terça-feira, 21 de janeiro de 2020

NO TEMPO DOS BÓERES EM PORTUGAL CALDAS DA RAINHA, ALCOBAÇA, TOMAR, PENICHE, ABRANTES E S. JULIÃO da BARRA.


NO TEMPO DOS BÓERES EM PORTUGAL
CALDAS DA RAINHA, ALCOBAÇA, TOMAR, PENICHE, ABRANTES E S. JULIÃO da BARRA.
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NOTAS PRELIMINARES

 A abordagem do tema em geral e de um alcobacense que virou bóer no particular, foi suscitada pelas informações dos descendentes de António Miguel de Oliveira a Jorge Araújo, após cerca de 60 anos quase sem contactos.
Trata-se de um homem que com 18 anos, nos inícios do século XX, emigrou com os Bóeres alojados em Alcobaça para a África do Sul.

Ockert Jacobus Olivier Ferreira, nasceu no Baixo Kouga/Cabo Oriental/República Sul Africana, em 19 de setembro de 1940, e encontrava-se aposentado desde 1988 vivendo em Jeffreys Bay, onde faleceu em 12 de setembro de 2018.
Ferreira pertenceu à oitava geração dos descendentes de Ignácio Ferreira que foi para África e aí se radicou. Os descendentes deste, cruzaram-se com bóeres, daí que Ferreira tenha assumido totalmente esta identidade em termos culturais, linguísticos, sociais e religiosos.
Investigador e professor universitário, mais conhecido por Cobus Ferreira, contou com algum detalhe, como mais ninguém, a vida que levaram os bóeres em várias localidades de Portugal, para onde foram deportados na sequência da Guerra Anglo-bóer.
Segundo o próprio, o meu primeiro projeto foi saber mais sobre o meu progenitor, Ignácio Ferreira. Mais tarde decidi fazer a minha tese de doutoramento sobre os Bóer internados em Portugal durante a Guerra Anglo-bóer, porque nem sequer os historiadores sul-africanos, quanto mais o público em geral, sabiam que Portugal teve um papel importante durante a guerra. O livro, é a versão publicada da minha tese. Como pode avaliar pelo meu inglês fraco, o inglês não é a minha língua materna. Eu sou falante de africânder e sinto que é meu dever promover o africânder usando a sua linguagem científica, especialmente agora porque a minha língua materna está sob uma grande pressão neste momento. A presença de internados bóeres em Portugal durante a Guerra Anglo-bóer (1899-1902) não é de conhecimento geral entre os sul-africanos, nem mesmo entre alguns historiadores.
Questionado se se considera um amigo de Portugal, esclareceu a Carlos Cipriano/Gazeta das Caldas que, fui um grande apoiante da seleção de Portugal durante o Campeonato do Mundo em 2010 e Cristiano Ronaldo é meu super-herói. Não sou só apoiante da seleção portuguesa. Sou um fanático por Portugal. Visitei o país nos anos 70 e tive um sentimento de regresso a casa. E durante os 18 anos seguintes tive o mesmo sentimento de pertença a este país e a sensação de que em vidas passadas vivi cá porque tudo me é tão familiar. Consigo identificar-me com as tradições e cultura portuguesa. Eu olho para Portugal como a minha segunda pátria.[1]
Em Viva os Bóeres! descreve como viveram, se organizaram e se relacionaram em Caldas da Rainha, Alcobaça, Peniche, Abrantes, Tomar ou S. Julião da Barra, onde estiveram como deportados dos britânicos na sequela da Guerra Anglo-Bóer.

