocas (nem sempre jocosas ou amáveis). Quando se iniciava a representação, nem sempre acabavam os incidentes.

Mas é um gosto ir ao teatrinho cá da nossa terra

A I REPÚBLICA EM ALCOBAÇA


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(II)


AS SEQUELAS
SUMÁRIO:
(1).A Acalmação. As Chapeladas. Um Duelo à Pistola-(2).Felicitações a D. Manuel II e Reintegração da Vereação-(3).Festas, Romarias e um Par de Bandarilhas-(4).A Luta Armada vs. Combate Político-(5).A Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça-(6).Paiva Couceiro e o Prior de Turquel. A Mãe Soberana-(7).A República em Portugal e Espanha.

-5-A COMPANHIA DE FIAÇÃO E TECIDOS DE ALCOBAÇA-
A Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça era a única unidade empresarial de peso na região, e a sua Direção, com destaque para o tempo de Fernando Alípio de

Carneiro e Sá (1905/1947), possuía notável sentido social e manifestava simpatia para com a República.
Este era muito respeitado e estimado pelos trabalhadores com quem mantinha uma relação forte que determinou o sucesso da empresa e moldou o ambiente laboral.
Fernando Sá chegou a Alcobaça em agosto de 1899, para tomar posse do cargo de diretor da Fiação e Tecidos, em substituição de Francisco Casimiro de Magalhães Cruz, que se encontrava a exercer interinamente o cargo, o qual regressou ao Porto, onde era diretor da respetiva Companhia.
A Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça estabeleceu a sua unidade de produção na Fervença (Alcobaça) em 1874 e aí funcionou ininterruptamente até 1998. Durante mais de 120 anos esta unidade industrial esteve indiscutivelmente ligada à vila de Alcobaça quer como empregador, quer como gerador de riqueza, quer como símbolo de desenvolvimento socioeconómico, constituindo-se como motor de progresso para toda a vila. Durante muitos anos a Fábrica era visita obrigatória para pessoas ilustres que pretendiam conhecer o concelho e o seu desenvolvimento (…). É sob a direção de Fernando Alípio de Carneiro e Sá que a Fábrica vive todo o contexto de duas guerras mundiais, do advento da 1ª República, do início do Estado Novo, é escutando ou lendo as suas palavras que muitos se informam sobre a República e os seus ideais, é ele a personagem escolhida para explicar a Alcobaça a chegada de uma nova moeda, o escudo (…). É sob a sua gestão que a vila e a Fábrica enveredam finalmente por caminhos iluminados a luz elétrica (…).
Se 1912 foi classificado como um bom ano, já 1913 foi marcado com o rótulo de crise e 1914 considerado como o ano mais difícil, desde a sua tomada de posse da Direção.
Estes problemas estiveram relacionados com a importação de algodão e carvão: Na incerteza da obtenção a tempo da nossa principal matéria-prima, algodão em rama, cujos preços foram imediatamente agravados pela baixa das taxas cambiais, tomamos a resolução, bem a nosso pesar, de reduzir a laboração da Fábrica a três dias por semana de 7 de agosto a 22 do mesmo e a 4 dias desde 24 do referido mês a 7 de novembro, prosseguindo daí por diante a sua completa laboração. O pessoal compreendeu a situação e aceitou-a, tanto mais que acreditava e respeitava a Direção na procura de dias melhores.
Não se encontrou referência a movimentos reivindicativos, nomeadamente de tipo grevista, entre os cerca de 700 operários.
Os empregados e operários da Fiação e Tecidos celebravam com diversos festejos o 1º. de maio, para o que se constituía uma comissão, que não descansava na organização (que se realizavam em local sobranceiro à Fábrica), e normalmente com o concurso das Filarmónicas da Maiorga (de que alguns faziam parte) ou da Vestiaria. Para além das diversões para o pessoal, deslocavam-se ao evento muitos curiosos alcobacenses para partilharem o momento com essa grande família de
trabalhadores, em plena e alegre convivência, num dia votado ao descanso e ao folguedo.
Fernando Sá conseguiu conferir à fábrica e seu pessoal, um pouco de ar de bairro que os marcou enquanto esteve à sua frente. Eram inúmeras as mulheres, tantas quanto os homens, o que era pouco vulgar ainda no País pouco industrial.
Não haveria nenhuma família de Alcobaça que não tivesse alguém a trabalhar na Fiação e Tecidos. Famílias inteiras ali trabalhavam, pais e filhos, para lá transportavam a solidariedade, as alegrias e tristezas, as festas e entretimentos. Nas festas do pessoal, especialmente no Natal e 1º. de maio, e no quotidiano estabeleciam-se namoros e noivados, filhos eram planeados, criava-se uma rede que conferia cumplicidade e segurança, os colegas eram os vizinhos e familiares a quem não havia receio de entregar as chaves da casa, as colegas tomavam conta de filhos de outra se necessário, as crianças por vezes saíam da creche para serem perigosamente mimadas por uma correnteza de mulheres, presas aos teares de onde não deveriam desviar a atenção.
A fábrica, afinal, era a identidade no dizer de Idalina Maria, que nunca lá trabalhou, mas frequentou a creche como neta e filha de casais de operários da Fiação e Tecidos.
-6-PAIVA COUCEIRO E O PRIOR DE TURQUEL.
A MÃE SOBERANA-
Alguns conservadores convenceram-se de que o anticatolicismo e o exclusivismo político da República tinham criado espaço para derrubar o novo regime, como foi o caso do ex-Governador de Angola, o Cap. Paiva Couceiro, um dos poucos que, em outubro de 1910, combateram os republicanos em Lisboa.
A partir da Galiza, entrou no País por duas vezes, da primeira em 3 de outubro de 1911 e da segunda em 6 de julho de 1912. Na primeira, atravessou a fronteira, ocupou a povoação de Vinhais, proclamou a Monarquia mas, atacado por forças republicanas, com pessoal mal armado e municiado, não pode resistir e retrocedeu para a Galiza.
José Pereira dos Santos nasceu a 1 de dezembro de 1876, em Malhou (freguesia ao tempo pertencente a Santarém, depois a Alcanena, até ser extinta em 2013, no âmbito da reforma administrativa, tendo sido agregada às freguesias de Louriceira e Espinheiro da qual é sede, para formar a freguesia denominada União das Freguesias de Malhou, Louriceira e Espinheiro), filho de Francisco Pereira dos Santos e de Maria da Conceição, tendo ingressado em 1891 no Seminário de Santarém. A 26 de março de 1898 recebeu, na igreja de S. Vicente de Fora, a prima tonsura e os quatro graus das ordens menores. Em 1901, assumiu funções na igreja de Nossa Senhora da Conceição, Turquel, ficando aí colado a 3 de junho de 1907.

