sexta-feira, 30 de setembro de 2011

SANEAMENTOS NO PC DE ALCOBAÇA-1974/1975 -LCI, revisionistas, estalinistas e afinal vamos aos copos.





Terminados as festivas e unitárias comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maio de 1974, arrancou em força e no terreno, à luz do dia, a organização do PC, a nível nacional e em Alcobaça onde, no início do Verão, se fez um comício no Cineteatro.
Abriu uma sede no local onde ainda hoje se mantém, por cima da Farmácia Campeão, e a Comissão Concelhia começou a funcionar em pleno, incumbindo Timóteo de Matos de superintender na angariação de fundos e na organização da célula dos professores. O seu controleiro, expressão que vinha do tempo da clandestinidade, era o corpulento Manuel Beja. Embora tendo passado a ser funcionário, Beja nunca conseguiu libertar-se de ser, afinal, um simples controleiro. Para ele, Timóteo de Matos, não passava de um intelectual o que, à data, não era cartão de apresentação no Partido. O PC, não dispensava, mesmo em democracia o controlo, pois a confiança foi sempre um problema difícil de resolver, dado não ser fácil confiar em absoluto em alguém. O Verão de 1974 passou-se entre lutas verbais com a direita, que em Alcobaça era representada pelo PPD, pois o CDS estava ainda em gestação, com algum PS e extrema esquerda, constituída por uma infinidade de partidos, aliás pouco representativos e efémeros, como FEC (ML), LUAR, AOC, OCMLP, UDP, MRPP, LCI, MES.

Foi no fim desse Verão que as coisas se começaram a complicar entre Timóteo de Matos e a estrutura local do PC. Na primeira reunião da Comissão Concelhia, após 28 de Setembro, Timóteo de Matos acusado pelo controleiro, de se ter alheado dos acontecimentos, foi afastado da comissão local.
Não surtiu efeito a sua defesa e, humilhado, sobretudo porque não correspondia à verdade, teve de abandonar a Comissão Concelhia com efeitos imediatos, o que significou o abandono, também imediato, da própria reunião em que estava a participar.
Saiu da sala, desceu as escadas em direcção à rua e logo no primeiro patamar, quem havia de encontrar, subindo em sentido contrário, e com ar decidido?
Os seus amigos José João Costa e Rui Perdigoto (hoje médico e Professor).
-O que é que querem daqui?
-Olha lá, não chateies! Vimos, em representação da LCI, protestar contra a provocação dos teus camaradas.
-Não digam disparates. Em Alcobaça vocês os dois não representam a LCI. Vocês são a LCI.
-Olha-me este provocador! Arreda lá, que a gente quer subir e esfregar este cartaz no focinho dos teus camaradas!
-Lá em cima? Querem mas é levar na tromba, é o que é! Não vale a pena subirem! A concelhia está em reunião.
-Em reunião? Se a concelhia estivesse em reunião, também tu lá tinhas de estar.
-Fui expulso…
-O quê? Do Partido!?
-Não! Só da concelhia!
-Espera aí…

Um sorrisinho maroto desenhava-se na cara espantada do Zé João, enquanto o Perdigoto olhava, parado e incrédulo.
-Verdade? Estás mas é a gozar!
A cena era surrealista.
Na verdade os dois decididos ativistas, empunhando o resto de um cartaz da LCI, arrancado de uma parede, tendo por cima colado um outro resto de um cartaz do PC, pretendiam ir à sede (Centro de Trabalho) fazer uma entrada triunfal, com piropos do género estalinistas de merda!
E ali estava eu pior que estragado, o suposto estalinista, acalmando os intrusos, meus amigos que se regozijavam com a minha expulsão e a quem eu tentava livrar de uma mais que certa capoeira de murros, já que, conhecendo-os como conhecia, sabia que, tendo já no bucho umas boas imperiais, não se calariam e iriam por ali a fora com doses de impropérios e provocações redobradas. O mais certo era descerem as escadas com ajuda e não por vontade própria e, por isso, lá lhes fui dizendo que esquecessem o Trostky e o Estaline e que o melhor era descermos os três e irmos ao Luís, da Piçarra, enxugar mais umas canecas.
E assim fizeram, especialmente porque a curiosidade e sede eram grandes.
Como é que é isso de um gajo ser expulso da concelhia?
Estalinistas de merda! Expulsarem o meu amigo…, insurgia-se o Zé João, disposto a subir de novo as escadas, animado de enorme fervor militante.

A Liga Comunista Internacionalista (LCI), fundada em 1973, tendo como primeiro líder João Cabral Fernandes, considerava-se como a secção portuguesa da IV Internacional, de cariz trotskysta e esteve mais tarde na génese do Partido Socialista Revolucionário. Nunca soubemos, porém, para além de uns chavões, o que é que Rui Perdigoto e companhia pensavam, diziam ou queriam. Será que eles próprios tinham mesmo alguma ideia?

O que pensavam sobre Estaline, que matava os adversários reais ou imaginários, para atemorizar e servir de exemplo? Ou Krutchov, que depois de eliminar Beria, prendia-os, embora tenha implementado formas de perseguição e tortura, supostamente, mais moderadas? É certo que para Perdigoto, mais tarde conceituado médico e realinhado com o PSD, ainda não tinha chegado o tempo de Breznev, que inventou os asilos psiquiátricos para curar os dissidentes. Pois, como é que, sem profundas perturbações mentais, se podia negar a realidade prodigiosa do socialismo, a magna sabedoria dos líderes, a inquestionável racionalidade do comunismo? Só um louco, demente, doente, podia repudiar a força do Sol da Terra, Os Amanhãs que Cantam?
Logo o lugar desses marginais era o manicómio.
-Deixa-te disso, pá! Anda daí!, retorquiu-lhe Timóteo de Matos, tentando evitar o escândalo.
-Bem, que se f…!
E lá seguiram os três, rumo às imperiais, porque um militante, nem por isso deixa de ser um apreciador de um bom copo. E, ao passar pelo caixote do lixo, já entre o apaziguado e o curioso, virou-se o Zé João para o Perdigoto:
-Dá cá essa porra !
E, com ar muito teatral, atirou ao caixote os pedaços rasgados, ao mesmo tempo que, displicente, ruminava um que se f… o cartaz.

E viva os copos!

Fleming de OLiveira


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