Silvino Alberto Vila-Nova, que nasceu em Lisboa, em 5 de fevereiro de 1920,  foi figura de algum relevo na Magistratura Portuguesa, e na cultura de Alcobaça no seu tempo. Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, é autor de vários livros, bem como de outros em colaboração com Bernardo Henriques Vila-Nova. Faleceu a 9 de julho de 2011.
Vila-Nova, em 1989, escreveu no jornal A Voz de Alcobaça que The Boers in Portugal, escrito por Darius De Klerk, é um pequeno livro, se considerarmos o número de páginas, mas de grande interesse, atendendo à importância histórica dos acontecimentos relatados. O autor, como ele próprio esclarece nas primeiras páginas, não é um historiador, nem pretende fazer uma obra histórica, no sentido preciso da expressão. The Boers in Portugal é uma súmula de testemunhos, comentários, recordações e noticias que o autor recolheu ao longo da vida, através de conversas com pessoas muito diversas, de visitas a variados locais e de uma persistente pesquisa em livros e periódicos. Depois de uma breve introdução sobre a colonização da África do Sul por holandeses, franceses e ingleses, até finais do século passado, De Klerk refere o período conturbado da Guerra Anglo-bóer e o acolhimento dado pelos portugueses a cerca de 700 bóeres que se refugiaram em Moçambique e que posteriormente vieram para Lisboa, acabando por se fixar em Abrantes, Alcobaça, Caldas da Rainha, Peniche, Oeiras e Tomar. De Klerk, sensível ao estímulo de familiares e amigos, que o incentivaram a publicar a abundante informação recolhida, afirma nas páginas deste livro a sua admiração pelos Bóeres, cuja simplicidade, honestidade, coragem, sinceridade e sociabilidade põe em destaque. Ao mesmo tempo que repudia a traiçoeira atuação dos britânicos, manifesta o seu apreço pela hospitalidade e simpatia com que os portugueses acolheram os refugiados. Para caracterizar a personalidade dos bóeres e, em certos aspetos, a sociedade portuguesa de então, o autor vai entretecendo a sua narrativa de pequenos episódios, de breves notas relativas acontecimentos, paisagens, manifestações artísticas e desportivas ou meros costumes populares, conseguindo assim proporcionar uma leitura agradável, não obstante a monotonia e aridez de algumas páginas, que não passam de meras listas de datas e factos.
The Boers in Portugal é uma simbiose de apontamentos, crónicas, memórias (sobretudo na última parte sobre a rebelião dos bóeres em 1915) e, por isso, as informações surgem dispersas, tornando-se difícil encontrar o fio condutor. Mas é fácil depreender o espírito patriótico, a intenção pedagógica, a emoção (por vezes, comoção) com que o autor alude à situação dos refugiados bóeres e às experiências da sua própria família, aqui radicada.
É o intuito de comunicar o resultado da sua aturada investigação a quantos se interessam por esses acontecimentos históricos, sobretudo os sul-africanos, que De Klerk convida, de modo muito gráfico, a sentarem-se à roda da fogueira para ele lhes contar, à sua maneira, este capítulo da história do seu país.

Quase todos os casamentos de Bóeres e Portugueses, aliás muito poucos foram de mulheres com Portugueses, com a exceção de Jacobus Abraham de Klerk, que veio por Angola para onde tinha ido com o muito controverso Gen. Manie Maritz, em 1915 (Manie Maritz, também conhecido como Gerrit Maritz, foi um oficial bóer durante a II Guerra Bóer e um dos principais rebeldes da Revolta em 1914. Durante a década de 1930, Maritz tornou-se simpatizante do nazismo e ficou conhecido como um defensor declarado do III Reich.  Faleceu a 20 de dezembro de 1940, em Pretória, onde se encontra sepultado), e casou com Maria Catarina Leão de Almeida e Silva. Foram pais de Darius Kores Leão de Almeida e Silva De Klerk, que se assimilou à cultura Portuguesa, viveu muitos anos em Alcobaça, sendo proprietário de uma casa, situada sobre a Ala Sul do Mosteiro, e escreveu The Boers in Portugal.