O Pe José Pereira dos Santos faleceu a 5 de novembro de 1959 em Lisboa sem nunca ter abdicado das suas convicções políticas.
O Prior de Turquel, deslocou-se ao Porto para apoiar Paiva Couceiro. Regressado à paróquia, do respetivo púlpito, fez veementes apelos à revolta contra a República, o que lhe valeu que, a pedido do Centro Republicano, fosse preso por uma força militarizada do Quartel composta por 6 homens e encarcerado na cadeia comarcã, ao lado de presos de direito comum. Paga a fiança por um amigo (alegadamente não tinha meios para isso), voltou à paróquia onde prosseguiu com os incitamentos. José Ferreira Chumbo, um turquelense com estabelecimento de porta aberta em Lisboa, fez um enérgico protesto, contra a permanência do Pe. Pereira dos Santos, repudiando a estranha impunidade e benevolência que vinha gozando, solicitando a sua expulsão por inadaptação à nova ordem.
Na segunda vez, os monárquicos passaram a fronteira em três pontos distintos do Minho e de Trás-os-Montes. A coluna da Paiva Couceiro rumou a Chaves, onde ocorreram os combates mais violentos e se fizeram numerosos prisioneiros monárquicos.
Depois destes mal sucedidos ataques, os monárquicos ainda se envolveram noutras conspirações, contribuindo para aumentar a instabilidade política. Esperava suscitar uma insurreição geral, mas constatou apenas a indiferença apática dos monárquicos.
O Exército manteve-se fiel à República enquanto proliferaram grupos armados de defesa da república, bandos chefiados por revolucionários profissionais, sediados nos cafés da baixa lisboeta, e disponíveis para fazer o trabalho sujo de intimidar, calar ou liquidar os reais ou supostos inimigos do novo regime.
O Pe. José Pereira dos Santos, conhecia a existência da festividade que se realizava em Loulé, no Domingo de Páscoa, em honra da Nossa Senhora da Piedade/Mãe Soberana, e que era considerada uma das maiores manifestações do culto mariano no País. Pelo menos a maior do sul. Mas não conhecia a sua origem muitíssimo antiga e que remonta ao século XVI.
Nesses anos conturbados da I República, as ruas de Loulé ainda ficavam pejadas de gente, sobretudo algarvios, mas também alentejanos e mesmo alguns espanhóis de Ayamonte.
A procissão começava a formar-se. Ouvia-se a banda, o povo agitava-se, os homens do andor avançavam pausadamente como compete.
Lançavam o grito: Viva a Mãe Soberana!
E o povo respondia fervorosamente: Viva!

Afastavam-se os cavaletes que sustentavam a imagem de duzentos e muitos quilos, assente nos ombros de oito fortes rapazes, sem o menor estremecimento.
Nada havia aqui, em termos de conotação política, mas o Pe. Pereira dos Santos que nunca foi ao Algarve, entrou em contacto com o Prior de Loulé (que conheceu em Lisboa), com o objetivo de tentar implantar em Turquel aquele festividade, como forma de contrariar a política anticlerical da República.
O Governo Provisório, gozou de amplos poderes até à abertura da Assembleia Constituinte, em 19 de junho de 1911.
Nesse momento, o Presidente do Governo Provisório, Teófilo Braga, transmitiu à Assembleia Constituinte os poderes que lhe haviam sido conferidos a 5 de Outubro de 1910. A Assembleia Constituinte aprovou por aclamação a proposta apresentada ao Congresso pelo seu Presidente, Anselmo Braamcamp Freire: A Assembleia Nacional Constituinte confirma, até ulterior deliberação, as funções do Poder Executivo ao Governo Provisório da República.
Dois meses mais tarde, com a aprovação da Constituição e a eleição do primeiro Presidente da República, Manuel de Arriaga (24 de agosto), o Governo Provisório apresentou a demissão.
Começava em Portugal a acidentada I República, que ao invés de optar por pequenas mudanças que melhorassem a concreta qualidade de vida dos portugueses, foi no sentido das transformações radicais numa montanha, que não mexia quase nada, nem empurrada.
-7-A REPÚBLICA EM PORTUGAL E EM ESPANHA-
A I República Portuguesa pouco teve de comum com a I República em Espanha, produto de uma série de revoluções de cariz liberal que, todavia, custaram muito sangue, esforços e vidas.
Era uma República que, em 1873, se simbolizava numa mulher forte, de longos cabelos, pintada com o vermelho da aurora e do sangue, usava barrete frígio, por quem se morria romanticamente. A notícia da proclamação da República em Espanha, alvoroçou as pessoas ávidas de derrube do trono português, que aspiravam um Futuro com letra maiúscula, aliado a temas tão caros como Justiça, Liberdade e Direito e outros que tinham sido meramente teorizados e de repente resplandeciam em certezas que haveria de cumprir. A República Espanhola foi torturada, pois levantaram-se contra ela todas as reações, mas os maiores inimigos foram os seus militantes que se digladiaram ferozmente, ainda que animados de boas intenções, de idealismo, sem vislumbrarem o perigo. Ao lado deste quadro, os generais, os palacianos, os banqueiros, os latifundiários, o clero, os poderes amortecidos, esperavam o final da luta dos republicanos entre si. Nos pronunciamentos, apareciam sempre militares imponentes nas fardas, tilintando

esporas e espadas, muito aclamados. Numa Espanha galante e varonil, nada agradava mais às mulheres que um garboso soldado.
Soldado que não ame é bom para a sotaina.
Enquanto em Espanha, houve eleições três meses depois da queda da Monarquia, a República Portuguesa demorou oito meses (maio de 1911), para eleger a Assembleia Constituinte.
Entretanto, o Governo Provisório eliminou os poderes independentes, substituiu as vereações municipais por comissões administrativas, intimidou a magistratura (puniu com a transferência para as colónias os quatro magistrados da Relação de Lisboa que, convidados a pronunciar João Franco, decidiram em sentido contrário) e permitiu que militantes republicanos impedissem a publicação de jornais não afetos.
As colónias, Joias da República, continuaram a ser governadas por delegados da metrópole, na maioria militares, afetos ao PRP, e não por locais, como acontecia nas colónias inglesas. A autonomia consistiu apenas numa autonomia do alto-comissário, mantendo-se a população politicamente marginalizada. Para os nativos, o Código de Trabalho, de outubro de 1914, prolongou o regime de trabalho forçado de 1899, não muito longe da abolida escravatura, com grande escândalo internacional.

Santiago Ponce, teve um primo madrileno, ativo militante republicano, assumidamente anticlerical (apesar de antigo seminarista em Santiago de Compostela e com ordens menores), com quem se encontrou uma vez. 

