quinta-feira, 6 de Outubro de 2011

A RAINHA ISABEL II, DE INGLATERRA, EM ALCOBAÇA (1958)

A COR DAS LOUÇAS DO TOUCADOR REAL NO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA
AS OBRAS NO MOSTEIRO
A MUDANÇA DOS TÚMULOS DE PEDRO E INÊS
UM FOTÓGRAFO COXO A FOTOGRAFAR A RAINHA
A ETIQUETA DOS CURIOSOS
OS ALCOBACENSES PREPARAM-SE PARA A VISITA
A TROCA DE PRESENTES OFICIAIS
A RTP E A GRANDE E PRONTA COBERTURA DA VISITA


FLEMING DE OLIVEIRA

(I)
Não obstante mais de cinquenta anos decorridos, não é possível esquecer a visita da jovem Rainha Isabel II, de Inglaterra, e seu marido a Portugal.
Em 1952, havia subido ao trono Isabel II, filha de Jorge VI. A subida ao trono ocupou as primeiras páginas da nossa imprensa, graças ao peso político-económico que a Inglaterra, exercia sobre Portugal.
Jorge VI, bisneto da Rainha Vitória, havia reinado durante cerca de 15 anos, duma forma clássica e austera. A filha, Isabel, era uma graciosa jovem, de 26 anos, que gostava de montar a cavalo, e uzava em público o uniforme de Coronel-Comandante dos Granadeiros da Guarda. Durante a Guerra, destacou-se no Serviço Auxiliar Territorial Feminino, onde se tornou uma conceituada motorista e mecânica. Em 1947, casou com Filipe de Edimburgo, numa cerimónia luzidia, que a população aproveitou para testemunhar a simpatia à Monarquia e à futura Rainha.
Os preparativos para a visita à vila da Rainha Isabel II e marido, depois de Craveiro Lopes ter visitado, dois anos antes, oficialmente a Inglaterra e sido recebido em Buckingham, começaram com bastante tempo de antecedência e implicaram importantes transformações, na Ala esquerda sul do Mosteiro de Alcobaça e a urbanização da Praça do Rossio, a partir de 15 de Agosto de 1938 denominada Praça Dr. Oliveira Salazar.
Segundo O Alcoa escreveu, na hora conturbada que o mundo vive, há-de considerar-se como exemplo de valor universal a apoteótica manifestação de profunda e sincera amizade entre os dois povos, português e inglês, ligados por uma aliança de mais de seis séculos, que parece rejuvenescer com o tempo, confirmando-se os propósitos que a ditaram: Sólida Perpétua e Verdadeira Liga. Muito se escreveu então, e depois, sobre esta visita e o seu sentido. Era o tempo da Guerra-Fria, a alguma distância ainda da ocupação de Goa, Damão e Diu, pela União Indiana, perante a (desoladora) inércia do Reino Unido, o velho aliado.
Para além do sucesso social e político que constituiu a visita a Portugal e Alcobaça, a verdade é que aqui foi pretexto para se fazerem obras de recuperação e restauro do Mosteiro, degradado e vandalizado, bem como da sua zona envolvente. Já em 1955, se anunciavam importantes obras, por determinação do Ministro das Obras Públicas, Engº Arantes e Oliveira, que visitara Alcobaça, e cuja finalidade seria, alegadamente, reintegrar o Mosteiro na sua primitiva e austera traça cisterciense. Os túmulos de D. Pedro e Inês de Castro foram removidos do local onde antes se encontravam, para aquele onde ora estão.
Não é este o local para fazer a história das relações luso-britânicas , mas divagar sobre alguns pequenos pormenores que, com a distância, poderão ter eventualmente assumido contornos interessantes. Como temos dito e redito, a História, tal como a vida das pessoas, não é constituída apenas por acontecimentos capitais, mas também por alguns reconhecidamente menores, que lhe dão o sal e a pimenta imprescindíveis para ser servida, como sabe qualquer cozinheira ou cidadão.
A nível local foi à Câmara Municipal de Alcobaça, sob a presidência de Joaquim Augusto de Carvalho, quem competiu dar o apoio logístico possível, além do que disponibilizou, em termos de mão de obra. De fora, estavam questões, tão complicadas, como o protocolo britânico, a decoração da Igreja, da Sala do Banquete ou a Ementa. Durante alguns meses, houve algumas obras municipais pelo Concelho que tiveram de parar, de modo a possibilitar a deslocação do pessoal para a zona do Rossio. Aí, ao lado do pessoal da Câmara, trabalharam afanosamente vários empreiteiros e operários da Junta Autónoma das Estradas (J.A.E.) e do Ministério das Obras Públicas (M.O.P.). Parte da frontaria sul do Mosteiro, estava enterrada e desfigurada. Começou-se por demolir o Jardim-Escola João de Deus, transferido para a Gafa, e, sem ele, limpou-se o enorme montão de terra que ocultava a fachada sul e impedia a vista das colunas, bem como os arcos, simétricos da ala norte. Foram restauradas as janelas e suprimidas as águas-furtadas, mandadas construir por particulares que ali viviam, como recordava o Dr. Amílcar Magalhães, cujo escritório era em frente ao Mosteiro e ao Tribunal da Comarca.
