sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

ROSSIO DE ALCOBAÇA E O ARBORICÍDIO (1930)

 

 

O ROSSIO DE ALCOBAÇA

E

O ARBORICÍDIO (1930)

 

FLeming de OLiveira

 

 

 

 

 

Em fevereiro de 1930, um acontecimento aparentemente banal mexeu com os alcobacenses e teve honras de relato na imprensa de Lisboa.

Tratou-se do Corte das Árvores do Rossio de Alcobaça.

Enquadremos o evento.

O Rossio tornara-se ponto de reunião dos alcobacenses e de muitas famílias que, atraídas pele fama da boa comida, de boas frutas, das conservas e dos bons vinhos, veraneavam em Alcobaça. A estrada nacional, após deixar a Praça D. Afonso Henriques, passava próximo das casas existentes no lado oposto do Mosteiro e seguia, depois, para a Rua Fr. António Brandão. Mais ou menos a meio do espaço entre a estrada e o Mosteiro, havia uma faixa de terreno ladeado de plátanos e bancos que, em linha reta, ia desde a Estrada Nacional a norte, até próximo da dita Rua Frei António Brandão.

Existia o coreto municipal e os alcobacenses ocupavam os bancos e passeavam na faixa de terreno. Nas  em que tocava a banda, o movimento era intenso. Foram muitos os concertos que ali se deram, abrilhantados pelas bandas da Cela (então com o maestro Melro), Vestiaria, Pataias, Maiorga e Filarmónica de Alcobaça com o seu reportório de qualidade, que incluía música clássica, árias de óperas, além das marchas e peças populares de raiz mais ou menos folclórica. As pessoas ocupavam o espaço fronteiriço imediato onde havia choupos, as famílias passeavam e algumas levavam mesmo cadeiras, para assistirem mais comodamente ao espetáculo. A Banda, aproximava-se em passo certo, cadenciado, largo, ao som de uma marcha. À frente vinha o maestro, muito hirto, fato e gravata. Rendido à música, olhos fixos no trombone, postava-se até um homem que vendia jogo, e nesse momento se esquecia de apregoar a sorte grande. Indiferentes, as meninas-famílias continuavam a venda de rifas ou o peditório para os bombeiros, tal como os vendedores de tremoços ou pevides.

 

Era por ali que também se realizava, ao Domingo, o Mercado Semanal, muito concorrido, e onde se vendia de tudo, especialmente aos alcobacenses das redondezas, que se deslocavam em família, bem aperaltados, em burros ou carros de bois. Para complementar a atracão e o movimento, que por vezes eram tão intenso que as pessoas andavam aos encontrões, funcionavam umas lojas no primeiro andar da Ala Norte do Mosteiro. Para guardar os animais, havia vários locais espalhados pela vila – Piçarra, Portas de Fora e ao lado do Palácio do Pena – onde lhes era dado palha e recolhidas as necessidades, para depois se venderem como estrume.

 

Como se chegava ao mercado?

Vinham a pé, a cavalo, ou na carreira. O dia de mercado era festivo. As pessoas traziam os melhores fatos e as mulheres o ouro. No mercado, tudo tinha o lugar costumeiro, nos mesmos sítios há um ror de anos. Tudo se encontrava arrumado pela mesma ordem e na mesma hora. Os que vendiam tinham o seu cantinho reservado.

Os que compravam sabiam onde encontrar o que precisavam. Armavam-se as barracas de madeira e lona onde eram expostos e vendidos fruta, hortícola e artigos manufaturados. O visitante encontrava roupa feita de lã ou algodão, ferragens, cutelarias, calçado e chancas, bem como quinquilharias. As mercadorias vendidas no mercado constituíam o essencial para as necessidades do povo. Ao lado da área dos produtos que o lavrador vendia, encontrava-se a dos produtos que o lavrador comprava.

 

Júlio Correia, de Évora de Alcobaça, que trabalhou muitos anos na construção civil em terras de França, lembrava-se como era o mercado do seu tempo de meninice, anos de 1950. Comecei a vir vender tinha nove anos. Naquela altura fazia os oito quilómetros descalço, em cima do gelo e tudo, porque o meu pai não tinha dinheiro para me comprar sapatos. Vinha carregado com abóboras, feijão e outras coisas, como galinhas e coelhos e os calos que ganhei serviram de sapatos.

 

Em Fevereiro de 1930, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alcobaça nomeada pela Ditadura e presidida por Manuel da Silva Carolino, mandou cortar – decapitar – as árvores, o que muito desagradou à maioria da população pelo que não tardaram reações. Sob o título “As Nossas Árvores”, o Notícias de Alcobaça do dia 9, publicava o protesto da vila, a decapitação das árvores, acompanhado dum parecer subscrito por numerosas personalidades, que o Sindicato Agrícola, a Associação Comercial e Industrial entregaram às autoridades. A Direção do Sindicato Agrícola, registe-se, era constituída por José Magalhães, António Joaquim Moreira, Joaquim Guimarães e Levi Santos Coelho, e a da Associação Comercial e Industrial por José Magalhães, Leonardo Taveira, Joaquim Marques, Raimundo Ferreira da Silva e Lourenço Oliveira.

Em vários números, o Diário de Notícias fez eco dos acontecimentos, através de reportagens, comentários bombásticos e títulos como, Uma Monstruosidade, Um Arboricídio em Alcobaça, Matança de Inocentes. A 20 de Fevereiro, o comércio encerrou portas e urna representação da vila deslocou-se a Leiria, a fim de apresentar o seu protesto ao Governador Civil. No dia seguinte, o Diário de Notícias relatava: O Governador Civil recebeu o sr. Engenheiro Bernardo Villa Nova, representante das forças económicas de Alcobaça, que veio acompanhado de várias pessoas daquela localidade. O sr. Engenheiro Bernardo Villa Nova informou o chefe do distrito do descontentamento dos Alcobacenses perante os actos da sua Câmara Municipal. O sr. Américo de Oliveira que acompanhava também o sr. Engenheiro Bernardo Villa Nova, solicitou, em seu nome individual, a substituição da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, a fim de se apaziguarem os ânimos excitados, por virtude dos actos pela mesma praticada. O sr. Governador Civil informou os comissionados de que havia dado instruções à Comissão Administrativa da Câmara de Alcobaça (note-se apoiante da ditadura como se referiu), no sentido de não provocar novas questões nem agravar as existentes. Se assim não fizer, então, e oportunamente, tomará as medidas necessárias.

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