A I REPÚBLICA EM ALCOBAÇA

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(I)


AS SEQUELAS
SUMÁRIO:
(1).A Acalmação. As Chapeladas. Um Duelo à Pistola-(2).Felicitações a D. Manuel II e Reintegração da Vereação-(3).Festas, Romarias e um Par de Bandarilhas-(4).A Luta Armada vs. Combate Político-(5).A Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça-(6).Paiva Couceiro e o Prior de Turquel. A Mãe Soberana-(7).A República em Portugal e Espanha.
-1-A ACALMAÇÃO.
AS CHAPELADAS.UM DUELO À PISTOLA-

Com 19 anos, e a forma trágica e sangrenta como chegou ao trono, D. Manuel II colheu, de início, alguma simpatia popular.
Mas isso não era suficiente.
O rei, que não fora preparado para tal, começou por demitir João Franco que falhou a tentativa de governar à inglesa, isto é sem Parlamento, e nomear um governo, presidido pelo Alm. Francisco Joaquim Ferreira do Amaral (no que ficou conhecido como Governo de Acalmação) que, embora tenha conseguido acalmar, momentaneamente, os ânimos, teve efémera duração.
Demitido o governo de João Franco, foi efetuado um não muito diligente inquérito que, ao longo dos dois anos seguintes, veio a apurar que o regicídio fora cometido por membros da Carbonária, o qual estava concluído nas vésperas do 5 de Outubro.
Entretanto, tinham sido descobertos mais suspeitos de envolvimento direto, sendo que alguns estavam refugiados no Brasil e em França e dois, pelo menos, tinham sido mortos pela própria Carbonária, ao que constava.
O ex-Ministro das Finanças Manuel Afonso Espregueira, esteve envolvido em duras polémicas parlamentares, sofrendo violentos ataques de vários deputados da oposição, inclusive monárquica, que o acusavam de conflitos de interesses na gestão das finanças públicas, como um empréstimo que contraiu em Paris, dando como garantia os rendimentos do monopólio dos fósforos e o protecionismo que aparentou em relação ao Banco Lisboa & Açores, ao qual estivera ligado. No Tempo de Reis, Republicanos & Outros. A I República em Portugal & Alcobaça.
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O ataque mais feroz foi desferido pelo Deputado José Caeiro da Mata, do Partido Regenerador, que o acusou de burla e apelidou de criminoso, numa sessão plenária de 10 de Marco de 1909, por causa de um empréstimo à Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses da qual fora diretor geral e onde permanecia como consultor.
A questão acabou num duelo à pistola que, embora proibido por lei, foi presidido pelo Conde de Penha Garcia, travado de madrugada em Monsanto, respeitando os preceitos antigos em que cada um dos contendores, ilustres e honrados deputados, estava respetivamente acompanhado por dois padrinhos, ambos Pares do Reino e cumprida a distância de 15 passos do outro e de que saíram ilesos. A 25 de Abril de 1909, a maioria parlamentar abandonou os trabalhos, invocando a circunstância de Caeiro da Matta, ao regressar à Câmara dos Deputados após o duelo, não ter apresentado desculpas pelo sucedido. Seguiu-se novo duelo, também sem ferimentos, entre Caeiro da Mata e o líder da maioria parlamentar, Manuel António Moreira Júnior, mas esta continuou a retirar-se da Câmara sempre que Caeiro da Mata pedia para usar da palavra.
Em resultado, o governo de Sebastião Teles foi obrigado a demitir-se, o que nada ajudou a monarquia.
Este incidente foi acompanhado em Alcobaça com indiferença e escárnio pelos republicanos, que num telegrama enviado à Câmara de Deputados, assinado por Santiago Ponce y Sanchez, com a anuência de Sebastião Vazão, J. Ferreira da Silva, entre outros, repudiava e ridicularizava o incidente (não foi possível apurar o conteúdo concreto deste telegrama).
Os partidos monárquicos continuavam a desgastar-se em querelas e divisões, enquanto o Partido Republicano ia ganhando terreno, apesar de as eleições serem frequentemente viciadas, os votos comprados, sendo a chapelada uma fraude muito vulgar.
As eleições, não motivavam, normalmente, o interesse popular. No Concelho de Alcobaça, os eleitores não sabiam se existia acordo entre os diversos grupos políticos concorrentes, nem isso era explicado pelos caciques. Sabia-se que existia paz, mais do que isso, uma completa e absoluta indiferença. Diziam os republicanos que dos candidatos que se propunham ao sufrágio, nenhum era da terra, afinal ilustres desconhecidos, mas que, mesmo assim, eram eleitos com o apoio dos caciques (civis e clericais).
Quem eram os candidatos ministeriais?
Isso era um segredo ciosamente reservado (até ao fim) a uns poucos amigos. Esta indiferença, sinal de decadência, explicavam os republicanos, era resultado dos enganos sofridos e que eles um dia, no poder, iriam remediar. Era uma dura

experiência, feita de repetidas e amargas deceções que levavam ao marasmo e à descrença política do povo.
Combater por quem?
Porque partido ou porque princípio, se na confusão caótica dos partidos monárquicos, era difícil distinguir a cor dos estandartes? Visto que este era o estado do espírito público em relação à política, aos políticos do rotativismo, a oposição republicana clamava pela salvaguarda do decoro dos princípios, prometia sempre que um dia seria diferente…(mas foi?), recusando que à sombra da indiferença popular, o ato eleitoral fosse transformado numa farsa ridícula pela chapelada.
Quando em abril de 1908, o representante do governo tentou adiar em Lisboa, por um dia, o escrutínio eleitoral, o povo reagiu, revoltou-se, reivindicando a tutela e guarda das urnas, seguindo-se luta com a Guarda Municipal em cuja posse se encontravam, de que resultaram 14 mortos e inúmeros feridos.
Muitos anos mais tarde (obviamente noutro contexto), Humberto Delgado aceitou envolver-se numa eleição presidencial, sabendo que as cartas estavam marcadas. A explicação que ele próprio deu, filia-se numa expressão atribuída a Napoleão:on s'engage et puis on voit.
E, efetivamente, envolveu-se profundamente na campanha presidencial. Naturalmente que as eleições de 1958 foram viciadas. Delgado, confiava numa reação de indignação geral, que não surgiu.
Pessoas próximas do candidato encolhiam os ombros, quando ele denunciava a fraude: Em Portugal as eleições foram sempre viciadas, até no tempo da Monarquia.
-2-FELICITAÇÕES A D. MANUEL II E REINTEGRAÇÃO DA VEREAÇÃO-
O Presidente da Câmara, José Maria Furtado dos Santos, convocou uma sessão extraordinária para 6 de maio de 1908, dia em que se realizava em Lisboa, o juramento e aclamação de D. Manuel II, tendo proposto que se lhe dirigisse um telegrama de saudação, fazendo votos para que o seu reinado seja o início duma época de paz e prosperidade para a Nação.
Foi aprovado por unanimidade.
A ata foi assinada não apenas pela vereação, mas por outras pessoas mais ou menos anónimas que assistiram à sessão.
Em resposta, foi recebido um telegrama assinado por D. Manuel II/Manuel Rei a agradecer à Câmara Municipal as felicitações.
Tendo a vereação municipal sido reintegrada, a sessão de 24 de fevereiro de 1908 contou já com a presença dos vereadores que haviam sido destituídos pela ditadura