O Tribunal por esta altura já funcionava em péssimas e vergonhosas condições, no 1º piso da Ala Norte do Mosteiro. Anos depois, num Domingo de Março de 1966, ruiu estrondosamente parte do tecto de uma dependência, aonde, no dia a dia, trabalhavam, entre outros, o escrivão José Maria Cascão, e o escriturário Adélio Maranhão, que ficaram a dever a sua integridade física ao acaso do dia. Terminados os trabalhos de desaterro, construídos os muros de suporte de terras e pavimentadas as ruas de acesso, cortadas árvores que afrontavam a fachada, a praça, passou a assumir contornos algo semelhantes aos que apresentou até às recentes e controversas alterações. No interior, procedeu-se à transladação dos túmulos de Pedro e Inês para o transepto da Igreja, dando satisfação a um antigo desejo de Lopes Vieira, que não teve tempo de ver cumprido. Ainda se colocaram esculturas nas capelas radiantes da charola, que se encontravam espalhadas pelo chão da Capela de Nª Senhora do Desterro.
Teve bom impacto visual a colocação de esferas armilares nas varandas das casas do Rossio, no que hoje seria considerado uma manifestação de carácter nacionalista, bem como a ornamentação das janelas com colchas e colgaduras. A Rainha Isabel entrou no Mosteiro depois de passar por alas compactas de pessoas, que nalguns casos vieram de longe, sobre capas de estudantes de Coimbra, ajoelhados à passagem, dirigindo-se à Sala dos Reis, onde era aguardada por Craveiro Lopes, para depois passando pelo Claustro, almoçar no Refeitório conventual. Ali, foi utilizado um serviço de copos de cristal da Crisal, expressamente fabricado, e que no futuro passou a ser conhecido como o Serviço da Rainha. Da ementa, fez parte uma torta de frutas de Alcobaça e uma aguardente oferecida pela Família Raposo de Magalhães servida, com o café, na Sala dos Reis.
Na falta de eficaz coordenação e perante um grande voluntarismo, o fazer e desfazer nas obras acontecia com frequência, como era um dia colocar-se um colector de esgoto e vir dias depois uma máquina do MOP desaterrá-lo e inutilizá-lo. Muita intervenção foi no edifício da antiga Hospedaria do Mosteiro, onde os frades alojavam os visitantes importantes. Depois da extinção das Ordens Religiosas, estiveram ali instaladas o Tribunal Judicial, a Legião Portuguesa, a Tesouraria, Finanças, a Câmara e até a Cadeia Comarcã.
O Eng. José Costa e Sousa era, ao tempo da visita, Chefe dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal, aonde fez a carreira profissional. Recordou que as obras de desaterro do Mosteiro foram alargadas para além do inicialmente previsto, tendo sido expropriadas propriedades contíguas à Rua Dr. Zagalo. Esta foi alargada para dentro dessas propriedades, de modo a permitir aumentar o espaço frente ao Mosteiro, tornando-o simétrico com o lado norte. Para as obras na Rua Dr. Zagalo, conhecida por Ladeira do Mata Galinhas, e porque havia habitações em risco de ser arrastadas numa derrocada, construiu-se um muro com sacos de cimento, descarregados directamente das camionetes, os quais funcionavam como blocos. Nesse local, e para escorar algumas casas em perigo, tiveram de ser colocados troncos de pinheiros, cortados no Pinhal da Gafa, alguns com 14 metros de comprimento. Dado que o corte se fez de noite nunca se soube da razão…, o pessoal municipal trabalhava à luz dos faróis de camionetes e depois carregava, a braço, os enormes e pesados troncos. Para pegar nalguns era, segundo Costa e Sousa, necessário o esforço de mais de 20 homens.
Costa e Sousa, ainda se ri do vendaval num copo de água que foi o problema das instalações sanitárias que se construiram para uso dos Reis de Inglaterra. Estava previsto que estes descessem pela nave lateral do Mosteiro e entrassem na Sala dos Reis. Esta encontrava-se ricamente mobilada com armários de laca carmesim, biombos orientais e uma colecção de cerâmica chinesa. Anexos à Sala, foram construídos o toucador para a Rainha e a toilette para o Duque de Edimburgo. Aconteceu que o verniz estalou, a propósito da cor das louças a aplicar !!! O encarregado do Secretariado Nacional da Informação (SNI), cuja presença no local, ao que se dizia, tinha uma componente política, pretendia que se aplicassem louças cor-de-rosa, o do Ministério das Obras Públicas (MOP) defendia o azul, enquanto que o do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) se inclinava para o branco. Como quem estava mais tempo no local das obras era o técnico da Câmara, neste caso o Eng. Costa e Sousa, todos lhe diziam nas costas do outro, para aplicar a louça na cor que defendiam. O assunto assumiu tais proporções que o encarregado do SNI. ameaçou fazer queixa ao Dr. Salazar, se outra fosse a cor da louça, que não o rosa.

