sábado, 16 de dezembro de 2023

FEIRA DO LIVRO EM ALCOBAÇA (!972) BENFICA-SPORTING (final da Taça)

 

 

FEIRA DO LIVRO EM ALCOBAÇA (!972)

BENFICA-SPORTING (final da Taça)

 

FLeming de OLiveira

 

 

No sábado, dia 27 de Maio de 1972, abriu ao público a primeira Feira do Livro realizada em Alcobaça.

A iniciativa, que partiu do fotógrafo Antero Monteiro da Silva, com a prestimosa colaboração de Levi Condinho e de outros jovens alcobacenses como Basílio Martins, teve bom acolhimento por parte da Câmara Municipal e da Comissão Municipal de Turismo, bem como o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian e do Banco Português do Atlântico.

Presidiu à cerimónia inaugural, no estilo do salazarismo que o marcelismo e T. Trindade mantiveram, o Governador Civil de Leiria, acompanhado pelo Bispo da Diocese e seu auxiliar, Presidente e Vereadores da Câmara Municipal, Deputados pelo Círculo, entre os quais Amílcar Magalhães, outras entidades distritais e concelhias e representantes do Ministério da Educação Nacional.

Apesar de a RTP se encontrar a transmitir um Benfica-Sporting – final da Taça de Portugal – acorreu bastante público.

 

Após visitarem os 20 pavilhões que apresentavam nos escaparates obras de Alves Redol, Aquilino Ribeiro, Jorge Amado, Máximo Gorki, Pablo Neruda, o que para alguns era uma novidade – sem prejuízo de outros autores reservados a pessoas de confiança e que não se encontravam à vista como recorda E. Rui Serafim – o chefe do distrito e restantes individualidades dirigiram-se para o refeitório do Mosteiro, a fim de assistirem à conferência do monge francês D. Maur Cocheril subordinada ao tema O Mosteiro de Alcobaça visto por um monge de Cister.

Nos dias que se seguiram, o público visitou o recinto da Feira que ocupava totalmente a Praça D. Afonso Henriques, e ficou surpreendido ao ouvir música de Manuel Freire, José Mário Branco, José Afonso, que emissoras como a EN e Rádio Renascença não passavam.

 

Segundo informou a Câmara, as vendas ultrapassaram as expectativas, embora o interesse comercial fosse alegadamente secundário, como entendia Condinho e colaboradores.

Como inovação, o público foi autorizado a entrar nos pavilhões, o que proporcionou uma salutar intimidade entre os leitores e as obras expostas.

Numa entrevista ao “Diário de Lisboa” inserida na reportagem que Manuel Geraldo efetuou e intitulou D. Quixote no Meio do Povo, Levi Condinho rememorou em traços largos o que foi Alcobaça nesses dias. Desde o dia em que centenas de crianças, em menos de duas horas, pintaram e decoraram todos os pavilhões, eu acreditei numa ampla mobilização das pessoas esclarecidas da região. Depois foi a procura geral de livros, por gente de todas as camadas sociais, a qualidade da música difundida, a sessão de teatro infantil, pelo Grupo do IMAVE e a tarde inesquecível de convívio entre a escritora Matilde da Rosa Araújo e crianças. No fim, a representação em palco improvisado da peça de António José da Siva, “O Judeu”, A Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança pelo grupo de teatro de Campolide.

Outras pessoas foram entrevistadas pelo jornalista do “Diário de Lisboa”.

Gertrudes do Rosário, rural migrada do Alto Alentejo para uma fábrica de loiça da região de Alcobaça, olhava para um jovem que folheava A Invenção do Amor, de Daniel Filipe. É o meu rapaz mais velho. Gosta muito de leituras e enquanto não me trouxe a ver a Feira não descansou, É um rapaz muito interessado! Eu é que nem ler sei, pois no monte onde vivia, lá no Alentejo, só me ensinaram a mondar, ceifar e apanhar azeitonas. E agora já é tarde...

A inflação e o caso de Angela Davis, foram temas que impulsionaram as compras do contabilista Adílio de Sousa. São temas de atualidade, com uma ampla incidência sobre o nosso quotidiano. E sem Feira do Livro, talvez a possibilidade de adquirir “O Que é Inflação?” e “As Cartas de Prisão”, não tivesse surgido. A Cultura precisa destas iniciativas, para que nós os homens comuns, possamos ser incentivados.

Encavalitada num banco entre a assistência, Aurora Boavida disse que estive mesmo para não vir, porque me disseram que os atores eram todos uns guedelhudos, mas verifico agora que tinha perdido um espetáculo como tenho visto poucos. Até me esqueci que estava a chuviscar. Conheço a história escrita pelo Miguel Cervantes, mas esta diz coisas que interessam à nossa realidade.

 

Mas nem todos se encontravam na Feira com objetivo cultural.

José Almiro, técnico de televisão, esclareceu que não perco tempo com essas coisas de leituras. Eu vou mas é ver se ainda assisto à segunda parte do Benfica-Sporting. Aquilo é que é espetáculo, jogo de homens; isso das leituras é bom mas é para tipos inválidos.

A título de mera curiosidade recorde-se que o Benfica levou o trofeu vencendo por 3-2, sendo seu capitão Jaime Graça e treinador Jimmy Hagen.

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