franquista, pelo que se enviou um telegrama assinado por José Furtado dos Santos /Presidente, Brito, Pereira dos Santos, José Rino, Sousa e Epifânio da Franca /vereadores/vogais, ao Presidente do Conselho Alm. Ferreira do Amaral, manifestando-lhe quanto a Câmara Municipal se congratulava por o País haver regressado a normalidade constitucional dos negócios públicos da Nação.
-3-FESTAS, ROMARIAS E UM PAR DE BANDARILHAS-
Os interesses da generalidade dos alcobacenses não se reduziam, naturalmente, aos assuntos da grande ou pequena política ou à contestação ao regime monárquico.
As feiras, romarias, touradas, circos, concertos da Banda e outros divertimentos ocupavam um espaço importante, nos parâmetros das disponibilidades populares, que eram bem diversas de uma família para outra.
Em agosto de 1909, havia grande entusiasmo pela realização de uma corrida de touros, na praça da Vila, e na qual um aficionado da Golegã irá montar um dos cornúpetos. Contrariamente ao que seria de esperar, pois não fora anunciado, e para satisfazer vários pedidos de amigos e admiradores, o vereador a cavaleiro Vitorino Froes, também participou nesta corrida de touros, sendo muito aplaudido.
Outro atrativo irresistível (pelo menos assim se anunciava nos cartazes distribuídos pela Vila), era a presença do famoso Monas, que irá lidar com bandarilhas alguns dos bichos propostos ao castigo dos arrojados turistas. Não deixava de ser um chamariz, o acessível preço das entradas, 240 reis para o sol e 160 reis para a sombra, bem como de 1$000 reis para os camarotes.
As touradas constituíram um divertimento muito usual e apreciado na Vila de Alcobaça enquanto houve Praça de Touros, ao qual compareciam famílias.
Em agosto de 1922, realizou-se na Praça de Touros de Alcobaça com muito público, entre o qual se distinguiam senhoras e cavalheiros que vieram da Nazaré, uma vacada com dez animais de um ganadeiro de Almeirim, na qual tomaram parte amadores da vila de Alcobaça e de Torres Novas.
Antes do início do espetáculo, houve alguma confusão entre o público, pois a organização não assegurou o respeito pela marcação dos lugares, especialmente os da sombra.
As vacas, embora mal tratadas (uma deles parecia sofrer de uma pata), permitiram um aceitável trabalho por parte dos amadores da lide apeada, o que já não aconteceu com o trabalho do cavaleiro Roberto Cunha, porque as vacas que lhe saíram, não se prestavam para a lide a cavalo e fugiam prontamente. Isto motivou protestos do público e do cavaleiro, que anunciou depois de espetáculo, numa taberna da Vila onde se reuniu com uns amigos que o quiseram obsequiar com

lanche, que não voltava a tourear em Alcobaça, se as vacas não fossem previamente sorteadas.
Por sua vez, o amador Arnaldo Valério, de Torres Novas, teve azar, pois a sua montada nervosa, tal como ele mesmo, chocou com uma vaca, caiu sobre ela e matou-a, a qual veio a ser adquirida por José Pereira da Silva Rino (presente na Praça), para distribuir a carne pelo Hospital, Asilo de Infância Desvalida e vários pobres indicados pelo regedor.
Os bandarilheiros que vieram da Benedita, bastante novos e com pouca prática, mostraram apenas que eram valentes, o que lhes valeu simpatia do público, enquanto que os de fora, também amadores, agradaram e receberam ovação. Dos forcados de Torres Novas, salientaram-se quatro, pois os restantes apesar da vontade de fazer boa figura, não o conseguiram, tendo um deles ficado ferido no rosto e numa clavícula, embora sem grande gravidade. Assistido no Hospital, teve alta antes do jantar, a tempo de ir confraternizar com amigos e admiradores.
No mês seguinte, realizou-se outra corrida de touros, tendo como cabeça de cartaz o amador caldense, António Emílio Geraldes Quelhas, que envergava uma vistosa casaca à portuguesa. A Comissão que explorava a Praça de Touros de Alcobaça, tornou público a devido tempo através da imprensa e cartazes afixados na Praça, no escritório de Manuel Carolino e estabelecimento de Abílio da Silva Ramalho, onde se vendiam os bilhetes de ingresso que, desta vez, garantia os lugares, de modo a evitar abusos e que os compradores de bilhetes de sol, não fossem para a sombra.
Esteve animada e concorrida a feira anual de S. Simão, para que contribuiu o esplêndido soalheiro tempo de novembro, embora frio. Fizeram-se importantes transações, tanto em gado, como em artigos de comércio como louças. Vendeu-se grande quantidade de castanha e frutos secos. No Rossio, achava-se montada uma barraca de fantoches proveniente de Leiria, que deve ter feito bom negócio, especialmente pela afluência da pequenada. A vacada, deixou satisfeitos os aficionados do costume. Enfim, foi uma feira cheia, muito do agrado dos alcobacenses, onde não faltou a endiabrada batota à custa de incautos, apesar de atenta vigilância policial.
-4-A LUTA ARMADA VS. COMBATE POLÍTICO-
Apesar dos sucessos eleitorais alcançados pelo movimento republicano, o setor mais radical do PRP advogava a luta armada como o meio de derrubar o regime e assumir o poder.
Foi esta fação que saiu vitoriosa do Congresso do PRP realizado em 23/25 de Abril/1909. O PRP inscreveu-se nas fraturas culturais que dividiam a sociedade portuguesa. As estatísticas do século XX, demonstram que o Sul estava muito