(CONTINUA)











A RAINHA ISABEL II, DE INGLATERRA, EM ALCOBAÇA (1958)

A COR DAS LOUÇAS DO TOUCADOR REAL NO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA
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FLEMING DE OLIVEIRA

(II)
A visita de Isabel de Inglaterra não foi a primeira que um soberano inglês fez a Portugal. Antes, em 1903, já tinha estado em Lisboa o seu bisavô, Eduardo VII, a convite de D. Carlos, na primeira viagem de Estado que fez ao estrangeiro, depois de ter acedido ao trono. Em Alcobaça, houve forte entusiasmo quando em Novembro de 1956 se soube que a Rainha de Inglaterra tinha sido convidada pelo Gen. Craveiro Lopes a visitar o País, e que do programa estava prevista uma visita à vila.
Fevereiro, é um dos meses do ano em que o frio mais aperta. O Governo Português não podia correr o risco de constipar o real casal, pelo que foram descarregadas no Mosteiro várias camionetes com botijas de Gazcidla será o Presidente da CMA teria interesse no assunto?, que logo aplicadas a aquecedores, estiveram em experiência e a preparar o ambiente, durante cerca de 15 dias!!!
A organização da recepção em Alcobaça, foi da responsabilidade dos serviços da Presidência da República (PR) e de algumas senhoras da nossa melhor sociedade, como a Duquesa de Palmela, D. Lúcia Monteiro (viúva do Dr. Armindo Monteiro, antigo Embaixador de Portugal em Londres no tempo da II Guerra) e D. Maria de Mello Breyner (Mafra). Salazar não veio à recepção em Alcobaça, mas na quinta-feira anterior aqui se deslocou para ver os preparativos, no que foi secundado, no dia seguinte, por Marcelo Caetano.
O Presidente da República, Gen. Craveiro Lopes, que não podia ser acusado de pendor monárquico, recebeu fidalgamente a Rainha Isabel. O almoço foi servido no Refeitório dos Monges, decorado com tapeçarias de parede e chão, telas dos nossos primitivos, porcelanas e esculturas.
Craveiro Lopes tinha à sua roda, alguns monárquicos assumidos, que se aproveitaram da situação, colocando na parede do Refeitório dos Monges, em frente ao lugar que lhe estava reservado, um escudo monárquico, comentando à boca calada que o Chiquinho não gosta, mas vai aguentar.

A visita da Rainha trouxe no próprio dia muitos turistas a Alcobaça, bem outros posteriormente para ver os melhoramentos no Mosteiro, a decoração e zona envolvente. Uns dois ou três dias depois foram suspensas as visitas à Sala dos Reis e Refeitório, bem com retirada a decoração, embora tivesse sido prometido que esta iria ficar por mais uns oito dias.
Havia um fotógrafo em S. Martinho do Porto, conhecido por Pedro, o Coxo, tido por um pouco atrevido. A sua propalada ideia, era furar o cordão policial no Rossio, a fim de fotografar a Rainha, antes de entrar no Mosteiro e se possível, fazer uns cobres. A verdade, é que conseguiu mesmo tirar algumas fotografias, não obstante andar a fugir da polícia. Mas como era coxo, e com a precipitação, nas fotos que conseguiu tirar, a Rainha aparecia sempre com a cabeça cortada !!! Nenhuma se aproveitou.
Regressada a Inglaterra, a Rainha Isabel II agraciou com o grau de cavaleiro da Royal Victorian Order, o Presidente da Câmara de Alcobaça, Joaquim Augusto de Carvalho, depois de ter sido publicado no Diário do Governo a necessária autorização por parte do Ministério do Interior.
À data do abandono do Mosteiro pelos monges, Alcobaça era um pequeno aglomerado de casas e com um reduzido número de habitantes, muito propriamente no local fronteiro ao Mosteiro e dele separado por um terreno. Esse terreno, o adro da Igreja, passaria em breve a ser usado para realização de feiras e festas locais bem como a constutuir o Rossio da vila. Rossio, Praça Serpa Pinto, Praça do Conselheiro João Franco, Praça do Município, Praça Dr. Oliveira Salazar, Praça 25 de Abril, eis os nomes que, graças aos ventos da História, foi assumindo o nome de uma praça, espaço que reflecte na sua morfologia a história a diálogo entre o povo e o Mosteiro. Até 1833, foi uma região de fronteira. Essa contenção materializava-se no terreno, na sua cerca e decorria da lei cisterciense (ascetismo e exclusão do mundo).
Após o triunfo do liberalismo, deu-se a apropriação particular e estatal dos espaços, nomeadamente de propriedades do Mosteiro, que passaram para a posse de famílias influentes ou do Município. O Rossio foi apropriado à medida que o Mosteiro foi reintegrado na vida urbana, ao ser usado como Teatro, Câmara Municipal, Tribunal, Repartição de Finanças, Cadeia, etc. ...
É no Rossio que se condensa grande parte da história de Alcobaça, mas que deixou de ser, após a última intervenção, um lugar importante na vida urbana do dia a dia.
Ainda há quem diga que a visita de Isabel II foil a visita do século.
Tirou-se o bergantim real do Museu da Marinha (para ser manobrado por oitenta remadores), para fazer a ligação de 300 metros do Iate Britania ao Terreiro do Paço. Ofereceram-se presentes caros à família real, requisitou-se a baixela Germain, fez-se um desfile de barcos no Tejo, um cortejo pela cidade de Lisboa com um coche do século XVIII, construído em Londres para o casamento de D. João VI com D. Carlota Joaquina (foi esta a última vez que saiu à rua), arranjos no Palácio de Queluz e Mosteiro da Alcobaça. E até se comprou um Rolls-Royce, embora em segunda mão, para transporte da soberana. Enfim, Salazar fez tudo para que a encenação fosse perfeita. E conseguiu.
A Rainha Isabel, trazia consigo os olhos do mundo, a imprensa cor-de-rosa e não só, que designou a sua estada, no Portugal de Salazar como uma segunda lua-de-mel, o que não era desinteressante em termos de imagem para o exterior. Isabel era uma jovem com um guarda-roupa elegante, que marcou a moda. O casal real esteve, a título privado, em casa dos Duques de Palmela, por os ligar uma velha amizade. Filipe de Edimburgo, veio juntar-se a Isabel em Portugal, depois de uma viagem de vários meses pela Commonwealth. Os ingredientes estavam reunidos para os focos internacionais se centrarem em Lisboa, facto que Salazar, não desdenhou aproveitar. A Capital e pontos-chave da cidade foram embelezados por Leitão de Barros, onde não faltaram os entalhados a ouro, cetins brancos, veludos vermelhos e panejamentos da época de D. João V. Relativamente aos custos é verdade que o Presidente do Conselho achou um exagero de orçamento, (por isso se decidiu comprar um Rolls Royce usado, mas que mesmo servia mais que bem…) e que acabou por não discutir, pois considerou como não se veio a comprovar esta viagem como importante contrapartida, no enquadramento da sua concepção de defesa do regime e especialmente do Ultramar já em perigo. Até então a Grã-Bretanha seguia a orientação de Churchill que era a de manter o império onde o sol nunca se punha. A situação política mudara, agora governava McMillan que defendia, ao contrário de Éden, ambos conservadores, o abandono progressivo das colónias, como acontecera com a Índia, a aliança com os EUA e a aposta na Europa.

