segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CINEMA




-IR AO CINEMA ERA UM ACTO SOCIAL
-O CINEMA AMBULANTE
-O CINEMA, COMO ARMA DE PROPAGANDA DO
REGIME DE SALAZAR E SEUS VALORES
-O CINEMA (antigo) EM ALCOBAÇA

Fleming de Oliveira


Nos meios urbanos, ir ao cinema era um acto social, de convívio que implicava rituais no vestir, no conversar nos tempos de intervalo, ver e ser visto, nas entradas e saídas.
As salas de cinema, onde as havia, eram os novos templos de culto, que iam ganhando adeptos e densidade mí(s)tica. Os portugueses da cidade ou dos meios urbanos da província, ganharam o hábito, talvez a necessidade, de ir ao cinema. Uma geração estava a nascer dentro dele, adoptava a sua visualidade, aferia por ele os gostos, os desejos ou as ansiedades. Por isso, eram necessários novos espaços.
Até 1917, pode-se dizer que não houve produção nacional, que aliás começou com a empresa portuense Invicta Film que, de Paris, mandou vir material e técnicos, entre os quais o realizador George Pallu, da Pathé.

O Cinema Ambulante, ou Cinema Popular Ambulante, foi uma criação do SPN. Se a ideia era levar o cinema às povoações que não tinham salas para este efeito, como muitas do concelho de Alcobaça, o certo é que o cinema ambulante foi, antes de mais, um instrumento de propaganda, uma vez que as exibições se cingiam, com frequência, a documentários oficiais. Mas não só. Levando o cinema até aos núcleos dos trabalhadores, numa tradução da ideia corporativista, o sistema acabava por favorecer a exibição de documentários fora das salas comerciais e o crescimento da produção patrocinada pelo Estado. O regime percebeu e utilizou a força do cinema como instrumento, colocando-o ao seu serviço. Quando surgiu o Cinema Ambulante, dois anos depois da criação do SPN, já este organismo produzira ou encomendara cerca de 50 filmes, prontos para serem exibidos em Portugal e no estrangeiro. Eram documentários sobre os feitos e figuras do Estado Novo, prontos a serem apresentados ao olhar dos portugueses e estrangeiros. Através de carrinhas devidamente equipadas, o cinema era itinerante, parando para fazer exibições nocturnas em locais colectivos, como as Casas do Povo, Associações Recreativas, Sedes de Sindicatos, Salas da União Nacional (UN) ou mesmo jardins e campos de futebol. Desta forma, a mensagem do regime chegava onde nunca tinha chegado, com a eficácia das imagens, mostrando acontecimentos seleccionados, enaltecendo Salazar, Carmona e o Estado Novo. Este projecto poupou ao Governo ter que construir salas de cinema para desenvolver a acção de propaganda. É sabido que Salazar não era propriamentre um devoto do cinema, mas percebeu quanto o cinema poderia ser uma fonte de propaganda, suporte à divulgação de mensagens gratas.
Apesar de ser o seu ponto principal, as sessões cinematográficas faziam parte de um programa mais extenso, que incluía palestras e propaganda. Eram convidadas a discursar figuras afectas ao Regime, como membros da U.N, responsáveis locais de organizações corporativas ou até mesmo padres. Reforçava-se a mensagem, com as personalidades locais conhecidas do público a sublinhar a força das imagens. Recorde-se um texto do Diário da Manhã, onde se escreveu em Abril de 1937, que as notícias publicadas em vários pontos do País dizem-nos alguma coisa do alvoroço que para todas as populações constitui a visita do Cinema Popular. Durante algumas horas o povo evadiu-se das suas imagens habituais, emigrou do seu pequenino mundo para ver como o Estado Novo modificou não só a sua terra, mas o País de lés-a-lés, e comunicou às almas dos portugueses um novo entusiasmo criador (...). Um punhado de imagens comunica a todos os bons portugueses, o verdadeiro povo, em nome e à custa do qual, durante algum tempo, meia dúzia de aventureiros, de ideológicos e energúmenos falaram e viveram, o grande drama da nossa época, a luta entre tudo o que constitui o espírito da Nação e as ideias e paixões estrangeiradas que ameaçam subverter o País.