desligado da Igreja, e foi precisamente aqui que o PRP mais expandiu a sua influência. Por outro lado, quem estava irritado com a governação, independentemente das suas crenças e ideias, começou a votar nos republicanos. O período que decorreu até à revolução de 5 de Outubro, foi marcado por uma forte instabilidade e agitação político-social, com várias ameaças de sublevação pondo a revolução em risco.
O diretório, composto por Teófilo Braga, Eusébio Leão, José Cupertino Ribeiro (comerciante natural de Pataias, radicado em Lisboa que, como referimos atrás, fez uma oferta ao Hospital, de lençóis e guardanapos, que de vez em quando repetia, pois nunca esqueceu a sua origem que apreciava citar, mas onde não deixou descendentes segundo se sabe), Basílio Teles e José Relvas, recebeu o mandato de fazer a revolução. As funções logísticas relacionadas com a preparação do golpe foram cometidas a elementos mais radicais. O comité civil era formado por Afonso Costa, João Chagas e António José de Almeida, enquanto que Cândido dos Reis liderava o comité militar. António José de Almeida ficou encarregado de coordenar as sociedades secretas, como a Carbonária, a Maçonaria e a Junta Liberal, dirigida por Miguel Bombarda, a quem se ficou a dever uma importante e bem sucedida ação de propaganda republicana junto da burguesia.
A monarquia portuguesa, não o era uma mais no sentido tradicional do termo. Desde 1834, o regime português era encarado como uma comunidade soberana de cidadãos, apenas limitados pela lei, e que aceitavam a existência de um chefe de Estado, embora de natureza dinástica, e com poderes bem delimitados na Carta/Constituição.
Vitorino Magalhães Godinho destacou que, os reis e as cortes portuguesas a partir do século XV sempre conceberam o Reino de Portugal como uma república no sentido clássico, um governo em que, independentemente da origem do poder dos governantes, estes regiam o Estado tendo em conta o bem público, de uma maneira regular e legal, sem arbítrio pessoal. Mais tarde, sobretudo a partir do século XVIII, acrescentou-se a esta ideia de república o princípio da participação dos cidadãos no governo, através de instituições representativas e em nome da soberania da nação. A monarquia constitucional portuguesa, no século XIX, foi esse tipo de república. Portugal era, neste sentido, republicano muito antes de 1910.
A Nobreza e a Igreja, foram bastante enfraquecidas através de ataques diretos ou de expropriação do património. Os liberais encaravam a monarquia como a melhor das repúblicas, onde se conjugavam os princípios da igualdade num quadro de soberania popular, com o respeito pela tradição dinástica e católica.
D. Carlos, segundo constava, confidenciara entre amigos que Portugal era uma monarquia sem monárquicos. Afinal, a monarquia portuguesa era uma República com um Rei, pelo que não faltava quem entendesse que para a derrubar bastaria

dispensar/mandar embora o Rei. A expressão República era algo místico/mítico, e parecia suficiente aceder a um novo regime para libertar o País da injustiça e dos males que o assolavam.
A revolução veio preencher um vazio político e não teve oposição. O Porto manteve-se a aguardar até 6 de outubro. O Governo Provisório teve apenas de telegrafar a notícia aos comandos militares e autoridades civis do País. Os quadros do exército aderiram em massa e, em três dias, mais de 1.500 oficiais entregaram declarações escritas de lealdade ao novo regime.
Uma excursão do povo republicano de Alcobaça, no dia 1 de dezembro de 1910, deslocou-se a Lisboa, animada de grande fervor democrático, para saudar as novas autoridades, tendo recebido manifestações de apreço e estima por parte da Câmara Municipal, do Governo Provisório e do Diretório do Partido Republicano que a recebeu.
A nova Constituição rompeu com a Carta, indo muito além da substituição do Rei pelo Presidente.
Apagou o papel político do Chefe de Estado, e concentrou o poder político nas duas Câmaras do Congresso (a dos Deputados e a dos Senadores), ambas eleitas por sufrágio direto. Estas Câmaras, elegiam e podiam destituir o Presidente da República, e o Governo, formalmente nomeado pelo Presidente, dependia unicamente da sua confiança. O Presidente não podia vetar leis, nem dissolver o Congresso. Os Ministros eram obrigados a assistir às sessões das câmaras. Tudo, portanto, dependia dos Deputados e Senadores.
Em 1910, a República Portuguesa passou a ser, com a III República Francesa, uma das duas únicas repúblicas modernas na Europa.
Mas enquanto a III República Francesa, no princípio, durante a década de 1870, teve governos e parlamentos onde os partidários das antigas dinastias reinantes formavam a maioria, isso não aconteceu em Portugal. Na República Portuguesa, começou por vigorar o princípio de que o país é para todos, mas o Estado é para os republicanos. Mais do que o caráter eletivo dos cargos de direção política do Estado, o que definiu a ideia de república, em Portugal depois de 1910, foi a reserva desses cargos e dos empregados públicos para os republicanos – e estes foram quase sempre, entre 1910 e 1926, os de um partido, o Partido Republicano Português.
Muitos militantes do PRP, perfilhavam a ideia que a República só poderia ser atingida, através de uma rutura revolucionária, sem compromissos com o passado dinástico e católico. O objetivo do PRP era, portanto, derrubar os braganças, para transformar Portugal numa comunidade política moderna, definida pela igualdade entre os cidadãos adultos do sexo masculino, pela afirmação pública de uma

perspetiva racionalista, o que implicaria a eliminação nos atos e instituições do Estado, das referências a outras entidades que não humanas, entenda-se a Igreja ou mesmo Deus, e pelo culto da pátria, corporização do bem comum. Os líderes do PRP acreditavam que era possível criar um novo mundo através de uma ação coletiva, e confiavam no poder político que exerciam para desencadear e concretizar essa ação. Porém os republicanos, mesmo os do PRP estavam divididos, não só pela disputa do poder, mas também por conceções do que deveria ser o novo regime. Os republicanos no poder, não se diferenciavam da antiga elite política pelas origens sociais ou percursos académicos e profissionais, pois 90% dos deputados tinham curso superior e 36% provinham da Faculdade de Direito, de Coimbra. A mudança que os republicanos encarnavam era ideológica, mas não sociológica.
A lei eleitoral (14 março de 1911) para a Assembleia Constituinte herdou o sufrágio restrito, muito longe de cumprir uma das grandes promessas, o sufrágio universal (de acordo com a lei a condição de eleitor era atribuída a cidadãos com mais de 21 anos que soubessem ler e escrever ou que fossem chefes de família há mais de um ano), o sistema maioritário e os grandes círculos plurinominais que vinham do rotativismo. O objetivo, como a imprensa republicana explicou, era alegadamente proteger e consolidar as instituições. Nas eleições para a Assembleia Constituinte nem todos os deputados foram eleitos, porque a lei previa a dispensa de eleições nos círculos onde não se apresentassem candidaturas da oposição, isto é, monárquicos. Deste modo por não ter havido eleições em grande parte do País, 91 deputados foram nomeados e não eleitos.
A exceção foi Lisboa, onde devido a protestos se realizaram eleições, mesmo sem ter havido oposição monárquica.
Mais tarde, Oliveira Salazar, na Sessão de 5 de maio de 1932 do Conselho Político Nacional, sobre a decisão de submeter a plebiscito a Constituição de 1933 defendeu que, embora o povo não esteja, na sua grande maioria, apto para votar em perfeita consciência o texto completo da Constituição, o seu voto tem um significado político que não é lícito desprezar: é um voto de confiança nos dirigentes.
A História repete-se?
O Decreto n.º 22 229/ 21 de fevereiro de 1933, tornou obrigatória a participação dos eleitores chefes de família, inscritos no recenseamento político de 1932, tendo como consequência que, sendo o sufrágio obrigatório, as abstenções contavam como votos a favor.
O (oficioso) Semana Alcobacense, registou que a despeito de quantos expedientes se lançou mão para infligir uma derrota à lista oficial do Partido Republicano, pelo nosso círculo; a despeito de quantas manobras ocultas se forjaram para malquistar