(CONTINUA)











A RAINHA ISABEL II, DE INGLATERRA, EM ALCOBAÇA (1958)

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FLEMING DE OLIVEIRA


(III)

As pessoas em Alcobaça também se prepararam, para a visita, mesmo sabendo que não iriam nem poderiam ser convidadas para as recepções.
Como era a moda e o que se usava nos fins da década de cinquenta? As senhoras da sociedade usavam luvas, sempre que possível a condizer com o vestido, composto de uma jaqueta e saia, com abertura nas mangas e golas em bico. O chapéu era cónico, o sapato negro de tacão, por vezes alto, e com biqueira. Tal como sempre, houve senhoras que queriam ver e ser vistas, revelando estarem up date, adquirindo conjuntos de toiletes, que comprendiam sapatos, chapéus e vestidos, em modistas e estabelecimentos de Lisboa (pois que em Alcobaça não se sentiam confortadas, para o grande momento…), apesar de haver modistas. Mas estas eram mais tipo costureiras como a Maria Amélia do Couto, a Segismunda, a Maria Pequena ou a Sineiro, que faziam vestidos simples, inclusive de noiva, e principalmente muitos arranjos. Há cerca de 50 anos a principal modista de Alcobaça era talvez Elvira Veríssimo, que tinha um atelier na rua do Dr. Brilhante, situado ao lado da actual Ourivesaria Rilhó, considerada por muitos como a mestra das outras que trabalharam em Alcobaça. Não se esqueça a Lúcia costureira, a América, mulher do Fernando Albano, a Joaquina Coelho, com atelier perto da antiga Olaria de Alcobaça, a Maria do Carmo, a Alice, a Virgínia Mineiro, com atelier na Pissarra e mulher de Pica Sapateiro. Estas modistas/costureiras tinham clientes, tanto da vila, como de vários pontos do Concelho. A mulher de Altino fez os vestidos por medida para muita noiva, embora houvesse já as que os compravam feitos.
Domingas Lucas, que não ganhou com a visita da Rainha, diz na sua forma peculiar de se exprimir, que nunca ninguém lhe ensinou costura, que esta arte é um dom. Não sei explicar, mas acho que cada qual nasce com uma habilidade e um gosto para uma coisa. Além de ser bastante conhecida e por vezes ainda solicitada na zona onde reside, Alfeizerão, os seus fatos já tiveram méritos reconhecidos. Algumas senhoras nem chegavam a tirar medidas, explicou, adiantando que, a maior parte das vezes, saía-lhe bem à primeira, o que dispensava as provas.
Para a visita da Rainha, os sapateiros de Alcobaça, como o Cândido Sarmento, o João Elias, o Juveo, o Pica, da Pissarra, também não tiveram clientes, não fizeram negócio, não competiam com os de Lisboa, seja com os cavalheiros ou com as senhoras. Eram, ainda e só, sapateiros à maneira tradicional. O calçado, faziam-no à mão. Utilizavam peles de vitelo e vaca, que, quando secas e grosseiras, tinham o nome de atanadas. As peles eram ensebadas, ao lume para se impermeabilizar, com sebo de borrego que se comprava no talho. Usava-se pneu para as solas. O cerol servia para untar as linhas, de modo a ficarem mais resistentes. O sapateiro tradicional usava martelos, torqueses e sovelas, instrumento constituído por uma espécie de agulha direita ou curva e encavada com que os sapateiros e os correeiros usavam para furar o cabedal para coser, pois do calçado faziam parte a presilha, o tacão, a gáspea, daí o dizer-se que mandei gaspear os sapatos, a palmilha, a vira, o rebordo, as almas, as solas, daí o dizer-se mandei deitar meias solas. Nas solas dos sapatos e botas usavam-se com frequência os chamados pregadores ou protectores, peças pequenas em ferro, colocadas nas biqueiras ou calcanhares, para que as solas durassem mais tempo. Era dura, não desafogada, a vida do sapateiro, até porque muita gente, há sessenta anos ainda andava descalça... ou não pagava. Ouvimos recentemente contar a hisória que segue, embora não tenhamos conseguido