Laetitia Smit, nasceu em janeiro de 1949, em Heidelberg/Transval, hoje cidade com mais de 70.000 habitantes na província de Gauteng/África do Sul, ao pé da Suikerbosrand/ Sugarbush Ridge.
O assunto da Guerra Anglo-bóer, fez sempre a parte de mim. A partir dos 8 anos, gostava de ler o máximo possível sobre ele. Mas ainda há tanto para descobrir, tantas histórias não contadas de bravura, sofrimento e dificuldades, de todos os envolvidos.
Cresceu em ambiente familiar sólido e feliz, onde segundo tem o cuidado de salientar aprendeu a amar livros, história e geografia, respeitar o próximo, sem discriminação de raça, religião ou cor, procurou saber os eventos horríveis e trágicos da Guerra Anglo-bóer 1899-1902, que ocupou a minha mente e as nossas conversas familiares. Considero-me, orgulhosamente, 100% Bóer, com descendência de Huguenotes da Alemanha e da Flandres. Muitos foram mortos em perseguição religiosa, resultante do ódio religioso e intolerância na Europa, especialmente após o massacre do Dia de São Bartolomeu em Paris, em 1572. Muitos Huguenotes foram forçados a fugir, em busca de liberdade religiosa. Centenas de famílias emigraram para a África do Sul onde encontraram um refúgio de paz e liberdade de consciência para adorar, o que lhes tinha sido negado na Europa. As principais características dos huguenotes eram: disposição alegre, resiliência, habilidade artística, individualismo, senso de independência, amor à liberdade pessoal e política, cortesia, hospitalidade, senso de humor, alegria e espírito de engenho (capacidade para fazer um plano), características que alega ter herdado.
Na faculdade, conheceu o marido tendo casado em 1968. Depois de 15 anos, e com dois filhos, o marido quis regressar a Portugal.
Confessa que foi difícil para mim e meus filhos adaptar-nos a uma cultura, costumes e hábitos muito diferentes. Mas com espírito de aventura e desafio, acabámos por nos adaptar e hoje em dia estamos completamente integrados na sociedade portuguesa.
Recorda que, nos tempos do apartheid, foi discriminada em Portugal pela sua religião Adventista do Sétimo Dia e pelo facto de ser sul-africana. 
Hoje, Laetitia Smit sente-se à vontade e considera Portugal como segunda pátria.
Entristece-me a insegurança, corrupção e destruição de cultura bóer, que hoje em dia reina na África do Sul, mas o essencial dos povos mantém-se. O espírito de pioneiros bóeres, a simpatia e o empreendimento, não tem cor da pele. Nunca me posso esquecer das minhas raízes, dos meus valores pessoais e dos meus antepassados. Sou o que sou, pela educação que tive, pelo espírito de solidariedade em que cresci, pelos valores cívicos e morais que aprendi e que transmiti aos meus filhos e tento transmitir aos meus netos também.    
Escreveu em inglês, em 2017 o livro Exiled in India /Exilado na Índia (editado em Portugal) que, segundo refere, foi bem-recebido na África do Sul e se vende em Inglaterra, pois ainda há interesse sobre o tema.
O livro aborda a Guerra Anglo-bóer, a deportação de um bisavô na Índia e a presença dos bóeres em Portugal, pese embora neste caso quase apenas em Caldas da Rainha.
Uma fonte importante de inspiração para o livro foi uma carta que, sua bisavó Cornelia Smit, escreveu ao marido, Hendrik Adolf Smit, enquanto prisioneiro de guerra, na Índia, conjuntamente com seu filho Barend, de 14 anos, que veio a ser pai do pai de Laetitia Smit, também chamado Barend.
Quando a carta chegou ao campo de detenção, Hendrik acabara de morrer e as autoridades britânicas devolveram a carta à família.
Laetitia Smit não perde a esperança que a África do Sul seja o País Arco-íris, ainda que demore mais algum tempo, onde brancos, negros e asiáticos possam conviver em harmonia e segurança.