e levar de vencida essa lista; a despeito de todos os manejos do caciquismo monárquico, posto ao serviço da lista oposicionista; a despeito de tudo isto, os deputados que, pela maioria, irão à Constituinte representar o círculo de Alcobaça, são:
- Afonso Ferreira,
- Gaudêncio Pires de Campos.
- José de Cupertino Ribeiro.
São três republicanos de velha data, com largos anos de serviço e de sacrifício ao Partido que acaba de lhes conferir tão honroso mandato. De toda a justiça era que as sias candidaturas triunfassem.
Podem-se orgulhar de ir ao Parlamento não á sombra de lindinhas manobras eleiçoeiras, mas à custa do seu próprio valor e do muito que têm feito pela causa da República, de que são dos mais intemeratos paladinos.
A 3 de julho de 1913, nova lei eleitoral retirou o direito de voto aos analfabetos, a pretexto de conter o caciquismo.
O PRP conseguiu uma esmagadora maioria, inimaginável mesmo nos tempos das chapeladas monárquicas ou do Estado Novo, ao obter 97,6% dos votos. Numa Assembleia de 234 deputados, sentaram-se três independentes, dois socialistas e 229 em representação do PRP. A 24 de agosto de 1911 procedeu-se à eleição de Manuel de Arriaga, como primeiro Presidente da República e no mesmo dia a eleição do Senado. Para esta legislatura foram eleitos 71 senadores republicanos, entre os deputados. O primeiro governo do Partido Democrático, chefiado por Afonso Costa, ocupou o poder durante mais de um ano, marcando o início do predomínio dos democráticos na governação, pois até ao fim da República foi este partido o que ocupou o poder por mais tempo. Se Portugal tinha graves problemas económicos, como era tradicional, eles agravaram-se com a agitação social, em boa parte fruto do movimento reivindicativo do operariado. A legalização da greve e as crescentes reclamações sociais aumentaram o clima de instabilidade e alarmaram as classes mais abastadas e conservadoras, que logo que puderam exportaram capitais. 1912 foi um ano marcado por grande turbulência, e um movimento grevista que desembocou na primeira Greve Geral a que se seguiu forte repressão, restabelecimento da censura à imprensa a Lei-Garrote, encerramento da Casa Sindical e inúmeras prisões de sindicalistas.
Estas ações determinaram que o PRP/Partido Democrático fosse perdendo o apoio do operariado e Afonso Costa alcunhado de racha-sindicalistas.

A I República em Alcobaça PEDE-SE A CABEÇA DO REI


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(II)



SUMÁRIO:
(1).O Sarg. A. Ganito (da Guarda Real/Pessoal de D. Carlos)-(2).O Rotativismo-(3).D. Carlos, Luís XVI e Afonso Costa-(4).Ecos em Alcobaça-(5).Américo d’Oliveira-(6).O Partido Republicano em Alcobaça-(7).O Descalabro do Regime. O Golpe do Elevador-(8).O Regicídio e Aquilino Ribeiro-(9).Reflexos em Alcobaça-(10).Condolências da Câmara Municipal de Alcobaça.


-7-O DESCALABRO DO REGIME.O GOLPE DO ELEVADOR-
Os acontecimentos acabaram por se precipitar, na sequência da questão dos Adiantamentos à Casa Real e da assinatura do Decreto de 30 de janeiro de 1908.
Brito Camacho, relativamente a João Franco disse que, havemos de obrigá-lo a transigências que rebaixam ou às violências que comprometem. Foram eficazes os ataques da oposição personalizados, tanto em D. Carlos como em João Franco, por parte de republicanos e dissidentes progressistas. Os Adiantamentos à Casa Real foi uma acerada polémica que envolveu a Família Real, cujo aproveitamento pelos republicanos, contribuiu bastante para o desgaste da instituição monárquica.
Não faltavam políticos que julgavam que a popularidade e o êxito se conquistavam não tanto pela inteligência e probidade, mas sim pela demagogia ou mesmo pelo talento histriónico.
As traições (tal como hoje com caraterísticas nada originais) que ocorriam com maior incidência, situavam-se no mesmo grupo político, onde eram todos muito amigos e solidários irrestritos e traduziam-se em reações hipócritas e interesseiras, para subir numa escada virtual, onde se agarravam os da frente para se empurrarem para trás, os que ajudaram a subir. Para isso, o traidor sentia-se logo no direito de falar mal do traído. O político antes elogiado e considerado um verdadeiro representante de uma comunidade, passava num instante para outro a ser chamado de político ultrapassado e sem ação.
Os amigos estavam sempre à beira da deceção, perante a iminência do rompimento de uma amizade.
Eça de Queiroz, em Os Maias, descreve a dependência política, o caciquismo e o nepotismo, quando Gonçalo, reconhecendo embora que o Conde de Gouvarinho é uma cavalgadura, tenta justificar o apoio que lhe é concedido:
-É necessário, homem! Razões de disciplina e de solidariedade partidária… Há um compromisso… O Paço quer, gosta dele…
Espreitou em roda, murmurou, colado ao Ega:
-Há aí umas questões de sindicatos, de banqueiros, de concessões em Moçambique… Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!
Já nessa altura, Portugal era um estranho país de corruptos onde não havia corrutores…
O Golpe do Elevador da Biblioteca, foi uma tentativa de golpe de estado, visando à proclamação da República, levada a cabo pelo PRP, de parceria com a dissidência