apurar com quem se passou. Há cerca de 60 anos um sapateiro de Alcobaça, começou a exigir o pré-pagamento do trabalho. As razões eram evidentes. Alguns clientes não pagavam, outros não levantavam os trabalhos, e no fim do mês as más consequências desses comportamentos eram manifestas. Um dia, um cliente pediu que lhe fossem substituídos os tacões dos seus sapatos de marca, alegadamente para ir à recepção à Rainha. O sapateiro explicou ao cliente que tinha de os deixar, podendo levantá-los mais tarde. Ao mesmo tempo, propôs-lhe o prévio pagamento do serviço. Mas como o cliente dizia ter todo o tempo do mundo, não se importava de esperar. E, assim foi. Tirou os sapatos, sentou-se numa cadeira, cruzou as pernas, mostrando meias de boa qualidade, e fumou um cigarrinho, enquanto aguardava. Ao fim de algum tempo, o trabalho estava pronto. Calçou-se, perguntou quanto era e disse que tinha que ir ao carro buscar a carteira, pois não tinha ido antes, porque não podia ir descalço.
-Concerteza, comentou, com a maior naturalidade o sapateiro.
O cliente, sapatos arranjados, saiu da loja e nunca mais apareceu.
E os cabeleireiros da terra?
Tinham ou tiveram muito que fazer com a visita real? Com a vista real cremos também que não. O cabeleireiro de Alcobaça com mais freguesia, com clientes mesmo de Caldas da Rainha, era o Manuel Catita, com salão ao lado do actual do Café Portugal e entrada tanto pela Rua Alexandre Herculano, como pela Praça da República. Este salão teve o serviço da Lili manicure, bem como de aprendizes, cuja função era apenas lavar cabeças. Não penteavam, muito menos pegavam na tesoura.
Do alto dos seus quase sessenta anos no ramo, Joaquim Cabeleireiro, de Caldas da Rainha, fez umas considerações sobre a profissão. Há anos, dizia-se que um cabeleireiro com uma escova e um pente não passaria fome. Hoje, esse conceito deve ser modificado pois, dificilmente sobreviverá o que dispuser apenas de talento e habilidade. Recorda que, antigamente, a noiva lhe levava uma foto ou revista e, assim, fazia o modelo que ela queria, mas hoje respeitamos sim, mas, com toda delicadeza e educação sugerimos modelos que lhe ficarão melhor. Atendeu noivas que queriam casar com o cabelo solto, porque tinham orelhas de abano, nariz saliente, rostos muito redondos ou pequenos demais…. Nos últimos vinte ou trinta anos, profissionais como Joaquim Cabeleireiro sentiram a grande mudança no dia-a-dia do salão, concretamente com relação ao movimento de clientes, cuja assiduidade e rotina foi aumentando. Vários factores concorreram para a alteração, como hábitos e técnicas que substituíram algumas, anteriormente utilizadas. O perfil da cliente mudou. Antes, Joaquim Cabeleireiro, como mutos colegas de Alcobaça, trabalhava exaustivamente, de segunda-feira a sábado, aos sábados, por causa dos casamentos ou festividades, o trabalho começava às 7h30, e os serviços mais procurados eram o corte, o pentear, o banho de creme, a coloração, a permanente e a touca de gesso, isto é, uma mistura de líquido de permanente e farinha de trigo, utilizada para diminuir o volume.
Hoje, comenta Joaquim Cabeleireiro só continua inalterado o perfil da cliente que procura o serviço de corte mensal, bimestral ou semestral. A diferença está na procura de outros trabalhos. Há cinquenta anos, algumas das minhas clientes, mesmo as que tinham cabelos curtos, iam ao Salão até duas vezes por semana, ainda que tão só para pentear. Com a evolução das técnicas de corte e a moda, a escova deixou de ser exclusividade e prioridade no meu salão. Em compensação, outros serviços ganharam força, substituindo práticas anteriores. É o caso da coloração, que antigamente só era procurada para cobrir fios brancos, e agora passou a ser um factor de fidelidade, como reconhece Joaquim Cabeleireiro.