A colonização de facto da África Portuguesa começou tenuemente no último século da Monarquia e prosseguiu, de modo que se pode afirmar que a I República iniciou efetivamente a exploração, que o Estado Novo prosseguiu.
Tal como este, o governo republicano considerava as colónias como parte integrante de Portugal, apesar de os africanos não possuírem direitos políticos. Os investimentos nas colónias sofreram um rápido incremento.
Com o deflagrar da I Guerra, o governo português teve sérias preocupações com as colónias africanas objeto da cobiça de grandes potências europeias, como a Alemanha e a Inglaterra, que por duas vezes tinham negociado, entre si, a sua partilha, como aliás o Marquês de Soveral se apercebeu e transmitiu a D. Carlos. Receando os efeitos negativos de ataques alemães aos territórios de Angola e de Moçambique, que tinham fronteiras com colónias alemãs, o Governo Português organizou expedições militares.
A que foi comandada pelo Ten. Cor. Alves Roçadas com destino a Angola, rumou à fronteira sul com a atual Namíbia, onde os nativos se haviam revoltado. Esta campanha revelou-se desastrosa e os portugueses, que se envolveram com os alemães em disputas de fronteiras, sofreram derrotas em Cuangar e Naulila.
Em 1916, tropas portuguesas reconquistaram a ilha de Quionga, situada na foz do Rovuma/Moçambique, que em 1894 fora ocupada pelos alemães. Depois desta operação, o Gen. Ferreira Gil atravessou o Rovuma, continuando o combate no sentido de reconquistar mais terreno aos alemães. As primeiras tentativas foram positivas, porque estes haviam abandonado os postos fronteiriços. Todavia reagiram depois, contra-atacaram e em dezembro reocuparam o terreno e infligiram pesada derrota aos portugueses, que foram obrigados a retirar. Com vista a evitar novos ataques e desaires, o governo teve de solicitar auxílio a britânicos e sul-africanos. Desta expedição fez parte o primeiro Presidente da Delegação de Alcobaça da Liga dos Combatentes, o Maj. Joaquim José Conceição, bem como ao que consta o soldado Alberto Campos, provavelmente natural do Bombarral.
Ao contrário dos camaradas de armas que regressaram a Portugal, Campos decidiu ficar em Moçambique, radicando-se na zona de Nampula, na perspetiva de aí desenvolver uma atividade agrícola, como era a sua profissão em Portugal e tinha sido a dos pais e pais de seus pais. Porem, a vida não lhe correu de feição e em 1918 emigrou para a África do Sul, fixando-se na zona do Cabo para trabalhar como vinhateiro. Casado ao fim de algum tempo com uma rapariga de origem moçambicana, veio a ter o, aliás, único filho Alberto, que seria o pai de Silvestre Campos que nasceu em 1948, cresceu a falar um português muito razoável, e a apreciar bacalhau e o bom tinto do Oeste. Segundo contava, sempre preferiu este, em detrimento do pinotage, em cuja produção laborou e se tornou expert.
Em 2008, viúvo, sem filhos, possuidor de B.I. português, com saúde e um pecúlio suficiente, resolveu vir viver para Portugal que, ao longo da vida, visitara várias vezes e onde tinha interesses.
Silvestre Campos, dado os conhecimentos de afrikaans (embora mais falado que escrito), ajudou a traduzir algumas passagens do livro de Ferreira.
Faleceu em novembro de 2018.

Além de Ferreira, Laetitia Smit, Darius De Klerk, Silvestre Campos, RTP, You Tube, a imprensa regional e local (Caldas da Rainha, Alcobaça, Tomar, Abrantes) foram consultadas e utilizadas neste trabalho, pois afigurou-se imprescindível pelo serviço que presta como guardiã de factos, tradições, identidades e informações que nenhum meio de âmbito nacional faz tão profunda, completa e interessantemente.




[1]-Viva os Boers! Boregeinterneerdes in Portugal tydens die Anglo-Boereoorlong, 1899-1902, foi publicado em Pretória no ano de 1994, com uma tiragem de 350 exemplares escrito em Africanans, impresso na tipografia de O. J. Ferreira.
Gazeta das Caldas/Carlos Cipriano.
Laeticia Smit entende que Ferreira sendo bóer, escreveu o livro em Afrikaans, porque há uma tendência de eliminar a língua da cultura sul-africana. Afrikaans é falado por todos os brancos e milhares de negros, por causa do trabalho. Se não saberem falar a língua, é mais difícil de encontrar trabalho, onde tem a tratar com o público.


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