progressista, como reação ao anunciado fim da ditadura e o consequente risco de o Partido Regenerador Liberal, de João Franco, vir a assumir o poder.
Embora o golpe tenha abortado por ação preventiva do governo, este falhou em eliminar os focos de conspiração. Daí resultou, em questão de dias, a execução da ação que previa a eliminação física do monarca, em consequência do qual, embora a mudança de regime em si não tenha sido efetuada, o afastamento do Rei e de João Franco puseram termo à tentativa de reforma da monarquia, mantendo-se a mesma instabilidade e que levaria à proclamação da República. O golpe fracassou, devido à inconfidência de um conspirador pelo que nesse dia foram presos vários dirigentes republicanos. Afonso Costa e o Visconde de Ribeira Brava foram encontrados de armas na mão no dito elevador, conjuntamente com outros conspiradores, quando tentavam chegar à Câmara Municipal. António José de Almeida, Luz Almeida/fundador da Carbonária, e João Chagas//jornalista, contavam-se entre os noventa e três conspiradores presos. José Maria de Alpoim, conseguiu fugir para Espanha. Alguns grupos de civis armados, desconhecedores do falhanço, ainda fizeram tumultos pela cidade.
Em resposta, e como expressão de uma crispação do regime, que ainda assim permitia aos republicanos bastantes intervenções políticas, o governo apresentou ao Rei, que se encontrava em Vila Viçosa, o Decreto de 30 de janeiro de 1908, que previa o exílio para o estrangeiro ou a expulsão para as colónias, sem julgamento, de indivíduos que fossem pronunciados em tribunal por atentado à ordem pública. O preâmbulo do diploma dizia que atendendo ao que me representaram o Conselheiro de Estado, Presidente do Conselho de Ministros e Secretário dos Negócios do Reino, e os ministros e secretários de Estado de outras repartições, hei por bem decretar, para ter força de lei o seguinte (…).
Conta-se que, ao assiná-lo, D. Carlos terá comentado: Assino a minha sentença de morte, mas os senhores assim o quiseram.
Eram os ministros, não tanto o Rei ao que se diz, que determinavam armar-se com esta lei, ao mesmo tempo que permitiam a fuga de alguns implicados no golpe, como sucedeu com José Maria de Alpoim.
Correu na época, que o regicídio fora devido a este diploma. Não é, de todo, verdade. É de notar, no entanto, que o diploma, assinado a 30 de janeiro, só foi publicado a 1 de fevereiro, e os preparativos para o regicídio datam seguramente de antes dessa data.
O ambiente contra o Rei fora preparado tanto pelos republicanos, como por grande número de monárquicos sedentos de poder a todo o custo.
O decreto em questão era na verdade uma ameaça séria, mas não foi da sua letra que saíram a carabinas do BuÍça e a pistola do Costa.

-8-O REGICÍDIO E AQUILINO RIBEIRO-
A família real encontrava-se em Vila Viçosa, mas os acontecimentos políticos levaram o Rei a antecipar o regresso a Lisboa.
A comitiva régia chegou de comboio ao Barreiro ao final da tarde, para depois tomar o barco, desembarcando no Terreiro do Paço, por volta das 17 horas. Apesar do clima de enorme tensão, o Rei optou por se deslocar em carruagem aberta, com reduzida escolta, com o objetivo de demonstrar normalidade. O Rei aparecia na rua de vez em quando. Descobriam-se algumas cabeças, o povo chegava-se para uns olhares de momento, lançavam-se nas gazetas e nas Cortes todo o tipo de diatribes.
Enquanto a família real saudava os populares, a carruagem foi atingida por vários disparos. Um tiro de carabina atravessou o pescoço do Rei, que morreu imediatamente. Seguiram-se mais disparos, sendo que o Príncipe D. Luís Filipe ainda alvejou um dos atacantes, antes de ser atingido mortalmente. D. Amélia, de pé, defendia-se com um ramo de flores que lhe fora oferecido pouco antes, fustigando um dos atacantes, que subira o estribo da carruagem, gritando Infames! Infames!, numa imagem que correu mundo e ficou marcada para a História. O Infante D. Manuel foi atingido num braço. Dois dos regicidas, Manuel Buíça e Alfredo Costa, foram mortos no local. Este, empregado do comércio, editor e jornalista, membro da Carbonária e maçon, estivera implicado já no falhado Golpe do Elevador e apesar da participação nessa iniciativa, continuava a andar livremente por Lisboa. Diz-se que afirmou, afagando a pistola que trazia na algibeira, num encontro que teve depois da Janeirada com Machado Santos e Soares Andrea, no Café Gelo que, se algum bufo me deita a unha, queimo-lhe os miolos. A carruagem entrou no Arsenal da Marinha, onde se verificou o óbito do Rei e do herdeiro ao trono. D. Carlos e o filho foram sepultados no Panteão Nacional dos Braganças (não se confunda com o Panteão dos Duques de Bragança em Vila Viçosa) e nos respetivos mausoléus lançou-se terra de Vila Viçosa.
Foi Manuel dos Reis da Silva Buíça quem alvejou de forma mortal D. Carlos I e o Príncipe Real D. Luís Filipe.
Homem de caráter expansivo e exaltado, não mantinha muitas ligações exteriores ao seu círculo profissional e frequentava, com Alfredo Costa e Aquilino Ribeiro o Café Gelo, no Rossio.
No princípio do século XX, Aquilino Ribeiro foi para Lisboa, onde conviveu com meios revolucionários radicais, violentos.
No seu primeiro livro, A Filha do Jardineiro, atacou fortemente o Rei D. Carlos I, livro esse ao que se diz financiado por Alfredo Costa e que apareceu sob o pseudónimo de Miriel Mirra.