(CONTINUA)




















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FLEMING DE OLIVEIRA

(IV)
A visita real mexeu subtil, directa ou indirectamente, com muitas coisas. Os proprietários arranjaram as fachadas dos prédios do Rossio. Os ditames da etiqueta, ou suposta etiqueta, não foram esquecidos, muito menos certos pormenores deixados ao acaso, como o chapéu. O chapéu?
Sim, pois que nos anos cinquenta era ainda um acessório fundamental, na classe média/alta portuguesa e alcobacense. Nasceu o chapéu da necessidade de protecção da humidade, poeira, do frio e do sol. Mais tarde, passou a servir como distintivo da origem social do portador, tendo havia muitas senhoras que o foram pretensiosamente comprar fora.
Mas houve homens, os cavalheiros como se reputavam e usava dizer, que fizeram fatos de em Leiria ou Lisboa, mesmo não indo à recepção. Recordamo-nos do que era fazer um fato antes da era do pronto-a-vestir, como o caso de nosso Pai (no Porto) ou do Dr. Magalhães (em geral em Lisboa, mas por vezes em Leiria). Faça-se aqui uma pequena e incidental digressão sobre o tema, abordando uma profissão que se extinguirá, definitiva e eventualmente, dentro de algum tempo. Com efeito, a arte de alfaiate, muito popular há meio século, está praticamente extinta. Haveria na altura da visita, na vila de Alcobaça, cerca de uma vintena de profissionais a exercer a arte, já com a categoria de mestre, como o reviralhista Serafim Amaral, o Gaivoto, à Pissarra, o Bento Ricardo, perto do Posto de Turismo e que era padrinho da mulher de Altino Ribeiro, o Bajouco, ao lado do antigo Quartel dos Bombeiros, o Amaral, ao lado do Capador, o Abílio Alfaiate Lourenço Marques, junto aos antigos sanitários públicos, ao lado da actual sede da Junta de Freguesia de Alcobaça, o Xico Belo, ao lado do Palácio Costa Veiga, o Isidro Caneco, perto da Fonte dos Talassas ou o Manel Alfaiate. Aprendizes, semi-oficiais e oficiais, talvez houvesse para aí o dobro dos que se tinham alcandorado ao topo da arte. Só era mestre quem já sabia tomar medidas e talhar.
Hoje, Manel Alfaiate, que em novo foi profissional de sucesso, está com mais de oitenta anos. Não se aventurando a fazer obra de responsabilidade, ainda constitui um pronto-socorro para um vizinho que precise de apertar, alargar um casaco ou umas calças, subir, descer bainhas ou mangas, e se for bem conversado, antes de almoçar, ainda confecciona umas calças para ambos os sexos.
Até aos anos cinquenta, rara era a peça de vestuário que não fosse feita por medida, como diz Manuel Alfaiate. Quando um fato era adquirido numa loja de pronto a vestir, o que acontecia apenas nas cidades, o alfaiate da província comentava, desdenhosamente, que se tratava de obra de fancaria. O freguês entregava o tecido na alfaiataria, ou comprava-o lá, submetendo-se a tomada de medidas de rigor geométrico pelo mestre, cuja fita métrica estava ordinariamente suspensa sobre o pescoço. A fazenda era molhada para depois não encolher. A obra iniciava-se com o esboço do fato, feito com giz branco apropriado, seguindo-se o corte e depois todas as operações de confecção que incluía uma ou duas provas. Na segunda prova de Manuel Alfaiate, entrava o pormenor da dimensão das mangas, tomada com o braço estendido e dobrado, e o cair da gola, os rebuços. Era importante assegurar ao cavalheiro que o casaco caía bem, tanto de frente como de costas, sendo para tal necessário que permanecesse quieto, direito, sem levantar os ombros. A altura das calças dependia do tacão do sapato. Depois de tudo, poderia sair um trabalho digno de aparecer, se não na recepção à Rainha, pelo menos numa festa ou tão só na rua. O traçado de giz de Manuel Alfaiate, denunciava o futuro formato do casaco ou das calças. Com o corte certeiro da tesoura, o mestre transformava o tecido numa peça única. Um casaco, colete e calças, exigia trabalho aprimorado e era feito geralmente de tecido de qualidade, que só os clientes mais abastados tinham possibilidades de adquirir. Para os outros havia o cotim, a ganga e a saragoça, que não exigiam confecção muito apurada, dispensavam forros e, por isso, eram mais ruraos e menos onerosos.
Recordamo-nos da azáfama que, nos nossos tempos de estudante, reinava nas alfaiatarias do Porto, nas semanas que precediam as épocas festivas, como o Natal ou a Páscoa. O Domingo de Páscoa e o Natal eram os dias em que muitos desejavam estrear roupa nova e então, o trabalho nas oficinas de alfaiate, desenrolava-se com um frenesim, fora do comum. Não havia horários, e os serões prolongavam-se até às tantas. Também não havia folgas e era apertado o tempo dispensado às refeições e ao descanso.Talhar, alinhavar, coser à máquina e à mão, provar, casear, pregar botões e passar a ferro, eram operações que se sucediam com celeridade, mas quase sempre sem prejuízo do apuramento da obra, pois estava em jogo o prestígio do mestre, sem excluir a rivalidade dentro da classe. Os janotas queriam exibir-se, e os alfaiates, na mira de proventos que os compensassem de épocas mais brandas, davam o máximo.
Os alfaiates estão pois em vias de extinção como se sabe. As lojas de pronto a vestir e concorrência dos ciganos, foram acabando com eles. Nas grandes cidades ainda vão subsistindo os que são procurados por executivos ou gente da alta que, embora pagando caro, ainda preferem um fato que se molde bem ao corpo ou então que, pela corpulência ou defeito físico, não encontrem naqueles estabelecimentos, coisa que lhes assente bem. Mas a verdade é que a confecção de obra personalizada, está a passar à história. Alcobaça não é excepção. Conhecemos um alfaiate, à moda antiga, que trabalhou no Porto para o autor destas notas e, especialmente, para o seu Pai, que ainda tem oficina na Rua Sá da Bandeira, ao Bolhão. Os mais de 70 anos do Sr. Miguel, não são visíveis no rosto e postura erecta, homem que desde os 11 anos é alfaiate. Segundo diz, não se imagina reformado e ainda faz as suas peças de roupa, com excepção das camisas. Aprendeu a arte muito novo, quase criança, acabara de sair da escola baptista, sem poder prosseguir os estudos. Foi ao longo dos anos que aprendeu os segredos da actividade. A dedicação, o empenho, a habilidade e até a afabilidade, valeram-lhe uma seleccionada e fiel clientela, hoje quase só da sua idade!, que ainda vem encomendar fatos ou, simplesmente, umas calças ou um casaco especiais. Enquanto conversámos , numa visita para matar saudades, admitiu que o volume de trabalho tem vindo a diminuir, mas que mesmo assim consegue viver. Gosta de conversar e, apesar de não ter muitos estudos, contou-nos o que diz ser o resumo de uma peça de Beckett. Quem diria…!!!
-Um homem mandou fazer um fato no alfaiate. Este disse-lhepara vir fazer a prova daqui a oito dias. O homem foi lá e o alfaiate disse-lhe que ainda não estava bom pois que venha daqui a mais oito dias. O homem voltou na data marcada e o alfaiate disse-lhe, mais uma vez, que ainda não estava bem, devendo voltar daqui a oito dias. Então, o homem retorquiu, impaciente: O senhor demora mais a fazer um fato do que Deus o mundo! O alfaiate respondeu muito senhor de si: Mas depois se comparar um com o outro... verá que o fato ficou perfeito!

