segunda-feira, 17 de outubro de 2011

-A ALIANÇA DE CIVILIZAÇÕES -SER BEM INTENCIONADO NÃO RELEVA POR SI




FLEMING DE OLIVEIRA
Já temos ouvido defender em Portugal, a necessidade e a viabilidade de uma Aliança de Civilizações.
Salvo o devido respeito pelos seus bem intencionados autores, e na glosa da mais antiga e peregrina ideia de Diálogo de Civilizações, não percebo bem como desenvolver essa política social. Uma aliança entre o nosso mundo e o muçulmano, por exemplo a jogar futebol para combater o terrorismo internacional, fundamental e fundamentalista islâmico, é como tentar lançar uma ONG, dirigida tanto pela Gata Borralheira, como pela Madrasta, em benefício das Meninas Desamparadas.
É uma ideia que parece soar bem nos areópagos diplomáticos, mas não mais que isso. Recentes atuações da Scotland Yard, tão oportunas quão reveladoras, mostrou bem alguns frutos da política de Aliança de Civilizações. Os islâmicos detidos, que preparavam uma série de atentados, haviam dialogado com os britânicos até à exaustão, são filhos de emigrantes (paquistaneses) da classe média. Não, não estamos perante fanáticos sem formação, como os magrebimos ou subsarianos chegados à Europa numa barcaça, após uma dramática travessia do mar.
A nossa Europa, não é fruto de uma casualidade qualquer, mas de um processo histórico lento e sedimentado, sustentado pelo pensamento grego, pelo direito romano e a ética cristã. Seguramente poderia ter sido de outro modo, mas para isso contribuiu o afrontamento dos que nos invadiram há séculos pelo sul. A reconquista, as cruzadas, a defesa de Constantinopla e dos lugares sagrados na Terra Santa, são fatores históricos que alimentaram a nossa formação europeia, da qual nos deveremos, sentir orgulhosos.
Não tenho funções, nem perfil para defender uma guerra santa, como resposta à jiahd e ao seu fanatismo. Mas não subscrevo slogans retóricos como a Aliança de Civilizações, que esquecem princípios essenciais da nossa matriz cultural e modo de ser. Não aceito abrir caminho ao descalabro de uma civilização milenar, em homenagem a frases vazias e posturas laxistas, ainda que muito bem (???) intencionadas.
O Papa Bento XVI, um intelectual de elevadíssimo nível, seria injúria qualifica-lo de mero bem intencionado, tem denunciado o laicismo e iluminismo que invadem o Ocidente e defendido que Igreja não faz política. Mas, nem por isso, deixa de entender ser legítimo pedir aos católicos que se oponham ao risco de decisões políticas e legislativas que contradigam princípios antropológicos e éticos radicados no ser humano, em particular os referentes à tutela da vida humana em todas as suas fases.
Não se estava aqui a referir especificamente ao caso dramático dos subsarianos ou líbios (ainda estava longe de pensar nestes), mas à defesa da vida desde a conceção até à morte natural, assunto complexo que agitou a sociedade portuguesa e não sei se está definitivamente encerrado.
Para Bento XVI, muito do Ocidente, encontra-se numa fase acelerada de secularização em nome de uma cultura que se pretende laicista, universal e autosuficiente, geradora de um novo estilo de vida, onde não há lugar para Deus.
Este tipo de cultura, faz um corte radical e profundo não só com o cristianismo, mas com as tradições religiosas e morais da humanidade.
As raízes da nossa cultura mirram-se e, perderemos todos.
Gosto de abordar o tema da Cultura, na medida em que o situo no que, na minha perspectiva, é a Alma de um Povo, o nosso Povo, o seu sentir ao longo dos séculos, o que o distingue dos demais pelas suas expressões materiais e espirituais. O tempo parece que rola cada vez mais rapidamente, e esta mudança que assume características diferentes, é a que constrói um povo, um País, Portugal.
Os Lusíadas mostram-nos o modo de ser português e quinhentista, o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, a nossa gesta marítima, colonizadora e civilizacional, a Baixa Pombalina lisboeta, uma nova face da arquitetura moderna e de um estilo de cidade, a Ordem de Cister, o poder de um Estado/Igreja, dentro de outro Estado.
E assim por diante.
Esta é a nossa cultura, isto é ser Portugal. Destruir ou abandonar este património cultural, é destruir aos poucos o sentido de unidade ou os alicerces de um Povo. Atravessa o nosso País, tal como a Europa, uma crise que não é só económico-financeira, onde são pedidos enormes sacrifícios e contenção. Lastimo reconhecer, nem que seja como a clamar no deserto, que esses sacrifícios incidem entre outros e muito especialmente num parente pobre do Orçamento.
Esquecer ou desprezar a cultura é o equivalente a menosprezar a nossa identidade individual ou coletiva.
Todos sabemos como o turismo, que é uma das atividades que assume cada vez maior peso económico e social em países como Portugal, tem vindo a alterar a vida e os costumes de certas comunidades. Os agricultores e pescadores portugueses foram das classes sociais que mais alterações sofreram, por força do turismo. A política de betão relativamente à qual se manifesta neste momento forte ambiguidade, a dificuldade entre decidir se se deve construir muito ou pouco e aonde, no litoral ou no interior, e a dos campos de golf, eliminou rápida e definitivamente muitas terras agrícolas e comunidades piscatórias, sem que daí se possa concluir, definitivamente, que foi vantajoso embora bem saiba que as regras das economias de mercado são inexoráveis e não se compadecem com saudosismos, salvo se daí advieram proveitos…

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