Entrou para a Loja Montanha, do Grande Oriente Lusitano, a convite de Luz de Almeida. Consta também que pertenceu à Carbonária, a choça, de que faziam parte os bons primos (Les Bons Cousins Charbonniers) Alfredo Costa e Manuel dos Reis Buíça e conspirou no Café Gelo.
Nesse ano de 1907, Aquilino foi preso como anarquista na sequência da explosão de uma bomba no seu quarto, na Rua do Carrião em Lisboa, na qual morreram dois carbonários (28 de novembro).
Todavia, em 12 de janeiro seguinte conseguiu evadir-se da prisão e durante a clandestinidade em Lisboa, manteve contactos com os regicidas, refugiado numa casa de Meira e Sousa, na Rua Nova do Almada, em frente do Tribunal da Boa Hora.
Foi aí que, segundo alguns biógrafos lhe terá aparecido Alfredo Costa na manhã de 1 de fevereiro, a participar que estava decidido a matar o Rei. De facto, ocorreu o atentado nesse dia, tendo Aquilino Ribeiro, segundo alguns, sido avistado com um revólver no Largo do Corpo Santo, segundo outros no Terreiro do Paço, facto que o irá marcar até ao fim.
Ao fim de pouco tempo, Aquilino teve de fugir para Paris. Pedida a extradição, o Presidente Clemenceau não a concedeu. Em Paris, continuou a frequentar os meios radicais conhecendo o exilado Lenine.
Aquilino Ribeiro definiu Manuel Buíça ao arrepio da imagem que lhe é atribuída, como galante, franco, liberal, corajoso, blasonador, incoerente muitas vezes, parlapatão mais de uma, sem equilíbrio na vida, sem disciplina moral.
Não terá sido o regicídio que determinou a queda da Monarquia, mas parece ser consensual que a precipitou. A Monarquia estava condenada, não tinha quem se dispusesse a lutar por ela o seu fim era uma questão de tempo. A crise político-social era mais que evidente e o governo de João Franco, concitava tanto os ódios de monárquicos, como republicanos.
Aquilino Ribeiro entrou para a Biblioteca Nacional, em Lisboa, em 1919, a convite de Raul Proença, aonde também de acordo com alguns biógrafos, foi procurado para lhe mostrarem uma Ata do Regicídio.
Participou na fracassada revolta de 7 de fevereiro de 1927 contra a Ditadura, o que o levou de novo a ter de se exilar em Paris, regressando no fim do ano clandestinamente a Portugal, para se envolver noutra intentona fracassada, a Revolta de Pinhel, pela qual acabou por ser preso, embora se tenha evadido de Viseu, para se refugiar de novo em Paris, após ter atravessado a Espanha praticamente a pé, num tipo de aventura muito a seu gosto.
Em Lisboa, veio a ser julgado à revelia em Tribunal Militar e condenado.
-9-REFLEXOS EM ALCOBAÇA-
A notícia do atentado começou a circular em Alcobaça, na manhã do dia seguinte/Domingo 2 de fevereiro, trazida por pessoas que chegavam de fora. Acolhida a princípio com reservas, em breve pelas comunicações telegráficas foi-se adquirindo a certeza de terem sido assassinados a tiro o Rei e o Príncipe Herdeiro.
Era enorme a curiosidade em saber pormenores, pelo que quando chegaram os jornais de Lisboa na carreira do Valado de Frades, foram insuficientes para contentar as pessoas que os aguardavam numa numerosa fila, lendo-os depois sofregamente e nalguns casos até os revendendo com proveito.
Durante o dia, não se falou noutra coisa na rua (era domingo e os barbeiros estavam fechados), aguardando com impaciência os republicanos mais comprometidos que se reuniam no Centro Republicano, os desenvolvimentos políticos, o que era espicaçado por fantasiosos boatos, rapidamente desmentidos. Houve mesmo quem assegurasse saber da presença de uma esquadra inglesa de três navios, fundeada no Rio Tejo, para evitar eventuais motins populares. A este boato, que não correu apenas em Alcobaça, responderam alguns telegramas de Londres e Paris publicados nos jornais de Lisboa no dia 4, nos quais foi expressamente desmentido.
Ao mesmo tempo que a notícia das mortes ganhava força em Alcobaça, uma onda de boatos tinha-a cruzado veloz, desmentindo qualquer morte, que as reais personalidades foram feridas no braço, que os assassinos foram mortos, que o Rei (por graça de Deus…) jamais poderia morrer às mãos de uns malandros ateus a soldo de ideias estrangeiras. Não se sabia naquilo em que se haveria de acreditar. A única verdade inteira e viva dos alcobacenses, é que estava um dia de chuviscos, caía uma água miudinha que fazia rebrilhar as pedras da calçada e a erva da terreiro em frente ao mosteiro.
Nem para os mais fervorosos adeptos do ideário da República, frequentadores do Centro, a sua formação consolidada a partir do leite materno havia conseguido extirpar o mito ancestral que só o sangue lava a honra que os braganças conspurcaram. A legitimação do preceito tinha permitido que muitas mulheres houvessem morrido às mãos de maridos e namorados, enlameados no caráter pela (mera) suspeita de um adultério. Os duelos, agora fora de moda, vinham dos tempos de antanho, desafios de vida ou morte para reencontrar uma justiça verdadeira. Mas nenhum tribunal português, nenhum júri, mesmo os dos novos tempos que se avizinhavam e porque se lutava, tinha força para condenar homicidas de uma honra coletiva, lavada a tiro.
Nenhum tribunal, condenaria heróis da moral firmada na destreza do gatilho, embora soubessem que a ação dos assassinos (sejam eles um Costa ou do Buíça), era uma exceção, não uma regra, ainda que inserta no painel de virtudes nacionais que levava uma parte do país a jurar a morte da outra.

Na segunda-feira, estiveram encerradas a Recebedoria e Tribunal e outras repartições do Estado, hasteada a meio pau a Bandeira Nacional na Porta de Armas do Quartel e no edifício da Câmara Municipal. Várias pessoas vestiram de luto, os sinos da Igreja da Conceição, Igreja Nova, Igreja de Santo António ou Igreja da Misericórdia e do Mosteiro, dobraram a finados várias vezes por dia, e na Câmara foi aberto um Livro de Condolências, assinado por populares.
Disse-se que houve mesmo dois republicanos que o assinaram (o que não conseguimos comprovar).
A Comissão Administrativa da Câmara deliberou na sessão extraordinária de 4 de fevereiro pedir ao Dr. Adolfo Guimarães, amigo pessoal do Presidente e de Vitorino Froes, que a representasse nos funerais de Lisboa.
O Pe. Ribeiro d’Abranches, Pároco de Alcobaça, celebrou uma missa na Igreja do Mosteiro, sufragando a alma de D. Carlos e do Príncipe D. Luís Filipe, tendo convidado para o ato diversas corporações e entidades civis e militares que compareceram, tal como alunos de ambos os sexos da escola oficial. Entre a assistência destacava-se o Comandante do Regº. Artª.2, aquartelado no Mosteiro, que ocupava a primeira fila, o qual envergava fato de gala e se encontrava acompanhado pela oficialidade e algumas praças.
O Pe. Augusto Adelino de Miranda, capelão do Regimento, fez ao Evangelho uma alocução apropriada à cerimónia.
-10-CONDOLÊNCIAS DA CÂMARA MUNICIPAL DE ALCOBAÇA-
Na mesma sessão, foi deliberado enviar ao camarista de serviço de D. Manuel II, o telegrama: Muito rogo a V. Ex.ª se digne fazer constar em nome da comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alcobaça, a profunda mágoa que lhe causou o inqualificável atentado de que foram vítimas sua Augusto Pai e infeliz irmão e que em nome dos povos deste Concelho se protesta contra tal procedimento, ao que aquele respondeu, dando parte que o novo Rei agradecia as condolências.
A Alcobaça republicana, embora não tenha aplaudido o regicídio com garrafas de champanhe ou palmas, também não o repudiou expressamente.
A sua postura, exprimindo um sentimento republicano radical, bem registado no Semana Alcobacense, decorria do sentimento que foi estranho e trágico o epílogo da triste aventura, que à História de Portugal, passou com o nome de Franquismo.
Isto era apregoado franca e publicamente pelos republicanos nas ruas, farmácias ou Centro, num momento em que a sensação agora de alívio como diziam, lhes dava a impressão de acordar de um horroroso e agitado pesadelo, onde não era oprimir, censurar, mentir, perseguir, vexar e ludibriar que se governa o povo Português. No discurso de massas, embora se queixassem da falta de liberdade e da censura, os republicanos usavam uma linguagem e uma imprensa onde parecia não haver freios, como era o caso de o Semana Alcobacense.