(CONTINUA)

A RAINHA ISABEL II, DE INGLATERRA, EM ALCOBAÇA (1958)

A COR DAS LOUÇAS DO TOUCADOR REAL NO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA
AS OBRAS NO MOSTEIRO
A MUDANÇA DOS TÚMULOS DE PEDRO E INÊS
UM FOTÓGRAFO COXO A FOTOGRAFAR A RAINHA
A ETIQUETA DOS CURIOSOS
OS ALCOBACENSES PREPARAM-SE PARA A VISITA
A TROCA DE PRESENTES OFICIAIS
A RTP E A GRANDE E PRONTA COBERTURA DA VISITA


FLEMING DE OLIVEIRA

(V)

Actualmente como referimos, o uso do chapéu é algo puramente ornamental e considerado como um acessório excêntrico, especialmente no feminino. É objecto de moda (nos desfiles), mas antes não era. As senhoras mais novas, usam-no hoje com cores garridas, formas e materiais diversificados, enquanto os homens (os mais idosos) preferem o boné, em detrimento do chapéu de formas clássicas e convencionais. Hoje pode-se usar tudo. Vista-se o que se vestir, use-se o que se usar, já ninguém estranha a irreverência. Fazer com que as pessoas voltem o rosto para confirmar o que alguém usa, torna-se difícil, porque actualmente tudo, ou quase tudo, tem permissão para sair à rua. Decotes, transparências, rachas, peles, chapéus, sapatos são instrumentos da moda que o público consome avidamente. Se hoje se utiliza o que a moda coloca à disposição dos utilizadores, a verdade é que as coisas não foram sempre assim. Soltar a imaginação e criatividade inerente ao universo da moda não era assim fácil há cerca de 80 anos, pois havia limites que não era possível ultrapassar. Mostrar as pernas, usar um decote mais ousado, eram tentações que deveriam ser banidas, pelo menos em público, e a moda via-se obrigada a não ultrapassar tais padrões. Da imagem da mulher tapada há cem anos, sem deixar evidenciar marca dos contornos, passou-se para o desconforto do pós-guerra, com as roupas a apertar uma cintura, obrigatoriamente fina, do busto saliente, estilo Jeane Mansefield. Mais recentemente, a ala feminina pode libertar-se das amarras dos corpetes e espartilhos para dar lugar ao conforto de roupas cómodas e ajustadas às medidas.
Por onde andou, Belém, Alcobaça, Nazaré (aonde assistiu à exibição de dois ranchos folclóricos), Mosteiro da Batalha, a soberana britânica foi aclamada por milhares de pessoas, embora muitas das situações tivessem sido encenadas, como se veio a saber com os pescadores da Nazaré.
Percebe-se pela correspondência trocada entre diplomatas dos dois países, que o embaixador britânico em Lisboa, Sir Charles Stirling, quis conhecer com mais de um mês de antecedência o conteúdo do discurso do Presidente da República, general Craveiro Lopes. Fez-se também saber de Londres que a Rainha não desejou uma visita do Presidente do Conselho, alegando que tal podia implicar uma conversa sobre grandes problemas políticos.
Faltava mais de uma semana para a concretização da visita oficial da Rainha Isabel, e já a correspondência engrossava o dossier no Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre todos os pormenores, incluindo financeiros.
Enquanto as ofertas inglesas parece não ascenderem a mais de 20 ou 25 mil escudos, as nossas somaram 222.590$90, alertava uma nota do M.N.E. em Janeiro de 1957, dando conta dos valores: uma banda para a Rainha-95.000$00; um serviço de jantar para a Rainha e de chá para o Duque- 90.000$00); um lugre Gazela para o príncipe Carlos-25.000$00; uma boneca, vestidos e toucador de prata para a princesa Ana-11.000$00.
E até houve um presente extra para Isabel II, o Bussaco, um belo garanhão castanho, com oito anos de pura raça lusitana e detentor certificado de árvore genealógica de três gerações, com arreios encomendados pelo Presidente da República. Sabe-se que deixou descendência nas cavalariças inglesas. Para lá do protocolo, a Rainha conversou com o Gen. Craveiro Lopes, que sendo oficial de cavalaria, era um entendido em assuntos de raças e performances de cavalos, como a Rainha.
Todos os passos da visita real foram previstos ao detalhe. As dormidas, a hora do chá, a criadagem, os detectives, que não deviam dormir em Queluz no mesmo piso da Rainha, a presença da PIDE, os cortejos pela cidade, os banquetes inclusive de Alcobaça, as visitas, os petiscos. E algumas dicas: A Rainha aprecia muito sardinhas portuguesas de lata, lia-se nas indicações do Embaixador inglês, em Lisboa.
António Pinto de Mesquita, embaixador reformado, contou ao Diário de Notícias, a propósito dos cinquenta anos da visita, que ainda conserva o uniforme que o Ministério dos Negócios Estrangeiros ofereceu aos funcionários para a visita, mas ofereci-o ao meu filho, porque já vamos na quarta geração de diplomatas.
Na altura, Pinto de Mesquita tinha 29 anos, e estava no serviço de protocolo do M.N.E., pelo que assisti à cena em que o duque renunciou, no Porto, ao Rolls-Royce e entrou num carro de bombeiros aberto..
Lembra-se que Salazar pôs um cuidado especial na visita, não pensava noutra coisa. A visita foi a coroação de todo o esforço diplomático de Armindo Monteiro, que permitiu a Salazar uma grande reaproximação à Inglaterra, que se tem mantido.
J. Pedro Tavares, nos cinquenta anos da visita de Isabel II a Portugal e Alcobaça, escreveu o texto que, a seguir, com a devida vénia, vamos transcrever, em parte:
Em 1957/58, duas Rainhas vieram a Portugal. (…) A Rainha Elizabeth II do Reino Unido e seu marido o Príncipe Philip, Duque de Edinburgh, deslocaram-se a Portugal de 18 a 21 de Fevereiro 1957 e a Alcobaça no dia 20, quarta-feira. A Maria Callas cantou a Traviata no S. Carlos, em 27 e 30 de Março 1958. Quando a Rainha Isabel subiu a escadaria monumental do Mosteiro de Alcobaça, depois de ligeira hesitação (…) já a jovem monarca tinha conquistado o coração dos Portugueses e dos Alcobacenses. (…) (…) Alcobaça preparou-se durante anos para receber a Rainha. Desde 1929 decorriam os trabalhos de Reintegração do Mosteiro, sob os auspícios dos Monumentos Nacionais, estando ligados nomes como Gomes da Silva, Baltazar de Castro, os Irmãos Vieira Natividade e Ernesto Korrodi (anos 30). Na década de cinquenta, Joaquim Augusto Carvalho, que também esteve a receber a Rainha, na qualidade de Presidente da Câmara, ajudou com impulso para a Ala Sul, a demolição do Jardim Escola e a reconversão do Rossio. Na fotografia aérea que obtivemos por sua amável cedência, vê-se um Rossio misto, com a parte Norte ainda com o Desenho Tertuliano Marques, enquanto a Sul o traçado já indicia Vaz Martins. Rossio a fervilhar de gente, à espera da sua Rainha. (…) A Srª D. Berta e o General Craveiro Lopes, como Presidente da República, acompanhados de diversas Autoridades civis e militares, receberam os ilustres visitantes e levaram-nos a admirar o impressionante resultado das obras de recuperação e de reintegração, os inolvidáveis túmulos de Pedro e Inês, sobressaindo ainda belas decorações florais. Depois de passagem pela Sala dos Reis (onde foram construídas duas condignas instalações sanitárias para a ocasião, em compartimentos anexos, para o que foi apeada mais uma escada de caracol de comunicação para o piso superior, onde possivelmente se situou a Torre Sineira da Igreja do Povo), passou-se a opíparo banquete servido no Refeitório, o mesmo local digno das descrições beckfordianas. (…) A ementa fazia justiça aos coutos, com a lagosta de Peniche, as frutas e aguardentes de Alcobaça. A vitela era à portuguesa e as ervilhas, em Fevereiro, tinham que ser do Algarve. A qualidade do molho de chocolate no gelado, ainda hoje pode ser apreciada no Restaurante Trindade (embora extra-ementa)!
A visita de 4 dias de Isabel de Inglaterra, constituiu uma prova de fogo para a RTP, que começava a dar os primeiros passos. Foi acontecimento que teve um significado especial para o País, o Regime e muito concretamente para a RTP. Um tema como este, rodeado de um enorme interesse popular, levou a RTP a ter a oportunidade, bem como a necessidade, de oferecer a um relativamente significativo número de espectadores em expansão, a cobertura integral da visita, fazendo uma reportagem, até à altura, sem paralelo na história da informação no país. Os vários passos da soberana britânica e marido, foram minuciosa e rigorosamente documentados pelas equipas de repórteres de câmara e chegaram, escassas horas depois, a uma audiência que, estimativas ao tempo, calcularam ser cerca de um milhão de portugueses, atendendo à invulgar frequência registada nos locais públicos, como cafés e estabelecimentos, onde normalmente ainda só se encontravam os receptores. A visita de Isabel de Inglaterra, mereceu na RTP as honras de um jornal diário, e que, incluindo as reportagens do dia, não deixava de documentar o programa do dia seguinte, mostrando os locais a visitar, a descrição dos acontecimentos próximos, os preparativos que estavam a decorrer. Alcobaça sentiu essa presença e afã, que mobilizou, pelo inusitado, o interesse das pessoas ao reconhecerem algumas caras do pequeno ecrã e proporcionou motivos de conversa nas famílias e nas tertúlias. A par do serviço que houve que assegurar para a RTP, teve esta também de responder ao interesse do estrangeiro, pelo fornecimento de imagens. Largas dezenas de metros de filme, na altura utilizava-se uma película que tinha de ser impressionada ao jeito do cinema, foram fornecidos ao Brasil e à United Press Television. Por outro lado, tanto a BBC, como a ITV fizeram deslocar a Portugal equipas de reportagem. A BBC chegou a Portugal com alguma antecedência para documentar todos os locais a visitar por Isabel II.
A cerimónia do desembarque de Isabel II no Terreiro do Paço, foi objecto de um interesse especial. Uma bobina com muitos metros de filme, compreendendo planos colhidos de posição estratégica, era necessária ao conjunto da reportagem e foi rodada por um operador da RTP, o único que teve acesso ao local. Um avião a jacto da RAF, vindo especialmente de Londres, aguardou na Portela o tempo necessário para que um estafeta-moto fizesse entrega do filme, e de outros realizados por operadores britânicos. Cerca de 3 horas depois, o Reino Unido via as imagens da Rainha a desembarcar em Lisboa.
Como vimos, no ano seguinte à visita de Isabel de Inglaterra, esteve em Lisboa a divina Callas (27 e 30 de Março) para um esgotadíssimo concerto no S. Carlos, com bilhetes vendidos no mercado negro a preços especulativos, para interpretar a Traviata, de Verdi (no final com 42 chamadas ao palco!!!). Na encenação de a Traviata aonde não faltou verdadeiro champanhe e efectou-se uma gravação que o registou para sempre. Foi um dos grandes acontecimentos sociais do ano, que pediu também novos vestidos e a corrida aos cabeleireiros da moda. Pouco depois, um cruzeiro no iate de Onassis, mudou a vida da Callas e, de certo modo, a arte de representar e cantar a ópera.


FLEMING DE OLIVEIRA




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