Entre os inimigos, o comunismo era, desde o surgimento do Governo da Frente Popular em Espanha, o mais temido entre todos. Com a revolta dos nacionalistas e o início da Guerra Civil, Salazar depressa apoiou (embora não declarada ou oficialmente) a facção encabeçada por Franco. O cinema ambulante foi uma das armas utilizadas para enaltecer os falangistas e denegrir os comunistas, juntando no mesmo saco republicanos, socialistas, anarquistas e comunistas. No final da II Guerra, quando o Estado Novo se preparava para enfrentar as mudanças geo-políticas decorrentes da vitória dos Aliados, há registos de um manifesto interesse pelo cinema ambulante por parte das autoridades de regiões como Alcobaça, Nazaré ou as ilhas dos Açores e Madeira. Num telegrama de Setembro de 1945, dos Açores para Lisboa, o Chefe Militar da Ilha de Santa Maria reputava da maior oportunidade e mais salutares efeitos sob aspectos político cultural e de propaganda exibições nesta ilha de filmes portugueses mormente os relacionados com o ressurgimento nacional (...). Sugiro seguintes filmes: Viagens presidenciais Açores e Colónias, realizações Ministério Obras Públicas, inauguração Stadium (sic), parada militar ano findo, documentários folclóricos, vários filmes carácter regional como Ala Arriba e outros. (...) Permito-me insistir altas vantagens efectivação estas exibições reputando-as até indispensáveis e urgentes.
No mesmo mês, o Governador Civil do Distrito da Horta, enviou um telegrama, onde, alegava que as dificuldades características próprias do momento que se vivia aconselham propaganda política local. Uma vez que todas as freguesias desse distrito nunca tinham visto cinema, pediu que o SPN intercedesse junto de Salazar para que o Cinema Ambulante ali fosse no próximo vapor, com filmes focando chefes do Estado Novo, seus discursos e obras realizadas. Se este último pedido foi ou não atendido, não se sabel,mas admite-se que sim. Sabe-se que, pelo menos, o primeiro foi. Num inventário do S.N.I., datado de Dezembro de 1945, anunciava-se que a actuação dos Cinemas Ambulantes Motorizados tinha levado a cabo 203 espectáculos, onze dos quais na Ilha de Santa Maria, nos meses de Novembro e Dezembro, sendo a única ilha contemplada. No continente, os 192 espectáculos realizados pelos cinemas ambulantes tiveram lugar em outras tantas localidades de vários distritos. Segundo o SN., fizeram a apresentação dos cinemas 103 oradores e assistiram aos espectáculos cerca de 412.250 pessoas. O Pátio das Cantigas andou por todo o País, concretamente por Alcobaça, Valado de Frades e Nazaré, e antes do espectáculo se iniciar, usava da palavra um orador (que nesta zona era José de Sousa) que, em frases empolgadas, se referia a obra de sucesso do SNI em prol de defesa dos valores tradicionais da Nação. Ao mesmo tempo, defendia-se (equivocamente como já referimos) que as tabernas acarretam a indisciplina social, pela venda de vinho e outras bebidas alcoólicas.
Nos meios rurais, as tardes de domingo estavam cheias de homens embriagados. Assim, em Alcobaça onde se diz que se bebe vinho em demasia (longe parece estarem já os tempos da apologia do vinho…), propunha-se, no seio da UN, que a FNAT organizasse espectáculos teatrais, musicais e principalmente sessões de cinema, para criar uma alternativa ao vício. Por esta altura, um agricultor de Évora de Alcobaça, também na sede concelhia da U.N. insurgia-se contra o facto de o mercado semanal da vila ocorrer à segunda-feira, pelo inconveniente de, assim, ter de ser obrigado a trabalhar ao domingo…
O cinema foi objecto de apertada atenção, por parte do regime de Salazar. Do preâmbulo do diploma que, em 1952, veio regulamentar a Assistência a Espectáculos Cinematográficos, destaca-se que o problema não se restringe, pois, embora seja esse o seu mais premente aspecto, à defesa dos menores contra a acção nociva de certos espectáculos (…). Por isso, se tem como objectivo neste diploma, além de vedar aos mais jovens a assistência a exibições cuja organização não tenha tido em conta as especiais exigências do seu desenvolvimento intelectual e da saúde física e moral, manter o maior número de espectáculos dentro de condições que permitam a sua frequência pela grande massa da população sem distinções de idade e reservando aos adultos os que, embora permissíveis, possam conter matéria inconveniente para pessoas em quem não é de supôr, vista a sua idade, completa formação intelectual e moral.


Fleming de Oliveira

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